sexta-feira, 23 de março de 2018
Declaração final do Fórum Alternativo Mundial das Águas
Quem somos
Nós, construtores e construtoras do Fórum Alternativo
Mundial da Água (FAMA), reunidos de 17 a 22 de março de 2018, em Brasília,
declaramos para toda a sociedade o que acumulamos após muitos debates,
intercâmbios, sessões culturais e depoimentos ao longo de vários meses de
preparação e nestes últimos dias aqui reunidos. Somos mais de 7 mil
trabalhadores e trabalhadoras da cidade e do campo, das águas e das florestas,
representantes de povos originários e comunidades tradicionais, articulados em
450 organizações nacionais e internacionais de todos os continentes. Somos
movimentos populares, tradições religiosas e espiritualidades, organizações não
governamentais, universidades, pesquisadores, ambientalistas, organizados em
grupos, coletivos, redes, frentes, comitês, fóruns, institutos, articulações,
sindicatos e conselhos.
Na grandeza dos povos, trocamos experiências de
conhecimento, resistência e de luta. E estamos conscientes que a nossa produção
é para garantir a vida e sua diversidade. Estamos aqui criando unidade e força
popular para refletir e lutar juntos e juntas pela água e pela vida nas suas
variadas dimensões. O que nos faz comum na relação com a natureza é garantir a
vida. A nossa luta é a garantia da vida. É isso que nos diferencia dos projetos
e das relações do capital expressos no Fórum das Corporações – Fórum Mundial da
Água. Também estamos aqui para denunciar a 8º edição do Fórum Mundial da Água
(FMA), o Fórum das Corporações, evento organizado pelo chamado Conselho Mundial
da Água, como um espaço de captura e roubo das nossas águas.
O Fórum e o Conselho são vinculados às grandes corporações
transnacionais e buscam atender exclusivamente a seus interesses, em detrimento
dos povos e da natureza.
Nossas constatações
sobre o momento histórico
O modo de produção capitalista, historicamente, concentra e
centraliza riqueza e poder, a partir da ampliação de suas formas de acumulação,
intensificação de seus mecanismos de exploração do trabalho e aprofundamento de
seu domínio sobre a natureza, gerando a destruição dos modos de vida. Vivemos
em um período de crise do capitalismo e de seu modelo político representado
pela ideologia neoliberal, na qual se busca intensificar a transformação dos
bens comuns em mercadoria, através de processos de privatização, precificação e
financerização.
A persistência desse modelo tem aprofundado as desigualdades
e a destruição da natureza, através dos planos de salvamento do capital nos
momentos de aprofundamento da crise. Nesse cenário, as ações do capital são
orientadas pela manutenção a qualquer custo das suas taxas de juros, lucro e
renda. Esse modelo impõe à América Latina e ao Caribe o papel de produtores de
artigos primários e fornecedores de matéria prima, atividades econômicas
intensivas em bens naturais e força de trabalho. Subordina a economia desses
países a um papel dependente na economia mundial, sendo alvos prioritários
dessa estratégia de ampliação da exploração a qualquer custo. O Brasil, que
sedia esta edição do FAMA, é exemplar nesse sentido.
O golpe aplicado recentemente expõe a ação coordenada de
corporações com setores do parlamento, da mídia e do judiciário para romper a
ordem democrática e submeter o governo nacional a uma agenda que atenda seus
interesses rapidamente. A mais dura medida orçamentária do mundo foi implantada
em nosso país, onde o orçamento público está congelado por 20 anos, garantindo
a drenagem de recursos públicos para o sistema financeiro e criando as bases
para uma onda privatizante, incluindo aí a infraestrutura de armazenamento, distribuição
e saneamento da água. Quais são as estratégias das corporações para a água?
Identificamos que o objetivo das corporações é exercer o controle privado da
água através da privatização, mercantilização e de sua titularização,
tornando-a fonte de acumulação em escala mundial, gerando lucros para as
transnacionais e ao sistema financeiro. Para isso, estão em curso diversas
estratégias que vão desde o uso da violência direta até formas de captura
corporativa de governos, parlamentos, judiciários, agências reguladoras e
demais estruturas jurídico-institucionais para atuação em favor dos interesses
do capital.
Há também uma ofensiva ideológica articulada junto aos meios
de comunicação, educação e propaganda que buscam criar hegemonia na sociedade
contrária aos bens comuns e a favor de sua transformação em mercadoria. O
resultado desejado pelas corporações é a invasão, apropriação e o controle
político e econômico dos territórios, das nascentes, rios e reservatórios, para
atender os interesses do agronegócio, hidronegócio, indústria extrativa,
mineração, especulação imobiliária e geração de energia hidroelétrica. O
mercado de bebida e outros setores querem o controle dos aquíferos.
