Entrevista de Graziela
Wolfart a Maurício Waldman*
Fonte: IHU on-line.
Texto condensado
De modo geral, como você define o problema do lixo na sociedade moderna?
Admite-se que
atualmente exista um descarte mundial de 30 bilhões de toneladas de resíduos
por ano. Os lixos já assumiram os contornos de uma calamidade civilizatória. Em
termos mundiais, apenas a quantidade de refugos municipais coletados – estimada
em 1,2 bilhões de toneladas – supera nos dias de hoje a produção global de aço,
orçada em 1 bilhão de toneladas. Por sua vez, as cidades ejetam rejeitos – 2
bilhões de toneladas – que superam no mínimo em 20% a produção planetária de
cereais, demonstrando que o mundo moderno gera mais refugo que carboidrato
básico. Contudo, mesmo esta notável volumetria de resíduos parece não
satisfazer a obsessão em maximizá-los. O resultado disso é uma autêntica
cascata de lixos. Exemplificando, a população norte-americana cresceu quase 2,5
vezes entre 1960 e o ano 2000. Porém, o já magnânimo descarte dos Estados
Unidos praticamente triplicou desde 1960. No ano 2020 a União Europeia estará
descartando 45% mais rebotalhos do que em 1995. Na União Europeia, o lixo
domiciliar se expandiu inclusive em países com evolução populacional pouco
expressiva. No caso espanhol, sete anos (1996-2003), foram suficientes para
incrementar os refugos em 40%.
E no Brasil, como se situa este problema?
O Brasil – ao lado de outras nações do hemisfério Sul – ocupa uma incômoda
posição na questão dos refugos, tanto pelas proporções como pela média per
capita. O lixo brasileiro supera a maioria das nações periféricas. (Embora) corresponda a 3,06% da população
mundial e 3,5% do PIB global, o Brasil é origem de um montante de 5,5% do total
mundial dos resíduos sólidos urbanos. O país é um grande gerador mundial de
lixo e deve assumir sua responsabilidade em contribuir para com a resolução do
problema.
Quais os principais e mais urgentes desafios a serem enfrentados?
Precisamos adotar de verdade os famosos quatro “Rs” : repensar, reduzir,
reutilizar e reciclar. A ordem de aplicação é exatamente essa, começando com
repensar e terminando com reciclar. Repensar a sistemática de ejeção dos lixos
é fundamental, pois é um tema também pavimentado por injunções sociais,
políticas e culturais. O país vivencia nos últimos 20 anos uma escalada na
desova de descartes de uma forma que não têm precedentes. Entre 1991 e 2000 a
população brasileira cresceu 15,6%. Porém, o descarte de resíduos aumentou 49%.
Em 2009 a população cresceu 1%, mas a produção de lixo cresceu 6%. A metrópole
paulista constitui o terceiro polo gerador de lixo no globo. Perde apenas para
Nova York e Tóquio. São Paulo não é a terceira economia metropolitana do
planeta. É a 11ª ou 12ª. Gera-se muito mais lixo do que seria admissível a
partir de um parâmetro eminentemente econômico.
Qual a relação entre a questão do lixo e o consumo (e a consequente geração
de lixo) como indicativo de desenvolvimento?
A cultura organizacional da modernidade, cuja mola mestra são ritmos cada
vez mais velozes impostos à produção, obrigatoriamente tem na reposição
constante dos bens uma meta estratégica da sua reprodução material. Trata-se de
conduzir o consumo para a satisfação de necessidades que não se justificam em
si mesmas, mas prioritariamente constituem pressuposto para a produção. Validar
o dinamismo do implica promover o
descarte contínuo dos bens, ejetados pelo carrossel do consumo. Na perspicaz
argumentação de Abraham Moles , vivemos numa civilização consumidora que produz
para consumir e cria para produzir, um ciclo onde a noção fundamental é a de
aceleração. Consequentemente, quanto mais rápida for a substituição das
mercadorias, tanto mais encorpado será o giro do capital. Quando antes e quanto
mais os produtos se tornarem inúteis, tanto maiores serão os lucros. Ainda que
a contrapartida seja sobre-explorar os recursos naturais e, é claro, maximizar
a geração de lixo. Como seria possível arrematar, este conceito de economia é
caduco, ambientalmente irresponsável e não tem condição nenhuma de manter
continuidade. Ele se tornou uma ameaça para o futuro da espécie humana. Urge
redirecionar a economia para outras vertentes: qualidade de vida, preservação
ambiental, utilização racional dos recursos naturais, revisão do estilo de vida
e da economia dos materiais.
