quinta-feira, 15 de maio de 2014

Teólogos e cientistas naturais no caminho da sabedoria

No seu texto “Teólogos e cientistas naturais no caminho da sabedoria”, o teólogo Jürgen Moltmann reflete sobre a colaboração entre as ciências naturais e a teologia partindo da seguinte pergunta: Em que áreas as ciências naturais e as religiões se encontram e travam um diálogo produtivo visando a uma cooperação benéfica à vida?
Segundo ele, o diálogo entre a ‘ciência natural pura’ e ‘teologia científica’ tem um sucesso limitado por dois motivos. Primeiro, porque ele não promete nenhum ganho de conhecimento aos cientistas naturais em seu próprio campo; e segundo, porque falta a muitos cientistas e teólogos a filosofia como plano mediador. Como consequência, muitas vezes se usam conceitos que não são refletidos criticamente e, por isso, não são compreendidos. Nesse sentido, para conseguir uma influência recíproca de ciência natural e teologia científica podem se procurar planos mediadores numa abrangente teoria filosófica da ciência ou numa hermenêutica geral da história. Isso permitiria assimilar e interpretar experiências da natureza como experiências transcendentes.
Tentativa interessante nessa direção é feita pelos cientistas incentivados a elaborar pensamentos religiosos sem vinculá-los à determinada religião, e também pelos teólogos que, por causa e para além de sua teologia, tem pensamento científico-natural. Mas nem sempre é fácil achar a harmonia desejada entre a experiência científica da natureza, que é universal, objetiva e repetível e a experiência religiosa, que é comunitária, subjetiva e irrepetível. Diante dessa dificuldade, Moltmann se pergunta se não seria esse conceito amplo e multívoco de experiência um plano mediador para o geral e o particular, o regular e o contingente.
Outra tentativa consiste nos esforços para relacionar ‘ciências naturais’ e ‘ética’. Moltmann afirma que a pesquisa científica é, sem dúvida, objetiva, mas não “livre de valores”, já que ela se submete a determinados interesses na sociedade. Nesse sentido, o ethos inerente do progresso técnico-científico tem sua própria dinâmica e, infelizmente, no seu desenvolvimento, no lugar do velho otimismo do progresso entrou o fatalismo, que não permite, no fundo, nenhuma alternativa ética. Por isso, as ciências naturais, em especial as biociências, devem ser compreendidas em seu contexto econômico-social (complexo científico-técnico-industrial). Então, perguntar-se se esse complexo é sábio, quer dizer, se está a serviço da vida.
Outro intento de articular ciência natural e teologia no contexto da vida comum é efetuada no plano da sabedoria, seguindo a tradição antiga para a qual todo saber está incrustado na sabedoria da vida. A phrónesis ou sabedoria prática abarca saber e moral, de modo que o ser humano aprende a lidar sabiamente com seu conhecimento e a relacionar de modo realista sua moral à realidade conhecida. É somente pelas experiências, positivas e negativas, que ficamos sábios, enquanto permanecemos interessados pela vida.
A revolução científica moderna desvinculou as ciências desse contexto amplo e compreendeu a razão científica como “razão instrumental”, isto é, como poder sobre a natureza e sobre a vida própria, ocasionando a emancipação e separação das ciências naturais da sabedoria. Uma teologia emancipada da sabedoria se fundamenta total e exclusivamente na auto-revelação de Deus ou na autocerteza da fé, e em consequência do conflito “razão-revelação” surge a controvérsia sobre a justiça ou injustiça da “teologia natural”.
O autor sustenta que não deve haver concorrência entre teologia da revelação e teologia natural. Por um lado, a teologia natural, por meio da qual o ser humano se torna sábio, reconhece Deus como criador a partir da mesma criação. Por outro lado, é pela teologia da revelação, que se oferece o conhecimento da revelação de Deus, do Salvador, que o ser humano se torna bem-aventurado. Então, sendo ambas as teologias complementares, se deduz que a fé e a razão podem habitar a mesma casa da sabedoria e contribuir, cada uma a seu modo, para a construção desse edifício, numa cultura com experiência de vida.
Na procura da sabedoria, o ser humano descobre e aprende. São necessárias as observações e os experimentos das ciências naturais, não apenas para colher informações, mas também para aprender com a sabedoria que é inerente à natureza. Pois existe um complexo processo de aprendizagem do ser vivo e uma antiquíssima memória armazenada na estrutura da matéria e nos estágios do orgânico. Uma ciência intervencionista, que não procura a sabedoria, mas unicamente saber o que se pode “fazer” com o objeto conhecido ou como modificá-lo para ser útil, emudece a natureza e emburrece o ser humano.
Moltmann conclui que a busca pela sabedoria da vida humana cria um diálogo entre a sabedoria natural descoberta e a sabedoria humana a ser aprendida. A sabedoria humana procurará a conciliação entre a cultura humana e os ecossistemas da Terra, cuja meta é um acordo com a natureza que lide de forma inteligente com a vida. Esse acordo começa com o respeito à antiquíssima memória da vida nos processos naturais e a “reverência à vida” como o mandamento supremo que deriva do “direito à vida”.

Resumo de: MOLTMANN, Jürgen. Teólogos e cientistas naturais no caminho da sabedoria. In: ______. Ciência e sabedoria. São Paulo: Loyola, 2007. p. 41-47, como atividade de PIBIC, bolsa da FAPEMIG, realizado por Gonzalo Benavides Mesones.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Oficina Espiritualidade e Ecologia

Durante o 1º Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora, em Fortaleza, de 1 a 4 de maio de 2014, realiza-se a Oficina "Espiritualidade e Ecologia".
Os 27 jovens e adultos participantes se envolveram nas atividades, nas discussões e na convivência, formando rapidamente um grupo em sintonia.

terça-feira, 15 de abril de 2014

A paz perene com a Mãe Terra

Leonardo Boff

Um dos legados mais fecundos de Francisco de Assis e atualizado por Francisco de Roma é a pregação da paz, tão urgente nos dias atuais. A primeira saudação que São Francisco dirigia aos que encontrava era desejar “Paz e Bem” que corresponde ao Shalom bíblico. A paz que ansiava não se restringia às relações inter-pessoais e sociais. Buscava uma paz perene com todos os elementos da natureza, tratando-os com o doce nome de irmãos e irmãs.