As corporações querem também o controle de toda a indústria
deabastecimento de água e esgotamento sanitário para impor seu modelo de
mercado e gerar lucros ao sistema financeiro, transformando direito
historicamente conquistado pelo povo em mercadoria. Querem ainda se apropriar
de todos os mananciais do Brasil, América Latina e dos demais continentes para
gerar valor e transferir riquezas de nossos territórios ao sistema financeiro,
viabilizando o mercado mundial da água Denunciamos as transnacionais Nestlé,
Coca-Cola, Ambev, Suez, Veolia, Brookfield (BRK Ambiental), Dow AgroSciences,
Monsanto, Bayer, Yara, os organismos financeiros multilaterais, como o Banco
Mundial e o Fundo Monetário Internacional, e ONGs ambientalistas de mercado,
como The Nature Conservancy e Conservation International, entre outras que
expressam o caráter do “Fórum das Corporações”. Denunciamos o crime cometido
pela Samarco, Vale e BHP Billiton, que contaminou com sua lama tóxica o Rio
Doce, assassinando uma bacia hidrográfica inteira, matando inúmeras pessoas, e
até hoje seu crime segue impune.
Denunciamos o recente crime praticado pela norueguesa Hydro
Alunorte que despejou milhares de toneladas de resíduos da mineração através de
canais clandestinos no coração da Amazônia e o assassinato do líder comunitário
Sergio Almeida Nascimento que denunciava seus crimes. Exemplos como esses têm
se reproduzido por todo o mundo. Os povos têm sido as vítimas desse avanço do
projeto das corporações. As mulheres, povos originários, povos e comunidades
tradicionais, populações negras, migrantes e refugiados, agricultores familiares
e camponeses e as comunidades periféricas urbanas têm sofrido diretamente os
ataques do capital e as consequências sociais, ambientais e culturais de sua
ação. Nos territórios e locais onde houve e/ou existem planos de privatização,
aprofundam-se as desigualdades, o racismo, a violência sexual e sobrecarga de
trabalho para as mulheres, a criminalização, assassinatos, ameaças e
perseguição a lideranças, demissões em massa, precarização do trabalho,
retirada e violação de direitos, redução salarial, aumento da exploração,
brutal restrição do acesso à água e serviços públicos, redução na qualidade dos
serviços prestados à população, ausência de controle social, aumentos abusivos
nas tarifas, corrupção, desmatamento, contaminação e envenenamento das águas,
destruição das nascentes e rios e ataques violentos aos povos e seus
territórios, em especial às populações que resistem às regras impostas pelo
capital.
A dinâmica de acumulação capitalista se entrelaça com o
sistema hetero-patriarcal, racista e colonial, controlando o trabalho das
mulheres e ocultando intencionalmente seu papel nas esferas de reprodução e
produção. Nesse momento de ofensiva conservadora, há o aprofundamento da
divisão sexual do trabalho e do racismo, causando o aumento da pobreza e da
precarização da vida das mulheres. A violência contra as mulheres é uma
ferramenta de controle sobre nossos corpos, nosso trabalho e nossa autonomia.
Essa violência se intensifica com o avanço do capital, refletindo-se no aumento
de assassinato de mulheres, da prostituição e da violência sexual. Tudo isso
impossibilita as mulheres de viver com dignidade e prazer. Para as diversas
religiões e espiritualidades, todas essas injustiças em relação às águas e seus
territórios, caracterizam uma dessacralização da água recebida como um dom
vital, e dificultam as relações com o Transcendente como horizonte maior das
nossas existências.
Destacamos que para os Povos Originários e Comunidades
Tradicionais há uma relação interdependente com as águas, e tudo que as atinge,
e que todos os ataques criminosos que sofre, repercutem diretamente na
existência desses povos em seus corpos e mentes. Esses povos se afirmam como
água, pois existe uma profunda unidade entre eles e os rios, os lagos, lagoas,
nascentes, mananciais, aquíferos, poços, veredas, lençóis freáticos, igarapés,
estuários, mares e oceanos como entidade única. Declaramos que as águas são
seres sagrados. Todas as águas são uma só água em permanente movimento e
transformação. A água é entidade viva, e merece ser respeitada. Por fim,
constatamos que a entrega de nossas riquezas e bens comuns conduz a destruição
da soberania e a autodeterminação dos povos, assim como a perda dos seus
territórios e modos de vida.
Mas nós afirmamos:
resistimos e venceremos!
Nossa resistência e luta é legítima. Somos os guardiões e
guardiãs das águas e defensores da vida. Somos um povo que resiste e nossa luta
vencerá todas as estruturas que dominam, oprimem e exploram nossos povos,
corpos e territórios. Somos como água, alegres, transparentes e em movimento.
Somos povos da água e a água dos povos. Nestes dias de convívio coletivo,
identificamos uma extraordinária diversidade de práticas sociais, com enorme
riqueza de culturas, conhecimento e formas de resistência e de luta pela vida. Ninguém
se renderá. Os povos das águas, das florestas e do campo resistem e não se
renderão ao capital. Assim também tem sido a luta dos povos, dos operários e de
todos os trabalhadores e trabalhadoras das cidades que demonstram cada vez
maior força.
Temos a convicção que só a luta conjunta dos povos poderá
derrotar todas as estruturas injustas desta sociedade. Identificamos que a
resistência e a luta têm se realizado em todos os locais e territórios do
Brasil e do mundo e estamos convencidos que nossa força deve caminhar e unir-se
a grandes lutas nacionais e internacionais. A luta dos povos em defesa das
águas é mundial. Água é vida, é saúde, é alimento, é território, é direito
humano, é um bem comum sagrado.