O que deveria fazer parte de um plano de gestão de resíduos municipal ideal?
As pessoas imaginam que seja possível criar um “plano padrão” para a gestão
dos resíduos. Isto é, um programa capaz de ser aplicado em qualquer contexto.
Por exemplo, as cidades de Marabá (Pará), Presidente Prudente (São Paulo) e São
Leopoldo (Rio Grande do Sul) possuem contingente populacional semelhante, em
torno de 200 mil habitantes. Mas isso não significa que uma estratégia de
gestão bem sucedida em São Leopoldo possa ser repetida em Marabá ou em
Presidente Prudente. Então, é importante obter dados do perfil do lixo de cada
cidade, país ou região, assim como as dinâmicas responsáveis pela ejeção de
descartes e, na sequência, trabalhar com os aspectos sociais, econômicos e
culturais envolvidos naquilo que se joga fora. Não existe lixo: existem lixos.
Expressão plural e não singular. Outro aspecto essencial é mudar a visão
tradicional que observa o lixo unicamente como um resultado. Na realidade, o
lixo reporta a um processo, a um dinamismo cujo monitoramento não tem como ser
bem sucedido atendo-se a ele enquanto um resultado final. Objetivamente, o
importante é pensar as causas, origem dos problemas – e não o fim da linha.
Quais são os principais fatores que envolvem o gerenciamento
do lixo no plano municipal?
Existem duas diretrizes matriciais: uma de índole filosófica, dos quatro
“Rs” e outra, atinente aos aspectos logísticos de gestão do lixo. O lixo
brasileiro, que é dotado de uma série de especificidades que devem estar
colocadas no centro das atenções. Em nome dessas peculiaridades que o trabalho
dos catadores deve, por exemplo, ser protegido, incentivado e valorizado pelas
administrações municipais. Mas isso é o oposto do que acontece na maioria dos
casos. Estigmatizados socialmente, o trabalho dos catadores – que corresponde a
mais de 98% dos materiais encaminhados às recicladoras – segue, a despeito do
seu enorme valor social e ambiental, repudiado, quando não hostilizado
abertamente, pelas administrações municipais (..) Tal situação requer revisão
imediata.
Como estes fatores então devem ser levados em consideração?
O problema do lixo pode, ao menos, ser mitigado com
o concurso de procedimentos inteligentes e práticas ambientalmente corretas. O
volume de detritos orgânicos no lixo domiciliar brasileiro pende entre 52% a
69,6% do total. Tal é a magnitude da fração úmida no lixo residencial.
Normalmente, o sistema de limpeza urbana desova toda essa portentosa massa de
sobras nos aterros. Mas existem outras soluções. Deveríamos priorizar a
educação ambiental, trabalhar contra o desperdício. O Brasil está entre os dez
países que mais jogam comida no lixo, com perda média de 35% da produção agrícola.
Cada família brasileira desperdiça cerca de 20% dos alimentos que adquire no
período de uma semana e a Companhia Nacional de Abastecimento – Conab estima
perdas em grãos em torno de 10% da produção. Outras avaliações indicam que
praticamente 64% do que é cultivado no país acaba lançado na lata de lixo. Isso
é um contrassenso manifesto numa nação rotineiramente assediada por campanhas
de combate à fome. Portanto, devemos atacar a raiz do problema e parar de
pensar que gestão dos resíduos se resume a tirar saquinho da calçada. A gestão
dos resíduos deve se situar antes do saquinho, e não depois dele (..)
O meio ambiente e as cidades lucrariam muito mais na hipótese de se universalizar
a compostagem doméstica do que ficar investindo em caros sistemas de logística
de coleta de resíduos, em aterros e incineradores. Com a adoção de minhocários
domésticos, a redução do lixo orgânico pode alcançar a proporção de 95% do
total. Isso significa que os gastos com coleta de lixo urbano podem retrair em
até 50%. Consequentemente, haveria grande economia para o erário público,
propiciando mais verba para saúde e educação. Mesmo que apenas uma parcela da
população adote o sistema, ainda assim os ganhos seriam consideráveis.
*Maurício Waldman é escritor, professor universitário, pesquisador e consultor ambiental.
Tem doutorado em Geografia pela USP. É pós-doutor pelo Departamento de
Geografia do Instituto de Geociências da Unicam. Foi chefe da coleta seletiva
de lixo da capital paulista e coordenador do meio ambiente em São Bernardo do
Campo. É coautor de Lixo: cenários e desafios ( Cortez Editora, 2010).
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