Especialmente a "irmã e Mãe Terra”, como dizia, deveria ser abraçada pelo amplexo da paz. Seu primeiro biógrafo Tomás de Celano resume maravilhosamente o sentimento fraterno do mundo que o invadia ao testemunhar: “Enchia-se de inefável gozo todas as vezes que olhava o sol, contemplava a lua e dirigia sua vista para as estrelas e o firmamento. Quando se encontrava com as flores, pregava-lhes como se fossem dotadas e inteligência e as convidava a louvar a Deus. Fazia-o com terníssima e comovedora candura: exortava à gratidão os trigais e os vinhedos, as pedras e as selvas, a plantura dos campos e as correntes dos rios, a beleza das hortas, a terra, o fogo, o ar e o vento”.

Esta atitude de reverência e de enternecimento levava-o a recolher as minhocas dos caminhos para não serem pisadas. No inverno dava mel às abelhas para que não morressem de escassez e de frio. Pedia aos irmãos que não cortassem as árvores pela raiz, na esperança de que pudessem se regenerar. Até as ervas daninhas deveriam ter um lugar reservado nas hortas, para que pudessem sobreviver, pois “elas também anunciam o formosíssimo Pai de todos os seres”.
Só pode viver esta intimidade com todos os seres quem escutou sua ressonância simbólica dentro da alma, unindo a ecologia ambiental com a ecologia profunda; jamais se colocou acima das coisas, mas ao pé delas, verdadeiramente como quem convive como irmão e irmã, descobrindo os laços de parentesco que une a todos.

O universo franciscano e ecológico nunca é inerte nem as coisas estão jogadas aí, ao alcance da mão possessora do ser humano ou justapostas uma ao lado da outra, sem interconexões entre elas. Tudo compõe uma grandiosa sinfonia cujo maestro é o próprio Criador. Todas são animadas e personalizadas; por intuição descobriu o que sabemos atualmente por via científica (Crick e Dawson, os que decifraram o DNA) que todos os viventes somos parentes, primos, irmãos e irmãs, por possuirmos o mesmo código genético de base. Francisco experimento espiritualmente esta consanguinidade. Desta atitude nasceu uma imperturbável paz, sem medo e sem ameaças, paz de quem se sente sempre em casa com os pais, os irmãos e as irmãs.

São Francisco realizou plenamente a esplêndida definição que a Carta da Terra encontrou para a paz: “é aquela plenitude criada por relações corretas consigo mesmo, com as outras pessoas, outras culturas, outras vidas, com a Terra e com o Todo maior do qual somos parte”(n.16 f). O Papa Francisco parece ter realizado as condições para a paz que irradia.
A suprema expressão da paz, feita de convivência fraterna e acolhida calorosa de todas as pessoas e coisas é simbolizada pelo conhecido relato da perfeita alegria. Através de um artifício da imaginação, Francisco apresenta todo tipo de injúrias e violências contra dois confrades (um deles é ele próprio, Francisco). Encharcados de chuva e de lama, chegam, exaustos, ao convento. Aí são rechaçados a bastonadas (“batidos com um pau de nó em nó”) pelo frade porteiro. Embora tenham sido reconhecidos como confrades, são vilipendiados moralmente e rejeitados como gente de má fama.

No relato da perfeita alegria, que encontra paralelos na tradição budista, Francisco vai, passo a passo, desmontando os mecanismos que geram a cultura da violência. A verdadeira alegria não está na autoestima, nem na necessidade de reconhecimento, nem em fazer milagres e falar em línguas. Em seu lugar, coloca os fundamentos da cultura da paz: o amor, a capacidade de suportar as contradições, o perdão e a reconciliação para além de qualquer pressuposição ou exigência prévia. Vivida esta atitude, irrompe a paz que é uma paz interior inalterável, capaz de conviver jovialmente com as mais duras oposições, paz como fruto de completo despojamento. Não são essas as primícias de um Reino de justiça, de paz e de amor que tanto desejamos?

Esta visão da paz de São Francisco representa  outro modo de ser-no-mundo, uma alternativa ao modo de ser da modernidade e das pós-modernidade, assentado sobre a posse e o uso desrespeitoso das coisas para o desfrute humano sem qualquer outra consideração.
Embora tenha vivido há mais de oitocentos anos, novo é ele e não nós. Nós somos velhos e envelhecidos que com a nossa voracidade estamos destruindo as bases que sustentam a vida em nosso planeta e pondo em risco o nosso futuro como espécie. A descoberta da irmandade cósmica nos ajudará a sair da crise e nos devolverá a inocência perdida que é a claridade infantil da idade adulta.

Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/2014/04/12/a-paz-perene-com-a-natureza-e-a-mae-terra-2/

sábado, 5 de abril de 2014

Bem Viver: nova forma de existência e de organização da sociedade

De acordo com David Choquehuanca, especialista em cosmovisão andina, o Viver Bem (ou Bem Viver) é um processo que está apenas começando e que pouco a pouco irá se massificando. “Para os que pertencem à cultura da vida, o mais importante não é o dinheiro nem o ouro, nem o ser humano, porque ele está em último lugar. O mais importante são os rios, o ar, as montanhas, as estrelas, as formigas, as borboletas (...) O ser humano está em último lugar. Mas, para nós o mais importante é a vida”.

(1) O Viver Bem dá prioridade à natureza mais que ao ser humano
Estas são as características que pouco a pouco serão implementadas no novo Estado Plurinacional
Priorizar a vida: Viver Bem é buscar a vivência em comunidade, onde todos os integrantes se preocupam com todos. O mais importante não é o ser humano (como afirma o socialismo) nem o dinheiro (como postula o capitalismo), mas a vida. Pretende-se buscar uma vida mais simples. Que seja o caminho da harmonia com a natureza e a vida, com o objetivo de salvar o planeta e dar a prioridade à humanidade.
Obter acordos consensuados: Viver Bem é buscar o consenso entre todos, o que implica que mesmo que as pessoas tenham diferenças, na hora de dialogar se chegue a um ponto de neutralidade em que todas coincidam e não se provoquem conflitos. “Não somos contra a democracia, mas o que faremos é aprofundá-la, porque nela existe também a palavra submissão e submeter o próximo não é viver bem”.
Respeitar as diferenças: Viver Bem é respeitar o outro, saber escutar todo aquele que deseja falar, sem discriminação ou qualquer tipo de submissão. Não se postula a tolerância, mas o respeito, já que, mesmo que cada cultura ou região tenha uma forma diferente de pensar, para viver bem e em harmonia é necessário respeitar essas diferenças. Esta doutrina inclui todos os seres que habitam o planeta, como os animais e as plantas.
Viver em complementaridade: Viver Bem é priorizar a complementaridade, que postula que todos os seres que vivem no planeta se complementam uns com os outros. Nas comunidades, a criança se complementa com o avô, o homem com a mulher, etc. O homem não deve matar as plantas, porque elas complementam a sua existência e ajudam para que sobreviva.
Equilíbrio com a natureza: Viver Bem é levar uma vida equilibrada com todos os seres dentro de uma comunidade. Assim como a democracia, a justiça também é considerada excludente, porque só leva em conta as pessoas dentro de uma comunidade e não o que é mais importante: a vida e a harmonia do ser humano com a natureza. É por isso que Viver Bem aspira a ter uma sociedade com equidade e sem exclusão.
Defender a identidade: Viver Bem é valorizar e recuperar a identidade. Dentro do novo modelo, a identidade dos povos é muito mais importante do que a dignidade. A identidade implica em desfrutar plenamente de uma vida baseada em valores que resistiram mais de 500 anos (desde a conquista espanhola) e que foram legados pelas famílias e comunidades que viveram em harmonia com a natureza e o cosmos.