O que propomos
Reafirmamos que as diversas lutas em defesas das águas dizem
em alto e bom som que água não é e nem pode ser mercadoria. Não é recurso a ser
apropriado, explorado e destruído para bom rendimento dos negócios. Água é um
bem comum e deve ser preservada e gerida pelos povos para as necessidades da
vida, garantindo sua reprodução e perpetuação. Por isso, nosso projeto para as
águas tem na democracia um pilar fundamental. É só por meio de processos
verdadeiramente democráticos, que superem a manipulação da mídia e do dinheiro,
que os povos podem construir o poder popular, o controle social e o cuidado
sobre as águas, afirmando seus saberes, tradições e culturas em oposição ao
projeto autoritário, egoísta e destrutivo do capital. Somos radicalmente
contrários às diversas estratégias presentes e futuras de apropriação privada
sobre a água, e defendemos o caráter público, comunitário e popular dos
sistemas urbanos de gestão e cuidado da água e do saneamento. Por isso saudamos
e estimulamos os processos de reestatização de companhias de água e esgoto e
outras formas de gestão.
Seguiremos denunciando as tentativas de privatização e
abertura de Capital, a exemplo do que ocorre no Brasil, onde 18 estados
manifestaram interesse na privatização de suas companhias. Defendemos o
trabalho decente, assentado em relações de trabalho democráticas, protegidas e
livre de toda forma de precarização. Também é fundamental a garantia do acesso
democrático e sustentável à água junto à implementação da reforma agrária e
defesa dos territórios, com garantia de produção de alimentos em bases
agroecológicas, respeitando as práticas tradicionais e buscando atender a
soberania alimentar dos trabalhadores e trabalhadoras urbanos e do campo,
florestas e águas.
Estamos comprometidos com a superação do patriarcado e da
divisão sexual do trabalho, pelo reconhecimento de que o trabalho doméstico e
de cuidados está na base da sustentabilidade da vida. O combate ao racismo
também nos une na luta pelo reconhecimento, titulação e demarcação dos
territórios dos povos originários e comunidades tradicionais e na reparação ao
povo negro e indígena que vive marginalizado nas periferias dos centros
urbanos. Nosso projeto é orientado pela justiça e pela solidariedade, não pelo
lucro. Nele ninguém passará sede ou fome, e todos e todas terão acesso à água
de qualidade, regular e suficiente bem como aos serviços públicos de
saneamento.
Nosso plano de ações
e lutas
A profundidade de nossas debates e elaborações coletivas, o
sucesso da nossa mobilização, a diversidade do nosso povo e a amplitude dos
desafios que precisam ser combatidos nos impulsionam a continuar o
enfrentamento ao sistema capitalista, patriarcal, racista e colonial, tendo
como referência a construção da aliança e da unidade entre toda a diversidade
presente no FAMA 2018. Trabalharemos, através de nossas formas de luta e
organização para ampliar a força dos povos no combate à apropriação e
destruição das águas. A intensificação e qualificação do trabalho de base junto
ao povo, a ação e a formação política para construir uma concepção crítica da
realidade serão nossos instrumentos. O povo deve assumir o comando da luta.
Apostamos no protagonismo e na criação heroica dos povos.
Vamos praticar nosso apoio e solidariedade internacional a
todos os processos de lutas dos povos em defesa da água denunciam a arquitetura
da impunidade, que, por meio dos regimes de livre-comércio e investimentos,
concede privilégios às corporações transnacionais e facilitam seus crimes
corporativos. Multiplicaremos as experiências compartilhadas no Tribunal Popular
das Mulheres, para a promoção da justiça popular, visibilizando as denúncias
dos crimes contra a nossa soberania, os corpos, os bens comuns e a vida das
mulheres do campo, das florestas, águas e cidades. A água é dom que a
humanidade recebeu gratuitamente, é direito de todas as criaturas e bem comum.
Por isso, nos comprometemos a unir mística e política, fé e profecia em suas
práticas religiosas, lutando contra os projetos de privatização,
mercantilização e contaminação das águas que ferem a sua dimensão sagrada.
O Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA) apoia, se
solidariza e estimulará todos os processos de articulação e de lutas dos povos
no Brasil e no mundo, tais como a construção do “Congresso do Povo”, do
“Acampamento Terra Livre”, da “Assembleia Internacional dos Movimentos e
Organizações dos Povos”, da “Jornada Continental pela Democracia e Contra o
Neoliberalismo”; da campanha internacional para desmantelar o poder corporativo
e pelo “tratado vinculante” como ferramenta para exigir justiça, verdade e
reparação frente aos crimes das transnacionais. Convocamos todos os povos a
lutar juntos para defender a água. A água não é mercadoria. A água é do povo e
pelos povos deve ser controlada. É tempo de esperança e de luta. Só a luta nos
fará vencer. Triunfaremos!
Assinam a declaração:
Articulação dos Povos Indígenas do Brasil Articulação Semiárido Brasileiro
Associação Brasileira de Saúde Coletiva Associação Nacional dos Serviços
Municipais de Saneamento Cáritas Brasil Central de Movimentos Populares
Conselho Nacional das Populações Extrativistas Confederação Nacional dos
Urbanitários Confederação Nacional das Associações de Moradores Coordenação
Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas Conselho
Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil Confederação Nacional dos Trabalhadores
na Agricultura Comissão Pastoral da Terra Confederação Sindical de
Trabalhadores/as das Américas Central Única dos Trabalhadores Federação de
Órgãos para Assistência Social e Educacional
Fórum Brasileiro de ONGs
e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento Federação
Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal Federação
Interestadual de Sindicatos de Engenheiros Frente Nacional pelo Saneamento
Ambiental Federação Nacional dos Urbanitários Federação Única dos Petroleiros
Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Social Instituto Brasileiro de Proteção
Ambiental Internacional de Serviços Públicos Marcha Mundial das Mulheres
Movimento dos Atingidos por Barragens Movimento dos Pequenos Agricultores
Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais do Brasil Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra Movimento dos Trabalhadores Sem Teto ONG
Proscience Rede Mulher e Mídia Serviço Interfranciscano de Justiça Paz e
Ecologia Sociedade Internacional de Epidemiologia Ambiental Vigência.
quarta-feira, 10 de janeiro de 2018
Ecoteologia y mineria
En este diálogo, el teólogo brasileño
Afonso Murad, revela la conexión de la minería con la teología y cómo, a partir
de los desafíos concretos de la minería, podemos hacer lectura de la fe
cristiana. Esa es la cuestión central de la Ecoteología. La entrevista la
realizó el misionero comboniano Dário Bossi, de la Red Iglesias y Minería:
Seguramente
muchos se preguntarán ¿qué conexión puede existir entre la Teología y la
Minería?, y también ¿de qué manera la Ecoteología puede ser útil a las
comunidades que resisten y a las iglesias que se oponen al impacto de la
minería?
La minería es
un sector dentro de la cadena productiva de economía del mercado, donde la
gente percibe un mayor impacto directo sobre el ambiente. La destrucción de las
fuentes de agua, la destrucción de los bosques, un impacto sobre el agua y toda
la biodiversidad, entonces, claro que eso tiene que ver muy de cerca con la
teología.
Segundo,
percibimos como la minería es un fenómeno de destrucción, aniquilamiento de las
comunidades que están en sus territorios que ahora son ocupados por las
empresas mineras. Entonces, son grandes exigencias para los cristianos en
defensa de los pobres, de las comunidades tradicionales: quilombolas,
indígenas, comunidades ribereñas. Esto nos toca de cerca, de alguna manera nos
convoca a estar al lado y junto a los débiles. En ese sentido, diría que la
minería da muchas cosas a la teología porque trae elementos nuevos, fuertes y
nosotros aquí estamos, queriendo hacer ese largo camino de lectura de la fe
cristiana a partir de esos desafíos específicos que nos plantea la actividad
minera.
¿Cómo
define usted a la Ecoteología?
La teología es
una reflexión crítica, sistemática, elaborada sobre la fe cristiana o sobre
cualquier tema significativo, a luz de la fe cristiana. Desde ese punto de
partida, la Ecoteología es una teología que se hace en el horizonte de la
ecología -no es que ella trata solo de ecología-, Sino que lo hace desde la
convicción que nosotros, seres humanos, formamos parte de la Casa Común, del
planeta tierra. Esta Casa Común que la habitamos con otros seres abióticos como
el agua, el aire, la energía, el sol, y todos los otros seres vivos desde las
plantitas hasta los grandes árboles, desde los insectos hasta los mamíferos.
Nosotros somos parte de esa tierra, de esa Casa Común. Por lo tanto, nosotros
somos responsables para que ella continúe habitable, esa es la gran realidad
que nos impulsa a hacer una Ecoteología. O sea, cómo comprender la llamada
doctrina cristiana, la Revelación, cómo vivir la fe cristiana dentro de ese
horizonte. Y, también, Cómo contribuir para tornar nuestro planeta más
habitable y más guiado principalmente por los más pobres.
¿Qué espera
usted de la Red Iglesias y Minería, en un contexto en que las empresas se están
acercando también a las iglesias y, por otro lado, las comunidades están
pidiendo apoyo? En un futuro, cuáles son los pasos que la red puede realizar
Una primera
cosa para mí como teólogo, participar de la red es un aprendizaje constante. Yo
nací en una región donde oía como pasaba el tren llevando mineral de hierro
todos los días. Pero, yo nunca me di cuenta de lo que éso significaba para el
medio ambiente, y para las poblaciones afectadas.
Sucede qué la
minería es una dimensión invisible de la explotación. Quienes vivimos en las
ciudades desconocemos los problemas que genera la minería; la minería de
hierro, de oro, de los metales radioactivos, eso nos toca muy poco. Nosotros
consumimos materiales relacionados a los metales y no sabemos de dónde vienen
ni qué impactos causan. Entonces, yo pienso que el tema de la minería es muy
importante para la Ecoteología y para las Iglesias.