(2) Um dos principais objetivos do Viver Bem é retomar a unidade de todos os povos
O saber comer, beber, dançar, comunicar-se e trabalhar também são alguns aspectos fundamentais.
Aceitar as diferenças: Viver Bem é respeitar as semelhanças e diferenças entre os seres que vivem no mesmo planeta. Ultrapassa o conceito da diversidade. “Não há unidade na diversidade, mas é semelhança e diferença, porque quando se fala de diversidade só se fala de pessoas. Esta colocação se traduz em que os seres semelhantes ou diferentes jamais devem se ofender.
Priorizar direitos cósmicos: Viver Bem é dar prioridade aos direitos cósmicos antes que aos Direitos Humanos. Quando o Governo fala de mudança climática, também se refere aos direitos cósmicos “Por isso Evo Morales diz que será mais importante falar sobre os direitos da Mãe Terra do que falar sobre os direitos humanos”.
Saber comer: Viver Bem é saber alimentar-se, saber combinar os alimentos adequados a partir das estações do ano (alimentos de acordo com a época). Esta consigna deve se reger com base na prática dos ancestrais que se alimentam com um determinado produto durante toda a estação. Comenta que alimentar-se bem garante boa saúde.
Saber beber: Viver Bem é saber beber álcool com moderação. Nas comunidades indígenas cada festa tem um significado e o álcool está presente na celebração, mas é consumido sem exageros ou ofender alguém. “Temos que saber beber; em nossas comunidades tínhamos verdadeiras festas que estavam relacionadas com as estações do ano. Não é ir a uma cantina e se envenenar com cerveja e matar os neurônios”.
Saber dançar: Viver Bem é saber dançar [danzar], não simplesmente saber bailar [bailar]. A dança se relaciona com alguns fatos concretos, como a colheita ou o plantio. As comunidades continuam honrando com dança e música a Pachamama, principalmente em épocas agrícolas; entretanto, nas cidades as danças originárias são consideradas expressões folclóricas. Na nova doutrina se renovará o verdadeiro significado do dançar.
Saber trabalhar: Viver Bem é considerar o trabalho como festa. “O trabalho para nós é felicidade”. Ao contrário do capitalismo onde se paga para trabalhar, no novo modelo do Estado Plurinacional, se retoma o pensamento ancestral de considerar o trabalho como festa. É uma forma de crescimento, é por isso que nas culturas indígenas se trabalha desde pequeno.
Retomar o Abya Yala: Viver bem é promover a união de todos os povos em uma grande família. Isto implica em que todas as regiões do país se reconstituam no que ancestralmente se considerou como uma grande comunidade. “Isto tem que se estender a todos os países. É por isso que vemos bons sinais de presidentes que estão na tarefa de unir todos os povos e voltar a ser o Abya Yala que fomos”.
Reincorporar a agricultura: Viver Bem é reincorporar a agricultura às comunidades. Parte desta doutrina do novo Estado Plurinacional é recuperar as formas de vivência em comunidade, como o trabalho na terra, cultivando produtos para cobrir as necessidades básicas para a subsistência. Neste ponto se fará a devolução de terras às comunidades, de maneira que se produzam as economias locais.
Saber se comunicar: Viver Bem é saber se comunicar. No novo Estado Pluninacional se pretende retomar a comunicação que existia nas comunidades ancestrais. O diálogo é o resultado desta boa comunicação. “Temos que nos comunicar como antes os nossos pais o faziam, e resolviam os problemas sem que se apresentassem conflitos, não temos que perder isso”.

(3) O Viver Bem não é “viver melhor”, como propugna o capitalismo
Entre os preceitos estabelecidos pelo novo modelo do Estado Plurinacional, figuram o controle social, a reciprocidade e o respeito à mulher e ao idoso.
Controle social: Viver Bem é realizar um controle obrigatório entre os habitantes de uma comunidade. “Este controle é diferente do proposto pela Participação Popular, que foi rechaçado (por algumas comunidades) porque reduz a verdadeira participação das pessoas”. Nos tempos ancestrais, “todos se encarregavam de controlar as funções que suas principais autoridades realizavam”.
Trabalhar em reciprocidade: Viver Bem é retomar a reciprocidade do trabalho nas comunidades. Nos povos indígenas esta prática se denomina ayni, que não é mais do que devolver em trabalho a ajuda prestada por uma família em uma atividade agrícola, como o plantio ou a colheita. “É mais um dos princípios ou códigos que garantirão o equilíbrio nas grandes secas”, explica o Ministro das Relações Exteriores.
Não roubar e não mentir: Viver Bem é basear-se no ama suwa e ama qhilla (não roubar e não mentir, em quéchua). É fundamental que dentro das comunidades se respeitem estes princípios para conseguir o bem-estar e confiança em seus habitantes. “Todos são códigos que devem ser seguidos para que consigamos viver bem no futuro”.
Proteger as sementes: Viver Bem é proteger e guardar as sementes para que no futuro se evite o uso de produtos transgênicos. Uma das características deste novo modelo é preservar a riqueza agrícola ancestral com a criação de bancos de sementes que evitem a utilização de transgênicos para incrementar a produtividade, porque se diz que esta mistura com químicos prejudica e acaba com as sementes milenares.
Respeitar a mulher: Viver Bem é respeitar a mulher, porque ela representa a Pachamama, que é a Mãe Terra que tem a capacidade de dar vida e de cuidar de todos os seus frutos. Por estas razões, dentro das comunidades, a mulher é valorizada e está presente em todas as atividades orientadas à vida, à criação, à educação e à revitalização da cultura. Os moradores das comunidades indígenas valorizam a mulher como base da organização social, porque transmitem aos seus filhos os saberes de sua cultura.
Viver Bem e NÃO melhor: Viver Bem é diferente de viver melhor, o que se relaciona com o capitalismo. Para a nova doutrina do Estado Plurinacional, viver melhor se traduz em egoísmo, desinteresse pelos outros, individualismo e pensar somente no lucro. Considera que a doutrina capitalista impulsiona a exploração das pessoas para a concentração de riquezas em poucas mãos, ao passo que o Viver Bem aponta para uma vida simples, que mantém uma produção equilibrada.
Recuperar recursos: Viver Bem é recuperar a riqueza natural do país e permitir que todos se beneficiem desta de maneira equilibrada e equitativa. A finalidade da doutrina do Viver Bem também é a de nacionalizar e recuperar as empresas estratégicas do país no marco do equilíbrio e da convivência entre o ser humano e a natureza em contraposição à exploração irracional dos recursos naturais.
Exercer a soberania: Viver Bem é construir, a partir das comunidades, o exercício da soberania no país. Isto significa que se chegará a uma soberania por meio do consenso comunal que defina e construa a unidade e a responsabilidade a favor do bem comum, sem que nada falte. Nesse marco, se reconstruirão as comunidades e nações para construir uma sociedade soberana que será administrada em harmonia com o indivíduo, a natureza e o cosmos.
Aproveitar a água: Viver Bem é distribuir racionalmente a água e aproveitá-la de maneira correta. A água é o leite dos seres que habitam o planeta. “Temos muitas coisas, recursos naturais, água e, por exemplo, a França não tem a quantidade de água nem a quantidade de terra que há em nosso país, mas vemos que não há nenhum Movimento Sem Terra, assim que devemos valorizar o que temos e preservá-lo o melhor possível, isso é Viver Bem”.
Escutar os anciãos: Viver Bem é ler as rugas dos avós para poder retomar o caminho. Uma das principais fontes de aprendizagem são os anciãos das comunidades, que guardam histórias e costumes que com o passar dos anos vão se perdendo. “Nossos avós são bibliotecas ambulantes, assim que devemos aprender com eles”, menciona. Portanto, os anciãos são respeitados e consultados nas comunidades indígenas do país.