En referencia
a la importancia de las redes: Trabajar en red es fundamental, exactamente
porque nosotros somos débiles. El poder económico de las grandes mineras que
hacen una alianza perversa con el poder político, nos convoca a juntarnos. Y
ahí pienso también que la Red Iglesias y Minería, efectivamente tiene que ser
más ecuménica, de “iglesias”. Reunir, por ejemplo, a las pequeñas iglesias
evangélicas, que son minoría, pero que están comprometidas con la cuestión
social para así tener más fuerza. Ese tipo de red son efectivas porque divulgan
información, muestran las luchas exitosas, ayudan a madurar la metodología y a
responder esa pregunta vital que es: ¿cuáles son las estrategias exitosas de
nuestros aliados -y de nosotros también- y cuáles son las estrategias que
nuestros opositores utilizan. Si no trabajamos en red, muy poco podemos
avanzar.
terça-feira, 2 de janeiro de 2018
Tecnologia e violência (Aspectos históricos)
Eduardo Hoonaert
Muitos de nós pensam que a
tecnologia é ‘neutra’ e não tem nada a ver com violência. Mas quem estuda a
história pensa diferente. Basta contemplar a história do Brasil, de Cuba, do
sul dos Estados Unidos e de Colômbia, para verificar como a simples tecnologia
de transformar cana de açúcar em tabletes de rapadura (açúcar não refinado)
está na origem do tráfico negreiro e das misérias da escravidão, que perduram
até hoje.
Como o tema é pouco conhecido e
de grande importância, a presente contribuição na série ‘violência’ será um
pouco mais comprida que as anteriores e vai se desdobrar em dois textos. Vou me
concentrar numa história concreta: a história da produção tecnológica de
tecidos a partir de algodão. Isso pelo seguinte motivo: três anos atrás, o escritor
americano Sven Beckert publicou um livro impressionante, que demonstra como a
tecnologia do algodão mudou, nos últimos séculos, a face do mundo. O título do
livro é Empire of Cotton (Vintage Books, New York, 2015) e mostra como o
‘império inglês’, na realidade, é o ‘império do algodão’. Pelo que me consta, o
livro não foi traduzido ao português. Nele se pode ler, a partir do exemplo da
tecnologia do algodão, como se deu o surgimento e o crescimento do capitalismo
industrial, a lógica da agricultura industrial e das multinacionais de
alimentos etc.
Ao longo de milhares de anos, os
povos cultivam seu algodão em equilíbrio com as lavouras de alimentos. Há um
equilíbrio. Como se entende então que, a partir do final do século XVIII,
depois de muitos milhares de anos de crescimento econômico lento em toda a
humanidade, algumas partes dessa humanidade repentinamente se tornam muito
ricas, enquanto outras mergulham na pobreza? Eis o que a história do algodão
industrial mostra, pois ela marca o início da Revolução Industrial. Embora, na
atualidade, a indústria de algodão tenha sido ultrapassada por outras
indústrias, o produto continua a ser importante para o emprego e o comércio
mundiais. A produção mundial, em 2013, foi de 123 milhões de fardos, cada um
com cerca de 180 quilos, suficientes para 20 camisetas por pessoa.
Estima-se que, já em 1621, a
Companhia das Índias Orientais – criada pelos ingleses em 1600 – importou cerca
de 50 mil peças de produtos de algodão para a Grã-Bretanha. No entanto, esse
comércio era marginal em comparação com o que os comerciantes do Oriente Médio
e da Índia negociavam. Esses últimos detinham, durante séculos, o comércio
internacional nas mãos, ou seja, ‘vestiam a humanidade’. Mas, a partir do
momento em que os ingleses começaram a ‘dominar as águas’ (‘rule the waves’),
ou seja, possuíam as frotas marítimas mais poderosas do mundo, as coisas
mudaram. A tese do livro acima citado
consiste em mostrar que, concomitantemente com a presença sempre mais forte do
Império Britânico em todo o planeta, se deu o primeiro processamento de algodão
na Inglaterra, exatamente em 1784.
Em 1784, a cidade inglesa de
Liverpool se tornou um rico porto de tráfico de escravos e é com base nessa
riqueza negreira que a emergente indústria de algodão pôde florescer. Um membro
de alguma família negreira bem situada, Samuel Greg, reuniu em 1784, numa
pequena fábrica às margens do Rio Bollin, algumas máquinas de fiação
ultramodernas (conhecidas como water frame), movidas a água (ainda não a
vapor). Um grupo de órfãos e trabalhadores domésticos de aldeias da região
começou a trabalhar com um estoque de algodão proveniente do Caribe. Toda
novidade de Greg consistia no fato que ele não utilizava mais a força do
músculo humano, mas a queda d’água. Embora modesta, sua fábrica era algo novo,
que ia mudar os destinos do mundo. Pela primeira vez na história humana, a
produção de fios era feita por máquinas não impulsionadas por mãos humanas.