Fonte: Dossiê Bem-viver, ISER Assessoria e IHU.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Ecoteologia e evangélicos

Thiago Gigo Pereira – (Revista Ultimato)

A Igreja evangélica (que vive o Evangelho) brasileira tem omitido temas muito pertinentes para a contemporaneidade, como por exemplo, o crescimento sustentável ou a Ecoteologia. Provavelmente porque temos muitos líderes que nada se preocupam com as causas ambientais; fomentam, unilateralmente, uma cosmovisão espiritualizada e longe das realidades vitais da sociedade, das quais a manutenção e cuidado da criação de Deus são necessidades fundamentais. A Terra agoniza pela ação do homem; o aquecimento global, a extinção dos animais e o fim dos recursos naturais são demonstração do poder do pecado e do egoísmo humano.
A Igreja de Cristo deve ser coerente com os valores bíblicos que diz praticar e comprometida com Deus, que diz servir. As Escrituras ensinam que o que Deus criou “é bom” – não porque a Terra pode saciar os interesses humanos de consumo desenfreado, mas porque é bom e benéfico aquilo que Deus faz no e pelo Planeta. Gênesis 1:31 E viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom.
Não há a mínima semelhança entre o Deus da Bíblia e o deus do capitalismo hodierno, que consome desenfreadamente, tudo o que vê pela frente. Não que o capitalismo deva ser totalmente demonizado, entretanto o crescimento econômico a qualquer custo abre portas para o oportunismo predatório. O homem perdeu os limites de sua atuação e a extração dos materiais primários da natureza beira a demência. Há uma pregação constante para “crescer” nos discursos políticos.
O Cristão não pode se esquecer que muitos problemas do descontrole climático e também sociais, são causas de uma mentalidade psicopatológica, obsessiva e gananciosa do homem. Antes de crescer é preciso discutir o que o desenvolvimentismo causou, sobretudo no Brasil. É necessária uma avaliação da ação da igreja, das políticas e da sociedade em geral diante da ânsia do crescimento moderno. Erramos muito até aqui e não podemos continuar com essas aberrações comportamentais, muito menos nos omitir.

Algumas problemáticas, também assinaladas na Ecoteologia de Leonardo Boff, são exigências de reflexão aprofundada sobre o assunto, que muitas vezes, é preterido pela Igreja. Há mais de 400 anos que a cosmovisão desenvolvimentista assola o planeta a partir do desencadeamento da revolução industrial. O ser humano quer absorver tudo o que a terra fornece. Os recursos naturais estão se extinguindo. Os combustíveis fósseis, recursos minerais e a água estão acabando. Assim como tivemos guerras pelo petróleo, não seria um devaneio imaginar lutas dos povos pela água.
O grande problema é que o homem se vê como centro de tudo na criação e soberano sobre os recursos primários. O antropocentrismo fecha as portas para o desenvolvimento sustentável. Por isso a Bíblia ensina que Deus é Soberano, sobre tudo e todos. Ele é o Dono, proprietário absoluto do universo e deu á humanidade o privilégio de administrar o planeta. Todavia essa ecoadministração não deve ser feita inescrupulosamente. O que vemos é que o crescimento a qualquer custo faz do homem um parasitóide consumidor dos benefícios da criação de maneira indiscriminada. O ser humano, enfim, se revela como uma besta-fera da terra procurado destruir o que vê pelo caminho (com todo respeito as bestas) como se tivesse tal liberdade para devastar o que Deus criou com tanto zelo.
Essa falta de consciência ecoteológica e o culto ao capitalismo selvagem têm levado muitos cristãos a distúrbios comportamentais luciferianos e de verdadeiros “anticristos”, na maneira de agir. Quando uma pessoa joga material não biodegradável no chão, peca contra a criação e contra o Criador.
Não tenho visto pregadores da TV e arrebatadores de multidões pregarem sobre o pecado da anti-sustentabilidade ecológica. O Cristo do cristão se preocupa com os animais, a mata, a semente, o solo, a água e também com o bem estar da sociedade. Jesus Cristo sempre utilizou as parábolas para ensinar, um recurso hermenêutico abundante na Bíblia, bem como na cultura semita. As coisas simples e aparentemente desprezíveis eram ressaltadas por Jesus na sua linguagem ecoteológica.