A fábrica de Greg provocou
mudanças que ele mesmo nunca imaginou. A matéria-prima que ele precisava para
as suas máquinas era fornecida por comerciantes de Liverpool, os quais a haviam
comprado de navios provenientes da Jamaica e do Brasil. Greg passou a expulsar
fiadores e tecelões indianos que até então dominavam a produção, tanto no
mercado doméstico quanto no internacional. Além disso, ele lutou para que
grande parte de sua produção deixasse o Reino Unido e sustentasse o comércio de
escravos na Costa Oeste da África, além de vestir seus próprios escravos em
Santo Domingos, no Caribe.
Mais, ele começou a atender
usuários na Europa Continental, fora da Inglaterra. Assim se formou uma vasta
rede internacional. Partindo de Liverpool, os comerciantes britânicos dominavam
os mares e formavam as redes comerciais. Desse modo se formou um triângulo de
consequências positivas para uns, nefastas para outros. Eis os pontos do
triângulo:
a. a Inglaterra (Liverpool) que, naquela época, controlava
os mares com sua frota comercial e militar;
b. a África Ocidental, onde os ingleses trocavam seus
tecidos por escravos;
c. a América, que comprava escravos em troca de fardos de
algodão cru cultivados por escravos da África.
Era a repetição do triângulo
feito em torno da produção de açúcar no Brasil, no Caribe e na América do
Norte, mas desta vez com repercussões mundiais. Os fardos de algodão eram
usados como carga de retorno a Liverpool ou Manchester, onde os tecidos eram
fabricados. Desse modo, a carga dos navios estava sempre assegurada. As
máquinas maravilhosas de Greg, impulsionadas pela força da água (e, mais tarde,
por vapor), impulsionavam outra inovação de grande importância: passaram a ser
operadas por assalariados e se tornaram fonte de riqueza por causa da grande
acumulação de capital. Isso criou um novo tipo de Estado, impulsionador do
‘progresso’, ou seja, criado como principal pilar do novo império do algodão. A
partir desse embrião local nas redondezas de Liverpool, a Inglaterra acabaria
por dominar uma economia global amplamente ramificada e por se apropriar de uma
das principais indústrias da humanidade.
A Inglaterra passou a ‘vestir a humanidade’ e estendeu suas asas por
todo o globo. Eis como nasceu o mundo como a conhecemos hoje.
Sob pressão do império do algodão
inglês, os agricultores na Ásia e na África foram forçados a entrar na
monocultura do algodão, o que resultou, às vezes, em grande escassez de
alimentos. Morreram milhões de pessoas em 1877 e, novamente, na década de 1890,
tanto na Índia como no Nordeste do Brasil. A especialização em algodão – com
seus preços voláteis – dominava o universo do dinheiro. Estamos diante de uma
evolução violenta, que causa a morte de milhões de pessoas, enquanto beneficia
a poucos ricos.
Outro mundo é possível? Outro
modelo de tecnologia que não seja violenta e não cause morte e pobreza para
muitos, enquanto produz riqueza para poucos? Existe tecnologia não violenta?
Gandhi tentou, outros ainda tentam, até hoje. Num próximo texto, prossigo
contando essa história de imbricação entre tecnologia e violência.
sexta-feira, 29 de dezembro de 2017
Laudato Si e Amazonia (Um olhar convergente)
(Texto-esquema para diálogo e acréscimos)
SINTONIAS
1. Nós e a Terra: Casa Comum, como
irmã e boa mãe.
Somos PARTE DA TERRA, não seus patrões, dominadores e saqueadores (LS 1-2).
Boa dosagem de linguagem científica e poética, ética e teologia.
Somos PARTE DA TERRA, não seus patrões, dominadores e saqueadores (LS 1-2).
Boa dosagem de linguagem científica e poética, ética e teologia.
2. Sensibilidade para a beleza dos
ecossistemas e de cada ser, a fim de nutrir o ENCANTAMENTO, a admiração e o respeito. (“Beleza” e “formosura”: 32
vezes na LS).
3. Os eixos da LS, marcam também nossas
convicções (LS 16):
- Tudo está estreitamente interligado
no mundo (INTERDEPENDÊNCIA), - Relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta (perspectiva socioambiental),
- Crítica ao paradigma tecnológica e às formas de poder que derivam dela,
- Proposta de outras maneiras de fazer economia e política, local e internacional,
- Valor intrínseco de cada criatura e do dinamismo das comunidades de vida (Evangelho da criação
- Renúncia a fazer da realidade um objeto de domínio (LS 11) - Adoção de estilo de vida: sobriedade feliz (LS 222-227).
- O planeta: bem comum, de todos e para todos, o que implica luta pela justiça social (LS 23, 156-158).
-Supera assim uma fé privatizada e subjetiva. Liga-se à responsabilidade com as gerações futuras (LS 159-162).
- Mudanças climáticas, geração e emissão de resíduos (LS 20-26),
- Questão da água (LS 27-31),
- Perda da biodiversidade (LS 32-42),
- Diminuição da qualidade de vida humana e degradação social (LS 43-47),
- Desigualdade planetária (LS 48-52).
*Se a situação é tão grave, por que as reações são tão fracas, com certo torpor e irresponsabilidade”?
*INDIGNAÇÃO que move à mudança.