O meio vivencial de Jesus era rural; sobretudo para quem vem da periferia, da Galiléia, o meio ambiente é fundamental para o bem estar da sociedade. Não somente por isso, mas porque Jesus Cristo é agente da criação: “Porque Nele (em Cristo), foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e invisíveis, sejam tronos, soberanias, poderes e autoridades; todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele” (Cl 1:16). Por isso Seu discurso é muito diferente dos oportunistas que angariam votos nas eleições através das falácias populistas que desprezam o crescimento sustentável. O futuro da nação brasileira e do planeta "está em nossas mãos".
A posteridade não terá seu lugar ao sol? Ou onde viverão será apenas o resultado da falta de consciência da atualidade? É preciso haver não apenas um amor pelo próximo, mas também um amor cósmico.
Fonte: Revista Ultimato (versão digital)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Teologia de Terra e Espiritualidade Ecológica

J. Moltmann
Encontramo-nos hoje no fim da era moderna e no início do futuro ecológico do nosso mundo, se o nosso mundo deve sobreviver. Com isso, entende-se um novo paradigma, em seu nascimento, que liga entre si a cultura humana e a natureza da Terra de uma forma diferente de como ocorreu no paradigma da era moderna. A era moderna foi determinada pela tomada de poder do ser humano sobre a natureza e as suas forças. Essas conquistas e tomadas de posse da natureza chegaram hoje ao seu limite.

Todos os indícios indicam que o clima da Terra está se alterando drasticamente por obra de influentes comportamentos humanos. As calotas de gelo dos polos da Terra estão derretendo, o nível da água aumenta, algumas ilhas desaparecem, aumentam os períodos de seca, ampliam-se os desertos e assim por diante. Nós conhecemos tudo isso, mas não fazemos nada com relação ao que sabemos. A maior parte das pessoas fecham os olhos ou estão como que paralisadas. Porém, nada favorece tanto as catástrofes quanto o não fazer nada paralisante. Precisamos compreender a natureza de um modo novo e de uma nova imagem de ser humano e, por isso, de uma nova experiência de Deus na nossa cultura. Uma nova teologia ecológica pode nos ajudar nisso.

Segundo as tradições bíblicas, Deus não infundiu seu próprio espírito divino apenas no ser humano, mas em todas as suas criaturas: "Escondes tua face e eles se apavoram, / retiras deles a respiração, e expiram, / voltando a ser pó. / Envias o teu sopro e eles são criados, / e assim renovas a face da terra" (Salmo 104, 29-30). Pode-se deduzir disso: se a imagem e semelhança divina do ser humano depende do espírito divino que nele habita, então todas as criaturas, nas quais habita o Espírito de Deus, são imagens de Deus e, portanto, devem ser respeitadas. Em todo caso, os seres humanos fazem parte da natureza da Terra de um modo tão estreito que se encontram na mesma situação não redimida e na esperança comum da redenção. Os seres humanos não serão salvos "desta" terra, mas "com" esta terra, da caducidade e da morte.

Paulo ouviu o "gememos no íntimo, esperando […] a libertação para o nosso corpo" (Rm 8, 23) por parte daqueles que são animados pelo Espírito de Deus. Por isso, Ele também ouviu o "gemido e a expectativa" da criação não humana ao seu redor (Rm 8, 22). Ele estava convencido de que é o próprio Espírito de Deus que faz com que nós e toda a criação gemamos à espera da redenção do destino de morte. O Espírito presente é o princípio da nova criação, na qual não haverá mais a morte, porque ele é o Espírito da ressurreição de Jesus e a presença difundida do Ressuscitado.
A teologia ortodoxa expressou isso com a esperança não só na divinização dos seres humanos, mas também na divinização do cosmos: "Toda a natureza está destinada à glória, da qual os seres humanos terão parte no reino do cumprimento". Os homens, na sua singularidade, no seu destino e na sua esperança de vida, são uma parte da natureza. Portanto, eles não estão no centro do mundo, mas, para sobreviver, devem se integrar na natureza da Terra e na comunidade das criaturas com as quais vivem.

A arrogância do poder sobre a natureza e a liberdade de fazer dela o que querem não compete a eles, mas lhes compete, sim, uma "humildade cósmica" e uma consideração atenta por tudo o que eles fazem à natureza. Só quando estivermos conscientes da nossa dependência à vida da Terra e da existência de outros seres vivos nos tornaremos, de "divindades soberbas e infelizes" (Lutero), seres humanos.
O verdadeiro saber não é o poder, mas a sabedoria. As novas ciências astrofísicas demonstraram as interações entre os âmbitos inanimados e os animados do nosso planeta Terra. Disso deriva a ideia de que a biosfera da Terra forma com a atmosfera, os oceanos e as planícies um sistema complexo, único no seu gênero, que tem a capacidade de produzir vida e de criar espaços vitais. É a muito discutida teoria de Gaia, de James Lovelock. Apesar do nome poético da deusa grega da Terra, não se pretende com isso fazer uma divinização da Terra. Mas a Terra é concebida como um organismo vivo que produz vida e cria espaços vitais.

Se entendemos a vida em sentido puramente biológico, então a terra não é "viva", porque não se reproduz. No entanto, deve se dizer que ela é mais do que viva, porque produz vida. Ela não é nem um "organismo", no sentido em que conhecemos os organismos biológicos. Ela é mais do que um organismo, porque produz organismos. A Terra é um sujeito de tipo particular, incomparável e único. Não é um conglomerado aleatório de matéria e energia, não é nem cega, nem muda. É inteligente, porque produz inteligência.
Em um ponto específico da sua evolução, a Terra começou a sentir, a pensar, a tomar consciência de si mesma e a merece respeito. Nós, seres humanos, somos criaturas da Terra. Portanto, não estamos diante da Terra como seus sujeitos, mas, na nossa dignidade de seres humanos, somos parte da Terra e membros da comunidade terrena das criaturas. Nós mesmos somos "cocriaturas", juntamente com os outros seres vivos.

Esse sentimento cósmico de comunhão é mais amplo do que todos os âmbitos da natureza que podemos conhecer e dominar. Por isso, hoje é tempo de colocar no centro a santidade da Terra e de nos integrarmos conscientemente à comunidade da Terra. Comecemos a falar sobre um tema particular da teologia cristã, tema que, na reviravolta ecológica para a Terra e as suas condições de vida, torna-se atual hoje: a teologia natural. Embora tradicionalmente se entendia por essa expressão um conhecimento indireto de Deus a partir da natureza, hoje precisamos de um conhecimento indireto da natureza a partir de Deus.
As crises ecológicas destroem as condições vitais da Terra. Para conservá-la apesar das forças destrutivas, precisamos de um "sim" à Terra que supere tais forças e de um invencível amor pela Terra. Há talvez um maior reconhecimento e um amor mais forte do que a fé na presença de Deus na Terra e nas suas condições de vida? Precisamos de uma teologia da Terra e de uma nova espiritualidade da criação.