- A TECNOCIÊNCIA não é neutra. Uma nova forma de poder, relacionado com o mercado. Ela torna o mundo mais frágil (Riechmann: Um mundo vulnerável)
- Princípio de precaução: limites éticos em relação aos transgênicos (LS 131-135) (Ulrich Beck: Sociedade de risco).
- Critérios para implantação de PROJETOS DE IMPACTO AMBIENTAL, com participação de pesquisadores e das comunidades (LS 35,36,117,140,167. Especialmente: LS 183-187).
- Crítica à economia capitalista, ao modelo de produção, consumo e descarte que transformou todos os seres (e também os humanos) em mercadoria, em vista do lucro crescente: o MERCADO DIVINIZADO.
- Ecologia não é somente verde.
- O meio ambiente nos constitui (LS 138-155).
- Integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o CLAMOR DA TERRA como o CLAMOR DOS POBRES.
DISSONÂNCIAS
1. Ausência de referência às mulheres,
primeiras defensoras de Terra.
2. Falta de referência ao Conselho
Mundial de Igrejas
3. Ausência das tradições religiosas
de raiz (africanas, indígenas).
4. Silêncio sobre os animais.
CAMINHOS
ABERTOS
1.
O antropocentrismo débil, e o “caminho do meio” entre o antropocentrismo
despótico e o biocentrismo radical.
2. No horizonte da Casa Comum, considerar
as belezas e desafios próprios do bioma amazônico.
3. Relacionar, cada vez mais, o
específico do bioma amazônico com a ecologia urbana.
4. Desenvolver categorias
bíblico-teológicas a partir da realidade amazônica.
domingo, 29 de outubro de 2017
Nota da CNBB sobre o trabalho escravo no Brasil
O Espírito do Senhor me ungiu para dar liberdade aos oprimidos” (cf. Lc 4, 18-19)
Reunido em Brasília-DF, nos dias 24 a 26 de outubro de 2017, o Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB manifesta seu veemente repúdio à Portaria 1129 do Ministério do Trabalho, publicada no Diário Oficial da União de 16/10/2017. Tal iniciativa elimina proteções legais contra o trabalho escravo arduamente conquistadas, restringindo-o apenas ao trabalho forçado com o cerceamento da liberdade de ir e vir. Permite, além disso a jornada exaustiva e condições degradantes, prejudicando assim a fiscalização, autuação, penalização e erradicação da escravidão por parte do Estado brasileiro.
Como nos recorda o Papa Francisco, “hoje, na sequência de uma evolução positiva da consciência da humanidade, a escravatura – delito de lesa-humanidade – foi formalmente abolida no mundo. O direito de cada pessoa não ser mantida em estado de escravidão ou servidão foi reconhecido, no direito internacional, como norma inderrogável” (Papa Francisco, Dia Mundial da Paz, 1º de janeiro de 2015). Infelizmente, esse flagelo continua sendo uma realidade inserida no tecido social. O trabalho escravo é um drama e não podemos fechar os olhos diante dessa realidade.
A desumana Portaria é um retrocesso que, na prática, faz fechar os olhos dos órgãos competentes do Governo Federal que têm a função de coibir e fiscalizar esse crime contra a humanidade e insere-se na perversa lógica financista que tem determinado os rumos do nosso país. Essa lógica desconsidera que “o dinheiro é para servir e não para governar” (Evangelii Gaudium, 58). O trabalho escravo é, hoje, uma moeda corrente que coloca o capital acima da pessoa humana, buscando o lucro sem limite (cf. Papa Francisco, Mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, 2014).
Nosso País no qual, por séculos, vigorou a chaga da escravidão de modo legalizado, tem o dever de repudiar qualquer retrocesso ou ameaça à dignidade e liberdade da pessoa humana. Reconhecendo a importância da decisão liminar no Supremo Tribunal Federal que suspende essa Portaria da Escravidão e somando-nos a inúmeras reações nacionais e internacionais, conclamamos a sociedade a dizer mais uma vez um não ao trabalho escravo.
Confiamos a Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, a proteção de seus filhos e filhas, particularmente os mais pobres.
Brasília, 26 de outubro de 2017
Cardeal Sergio da Rocha/ Presidente
Dom Murilo S. Krieger / Vice-Presidente
Dom Leonardo U. Steiner / Secretário-Geral
quinta-feira, 12 de outubro de 2017
sábado, 16 de setembro de 2017
Nota do CIMI sobre Massacre de Indígenas
O Conselho Indigenista Missionário vem a público manifestar profunda preocupação diante das informações acerca de possível massacre de indígenas em isolamento voluntário ocorrido no rio Jandiatuba, interior da Terra Indígena Vale do Javari, no extremo oeste do estado do Amazonas. O Ministério Público Federal (MPF) confirmou que “investiga a denúncia de mortes de índios isolados na região do Vale do Javari” apresentada pela Fundação Nacional do Índio (Funai) e que “há diligências em curso”. O massacre teria sido cometido no mês de agosto de 2017, por garimpeiros que vinham explorando ilegalmente a região. Suspeita-se que a chacina teria sido cometida contra o grupo conhecido como “flecheiros” de cuja existência se tem notícias desde a década de 1970.
As atividades ilegais de garimpo na região do rio Jandiatuba já tinham sido denunciadas às autoridades várias vezes por moradores locais, lideranças indígenas, organizações da sociedade civil e pastorais. Recentemente as atividades de garimpo haviam sido intensificadas na região do limite da Terra Indígena Vale do Javari. No entanto, nenhuma operação de combate ao garimpo ilegal tinha sido deflagrada pelos órgãos de fiscalização até o mês de agosto de 2017. Uma ação neste sentido foi realizada somente no final do mês de agosto, motivada pela notícia do massacre. Causam preocupação também as denúncias de que moradores locais estariam sendo ameaçados.
O alto curso do rio Jandiatuba, onde teria ocorrido o massacre, encontra-se dentro dos limites da Terra Indígena Vale do Javari, mas o seu médio e baixo curso são hoje parte de uma reivindicação de reconhecimento como território dos povos indígenas Kambeba, Kokama e Ticuna do município de São Paulo de Olivença. Há ao menos sete comunidades destes povos no baixo e médio Jandiatuba, que também sofrem com as consequências do garimpo. Os processos de identificação e delimitação desta área encontram-se paralisados. A referida demarcação coibiria a entrada de garimpeiros e outros invasores na região onde se localizam os indígenas isolados, o que evitaria riscos a estes grupos.
Embora não confirmados até o momento, indígenas relatam que outros dois massacres de povos isolados teriam corrido no interior da Terra Indígena Vale do Javari, na região do rio Jutaí.
Embora não confirmados até o momento, indígenas relatam que outros dois massacres de povos isolados teriam corrido no interior da Terra Indígena Vale do Javari, na região do rio Jutaí.
O Vale do Javari é a região com a maior presença de povos indígenas isolados no mundo. São cerca de 15 referências, de um total de 110 existentes na Amazônia brasileira.
Ao cortar recursos da Fundação Nacional do Índio (Funai), o governo Temer promoveu a desestruturação dos trabalhos de Bases de Proteção Etnoambientais localizadas em regiões com registro da presença de povos isolados e de recente contato na Amazônia brasileira, inclusive no Vale do Javari. As mesmas funcionam de modo extremamente limitado, não possuindo recursos para manutenção de pessoal suficiente ou para estrutura necessária ao combate de invasões nas terras indígenas.
Com essas ações, o governo Temer assume o risco da ocorrência de massacres e genocídio desses povos, já que os mesmos ficam completamente expostos a invasões de garimpeiros, caçadores, pescadores ilegais, madeireiros e fazendeiros.
É inaceitável que o genocídio desses povos continue se repetindo em nosso país. O Brasil está entre os países que têm os dispositivos constitucionais mais avançados do mundo em termos de garantia dos direitos dos indígenas. Dispositivos estes que responsabilizam diretamente a União por sua proteção.
No entanto, além do abandono dos povos isolados, o governo Temer vem adotando recorrentes medidas anti-indígenas, que atendem e reforçam os interesses dos ruralistas e demais grupos econômicos interessados na invasão e exploração das terras indígenas. Ações como a aprovação do Parecer 001/2017 da Advocacia Geral da União, o Decreto relativo à Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca) e a Portaria 683/17 do Ministério da Justiça desconstituem os direitos indígenas e funcionam como mecanismos de incentivo às violências contra os povos originários no Brasil.
Por isso, qualquer massacre de indígenas isolados que tenha ocorrido ou que venha a ocorrer no Vale do Javari e ou noutras regiões da Amazônia brasileira é de responsabilidade direta do governo Temer.
É preciso dar um basta ao genocídio de povos indígenas. Conclamamos a todos os homens e mulheres de boa fé, às organizações indígenas, à sociedade civil organizada, às igrejas e à comunidade internacional a exigir do governo brasileiro ações imediatas de proteção dos povos isolados da Amazônia brasileira e, de modo particular, do Vale do Javari. Para isso, dentre outras medidas, faz-se necessário:
- A apuração rigorosa do massacre ocorrido no rio Jandiatuba e das denúncias sobre outros massacres de povos indígenas em isolamento voluntário na região, e a punição dos assassinos;
- O desmantelamento definitivo dos garimpos ilegais nos rios Jutaí e Jandiatuba;
- A criação imediata de Bases de Proteção Etnoambiental na região sul da TI do Vale do Javari;
- A demarcação das terras dos povos indígenas do município de São Paulo de Olivença no baixo e médio curso do rio Jandiatuba;
- A urgente proteção aos moradores locais ameaçados;
- A dotação orçamentária necessária para que a Funai e demais órgãos oficiais de fiscalização possam exercer suas responsabilidades institucionais de combate às invasões e à exploração das terras indígenas;
- A revogação do Parecer 001/2017 da AGU e o fim da conspiração do governo Temer contra dos direitos constitucionais dos povos indígenas no Brasil;
Brasília, 12 de setembro de 2017
Conselho Indigenista Missionário - Cimi
Conselho Indigenista Missionário - Cimi
quarta-feira, 16 de agosto de 2017
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