Fonte: Site IHU. Publicado originalmente  no jornal Avvenire (Itália), 18-05-2012.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Congresso da Mãe Terra (documento final)

Nosotras y nosotros, hombres y mujeres, convocados por el Espíritu que “renueva la faz de la tierra”, hemos celebrado este primer Congreso de la Madre Tierra los días 22, 23 y 24 de enero del año 2014, con una participación de: obispos locales, obispos de otros países, asesores; mujeres y hombres que compartimos la palabra y más de 900 personas representantes de los distintos pueblos e invitados de distintas iglesias y organizaciones. Nos hemos encontrado, para conmemorar los 40 años del Congreso Indígena de 1974 y los tres años de la Pascua gloriosa del J’Tatic Samuel, que condujo los destinos de esta diócesis durante 40 años (1960-2000).
Al hacer memoria de los acontecimientos más significativos de la Historia de nuestro pueblo desde el Congreso Indígena hasta la actualidad, sentimos que “nuestro corazón se calentaba”, como les sucedió a los discípulos de Emaús mientras el “compañero peregrino” les hacia un recuento de las Escrituras relacionadas con la historia y la liberación del pueblo de Israel.

Pero cuando compartimos el Pan de la Palabra, “de repente se abrieron nuestros ojos” y pudimos comprender y analizar la realidad desde el corazón de nuestros pueblos que reconocen la presencia de Dios en todo lo creado.
Nos dimos cuenta que el sistema capitalista neoliberal, patriarcal, represor y dominante, no es todopoderoso; todopoderoso sólo es Dios. Descubrimos que nuestra fuerza principal está en la “armadura de la fe” que nos dice San Pablo en la Carta a los Efesios: la Palabra de Dios, la ética y la espiritualidad.
Ante el poderío de las transnacionales y de los gobiernos cómplices y aliados de las mismas, que buscan acaparar las tierras y los bienes naturales del aire, del suelo y del subsuelo, que Dios nos regaló, es necesario que tengamos el valor de plantarnos ante ellos y decirles: “¡detente, hermano, porque esta tierra es de Dios!”.
Esto nos llevó a profundizar en el compromiso de la hora presente: analizar los signos de los tiempos, cuidar y defender a la Madre Tierra, denunciar las estructuras de injusticia y de pecado que “matan a nuestro pueblo” (Papa Francisco), y construir modelos alternativos de economía y organización social que vayan conformando otro mundo posible y necesario y que sean signos del Reino que Jesús nos anunció.

Igual que los discípulos de Emaús, después del encuentro con Jesús, recobraron la esperanza y regresaron apresuradamente a Jerusalén a confirmar en la fe a sus hermanos, así también nosotros ahora regresamos a nuestras comunidades, para reanimarlas a que, todas y todos juntos, nos comprometamos a la gran tarea que tenemos que realizar:
•Concientizarnos y concientizar a las familias y comunidades sobre las realidades que estamos viviendo.
•Promover una formación integral que nos dé elementos para desenmascarar los engaños del sistema opresor y buscar caminos alternativos.
•Organizar las comunidades para el cuidado y la defensa de la Madre Tierra , buscando la unidad por encima de diferencias políticas, ideológicas  y religiosas.
•Articular y reorganizar todas las áreas pastorales para llevar a cabo los compromisos de este Congreso.
•Con representantes de cada uno de los equipos conformar una instancia diocesana que de seguimiento a los acuerdos del Congreso.
•Conformar pueblos y comunidades que sean sujetos de su desarrollo y de su historia, capaces de resistir al sistema dominante y de construir alternativas de organización social y eclesial, donde se pueda vivir y disfrutar la autonomía personal y comunitaria.
•Seguir avanzando en la construcción de modelos de Iglesia autóctona, participativa, con equidad de género y compromiso social, que sea signo e instrumento del Reino de Dios.
•Exigimos a las autoridades del país y hacemos un llamado al pueblo para que se impida la siembra de maíz  y de cualquier otro cultivo transgénico.
•Nos oponemos a los mega - proyectos y a la explotación minera   depredadora.
•Nos oponemos a las reformas estructurales propuestas por el gobierno que promueven los intereses de las clases dominantes en perjuicio del pueblo.
•Nos pronunciamos en contra de estos más de veinte años de reformas agrarias de corte  neoliberal, que no nos han tomado en cuenta como pueblos indígenas,  comunidades campesinas y como  nación.

Con la certeza y convicción de que otro mundo es posible, convocamos a las Iglesias hermanas, organizaciones sociales  y a la sociedad en general a unirnos todos y todas a colaborar y trabajar juntos para que este sueño se convierta en una realidad.
Que este Congreso nos impulse a vivir una etapa nueva en el compromiso pastoral de nuestra diócesis en conjunto con todas las personas de buena voluntad, haciendo nuestro el mensaje del Apocalipsis de Juan que nos invita a superar un pasado de opresión, desolación y muerte y a comprometernos en la construcción de “los Cielos Nuevos y la Tierra Nueva”, donde reine la paz, el amor, la felicidad, la armonía y el equilibrio entre los seres humanos y con la Madre Tierra.

San Cristóbal de las Casas, Chiapas. 24 de enero de 2014
(Fonte: portal amerindiaenlared)

domingo, 22 de dezembro de 2013

Natal cósmico (2)


Na noite de natal,
o universo inteiro se iluminou
a partir de tênue chama de Belém.
O Filho(a) de Deus se fez matéria finita,
habitou no mundo, também por ele criado.
E nessa inusitada solidariedade,
os humanos, os ecossistemas, a Terra,
as estrelas, os sóis e as Galáxias
se reconheceram como casa de Deus.
(Afonso Murad)
 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Vertentes da Ecologia

Ecologia ambiental
Esta primeira vertente se preocupa com o meio ambiente, para que não sofra excessiva desfiguração, com qualidade de vida e com a preservação das espécies em extinção. Ela vê a natureza fora do ser humano e da sociedade. Procura tecnologias novas, menos poluentes, privilegiando soluções técnicas. Ela é importante porque procura corrigir os excessos da voracidade do projeto industrialista mundial, que implica sempre custos ecológicos altos. Se não cuidarmos do planeta como um todo, podemos submetê-lo a graves riscos de destruição de partes da biosfera e, no seu termo, inviabilizar a própria vida no planeta.
Bibliografia mínima de orientação
- Berry, T. O sonho da Terra, Vozes, Petrópolis 1991.
- Boff, L., Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres, Atica, S.Paulo 1995.
- Capra. F.,O ponto de mutação, Cultrix, S.Paulo 1991.
- Dajoz, R.,Ecologia gerl, Vozes, Petrópolis 1983.
- Lovelock,J.,Gaia, um novo olhar sobre a vida na Terra, Edições 70, Lisboa 1987.
- Varios, Cuidando do planeta Terra. Uma estratégia para o futuro da vida, publicação conjunta de UICN/ PNUMA/WWR, S.Paulo 1991.
- Wilson, E., O futuro da vida, Campus, Rio de Janeiro 2001.

Ecologia social
A segunda - a ecologia social - não quer apenas o meio ambiente. Quer o ambiente inteiro. Insere o ser humano e a sociedade dentro da natureza. Preocupa-se não apenas com o embelezamento da cidade, com melhores avenidas, com praças ou praias mais atrativas. Mas prioriza o saneamento básico, uma boa rede escolar e um serviço de saúde decente. A injustiça social significa uma violência contra o ser mais complexo e singular da criação que é o ser humano, homem e mulher. Ele é parte e parcela da natureza.
A ecologia social propugna por um desenvolvimento sustentável. É aquele em que se atende às carências básicas dos seres humanos hoje sem sacrificar o capital natural da Terra e se considera também as necessidades das gerações futuras que têm direito à sua satisfação e de herdarem uma Terra habitável com relações humanas minimamente justas. Mas o tipo de sociedade construída nos últimos 400 anos impede que se realize um desenvolvimento sustentável. É energívora, montou um modelo de desenvolvimento que pratica sistematicamente a pilhagem dos recursos da Terra e explora a força de trabalho.

No imaginário dos pais fundadores da sociedade moderna, o desenvolvimento se movia dentro de dois infinitos: o infinito dos recursos naturais e o infinito do desenvolvimento rumo ao futuro. Esta pressuposição se revelou ilusória. Os recursos não são infinitos. A maioria está se acabando, principalmente a água potável e os combustíveis fósseis. E o tipo de desenvolvimento linear e crescente para o futuro não é universalizável. Não é, portanto, infinito. Se as famílias chinesas quisessem ter os automóveis que as famílias americanas têm, a China viraria um imenso estacionamento. Não haveria combustível suficiente e ninguém se moveria.
Carecemos de uma sociedade sustentável que encontra para si o desenvolvimento viável para as necessidades de todos. O bem-estar não pode ser apenas social, mas tem de ser também sociocósmico. Ele tem que atender aos demais seres da natureza, como as águas, as plantas, os animais, os microorganismo, pois todos juntos constituem a comunidade planetária, na qual estamos inseridos, e sem os quais nós mesmos não viveríamos.
Bibliografia mínima de orientação
- Boff, L., Ecologia, mundialização, espiritualidade, Atica, S.Paulo 1996.
- Boff, L., Do iceberg à arca de Noé, Garamond, Rio de Janeiro 2002.
- Boff, L., Ecologia social em face da pobreza e da exclusão, em Etica da vida, Letraativa, Brasilia 2000, pp. 41-72.
- Minc, C., Como fazer movimento ecológico e defender a natureza e as liberdades, Vozes, Petrópolis 1987.
- Müller, R, O nascimento de uma civilização global, Aquariana, S.Paulo 1993.
- Vários. Nosso futuro comum. Comissão Mundial sobre o Meio Ambiene, Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro 1988.

Ecologia mental
A terceira, a ecologia mental, chamada também de ecologia profunda, sustenta que as causas do déficit da Terra não se encontram apenas no tipo de sociedade que atualmente temos. Mas também no tipo de mentalidade que vigora, cujas raízes alcançam épocas anteriores à nossa história moderna, incluindo a profundidade da vida psíquica humana consciente e inconsciente, pessoal e arquetípica.
Há em nós instintos de violência, vontade de dominação, arquétipos sombrios que nos afastam da benevolência em relação à vida e à natureza. Aí dentro da mente humana se iniciam os mecanismos que nos levam a uma guerra contra a Terra. Eles se expressam por uma categoria: a nossa cultura antropocêntrica. O antropocentrismo considera o ser humano rei/rainha do universo. Pensa que os demais seres só têm sentido quando ordenados ao ser humano; eles estão aí disponíveis ao seu bel-prazer. Esta estrutura quebra com a lei mais universal do universo: a solidariedade cósmica. Todos os seres são interdependentes e vivem dentro de uma teia intrincadíssima de relações. Todos são importantes.

Não há isso de alguém ser rei/rainha e considerar-se independente sem precisar dos demais. A moderna cosmologia nos ensina que tudo tem a ver com tudo em todos os momentos e em todas as circunstâncias. O ser humano esquece esta realidade. Afasta-se e se coloca sobre as coisas em vez de sentir-se junto e com elas, numa imensa comunidade planetária e cósmica. Importa recuperarmos atitudes de respeito e veneração para com a Terra.
Isso somente se consegue se antes for resgatada a dimensão do feminino no homem e na mulher. Pelo feminino o ser humano se abre ao cuidado, se sensibiliza pela profundidade misteriosa da vida e recupera sua capacidade de maravilhamento. O feminino ajuda a resgatar a dimensão do sagrado. O sagrado impõe sempre limites à manipulação do mundo, pois ele dá origem à veneração e ao respeito, fundamentais para a salvaguarda da Terra. Cria a capacidade de re-ligar todas as coisas à sua fonte criadora que é o Criador e o Ordenador do universo. Desta capacidade re-ligadora nascem todas as religiões. Precisamos hoje revitalizar as religiões para que cumpram sua função religadora.
Bibliografia mínima de orientação
-Berry, T., O sonho da Terra, Vozes, Petrópolis 1991.
- Boff, L., A nova era: a civilização planetária, Atica, S.Paulo 1995.
- Boff, L.,Eco-espiritualidade:sentir, pensar e amar como Terra, em Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres, Atica, S.Paulo 1995, pp.285-307.
- Lutzenberger, J., Gaia, o planeta vivo(por um caminho suave), L&PM 1990, Porto Alegre 1990.
- Prigogine, I. E Stengers I, A nova aliança, Editora da Universidade de Brasilia, Brasilia 1990.
- Sagan, C., Pálido ponto azul, Companhia das Letras, S.Paulo 1996.
- Unger, N.M., Encantamento do humano:ecologia e espiritualidade, Loyola, S.Paulo 1997.
-Zohar, D.e Dr. Ian Marshall, QS, Inteligência espiritual, Record, Rio de Janeiro 2000.

Ecologia integral
Por fim, a quarta - a ecologia integral - parte de uma nova visão da Terra. É a visão inaugurada pelos astronautas a partir dos anos 60 quando se lançaram os primeiros foguetes tripulados. Eles vêem a Terra de fora da Terra. De lá, de sua nave espacial ou da Lua, como testemunharam vários deles, a Terra aparece como resplandecente planeta azul e branco que cabe na palma da mão e que pode ser escondido pelo polegar humano.
Daquela perspectiva, Terra e seres humanos emergem como uma única entidade. O ser humano é a própria Terra enquanto sente, pensa, ama, chora e venera. A Terra emerge como o terceiro planeta de um Sol que é apenas um entre 100 bilhões de outros de nossa galáxia, que, por sua vez, é uma entre 100 bilhões de outras do universo, universo que, possivelmente, é apenas um entre outros milhões paralelos e diversos do nosso. E tudo caminhou com tal calibragem que permitiu a nossa existência aqui e agora. Caso contrário não estaríamos aqui. Os cosmólogos, vindos da astrofísica, da física quântica, da biologia molecular, numa palavra, das ciências da Terra, nos advertem que o inteiro universo se encontra em cosmogênese. Isto significa: ele está em gênese, se constituindo e nascendo, formando um sistema aberto, sempre capaz de novas aquisições e novas expressões. Portanto ninguém está pronto. Por isso, temos que ter paciência com o processo global, uns com os outros e também conosco mesmo, pois nós, humanos, estamos igualmente em processo de antropogênese, de constituição e de nascimento.

Três grandes emergências ocorrem na cosmogênese e antropogênese: (1) a complexidade/diferenciação, (2) a auto-organização/consciência e (3) a religação/relação de tudo com tudo. A partir de seu primeiro momento, após o Big-Bang, a evolução está criando mais e mais seres diferentes e complexos (1). Quanto mais complexos mais se auto-organizam, mais mostram interioridade e possuem mais e mais níveis de consciência (2) até chegaram à consciência reflexa no ser humano. O universo, pois, como um todo possui uma profundidade espiritual. Para estar no ser humano, o espírito estava antes no universo. Agora ele emerge em nós na forma da consciência reflexa e da amorização. E, quanto mais complexo e consciente, mais se relaciona e se religa (3) com todas as coisas, fazendo com que o universo seja realmente uni-verso, uma totalidade orgânica, dinâmica, diversa, tensa e harmônica, um cosmos e não um caos.

As quatro interações existentes, a gravitacional, a eletromagnética e a nuclear fraca e forte, constituem os princípios diretores do universo, de todos os seres, também dos seres humanos. A galáxia mais distante se encontra sob a ação destas quatro energias primordiais, bem como a formiga que caminha sobre minha mesa e os neurônios do cérebro humano com os quais faço estas reflexões. Tudo se mantém religado num equilíbrio dinâmico, aberto, passando pelo caos que é sempre generativo, pois propicia um novo equilíbrio mais alto e complexo, desembocando numa ordem, rica de novas potencialidades.
Bibliografia mínima de orientação
- Boff, L., Uma cosmovisão ecológica: a narrativa atual, em Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres, Atica, S.Paulo1995, pp.63-100.
- Crema, R., Introdução à visão holística, Cultrix, S.Paulo 1997.
- De Duve, C, Poeira vital. A vida como imperativo cósmico, Campus, Rio de Janeiro 1997.
- Gadotti, M., Pedagogia da Terra, Editora Fundação Peirópolis, S.Paulo 2001.
- Hawking, S., O universo numa casca de noz, Mandarin, S.Paulo 2001.
- Müller, R., O nascimento de uma civilização global, Aquariana, S.Paulo 1991.
- Zohar, D., O ser quântico. Uma visão revolucionária da natureza humana e da consciência baseada na nova física, Best Seller, S.Paulo 1991.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O que é consciência planetária?

Abordaremos duas questões: conceito básico de “consciência planetária” e que tipo de “consciência” está aqui implicada. Este tema foi originalmente publicado no artigo “Consciência planetária, sustentabilidade e religião”, na Revista “Horizonte”, onde você encontra a bibliografia correspondente. 

Consciência ou visão planetária significa a (re)descoberta de que o mundo se torna um todo, o ser humano é membro da Terra e deve assumir a responsabilidade pelo futuro do planeta habitável. Tal percepção se configura como um modelo de compreensão que, nos humanos, incide sobre a visão de si mesmos e das suas relações, levando a posturas, gestos, iniciativas, políticas e processos em vista da sustentabilidade. Esse caminho também repercute na experiência religiosa, na mística, na compreensão acerca da relação do ser humano com o Sagrado. Alcançar a visão planetária expressa uma significativa e ainda minoritária etapa da evolução da humanidade, implicando tarefa de expansão e aprofundamento. Espera-se que a consciência planetária contagie mais pessoas, povos e países.
O conceito de consciência planetária é esboçado no Preâmbulo da Carta da Terra, em estilo esperançoso e estimulador : No meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a esse propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida e com as futuras gerações.

Vejamos agora o primeiro elemento que compõe o conceito de consciência planetária e a relação entre eles: o fato de ser uma forma específica de “consciência”.
Na linguagem comum, “estar consciente” equivale a manter-se desperto, com as funções mentais ativas. Opõe-se ao estado de sono ou qualquer outra forma de desconexão de parte dos mecanismos sensoriais. “Ser consciente de” alude a compreender determinada situação, ter as informações necessárias e saber das consequências de suas escolhas. Tem também uma conotação ética. Uma pessoa “sem consciência” não julga corretamente suas ações, distingue de forma insuficientemente o bem do mal, aparentemente não sente culpa pelos erros cometidos, nega-se a avaliar o resultado de suas ações em relação aos outros. No horizonte das ciências modernas, o termo “consciência” abarca uma multiplicidade de sentidos: psicológico, sociológico, social, histórico, de classe, ético e outros. Vamos selecionar alguns deles.
A consciência está ligada ao processo de compreensão, à percepção. A pessoa tem a capacidade de assimilar, interpretar e reelaborar algo através da inteligência, levando a aperfeiçoar ou recriar conceitos, emitir juízos éticos com discernimento, relacionar fatos e teorias. A percepção influencia a maneira como vemos, julgamos, conceituamos e qualificamos as realidades subjetivas, intersubjetivas e objetivas . Por meio dela o ser humano se apropria das informações obtidas pelos sentidos, ao interpretá-las, selecioná-las e organizá-las. O educador ambiental Genebaldo Freire Dias utiliza a expressão “ecopercepção” como compreensão das principais questões socioambientais, suas causas e possíveis soluções. Na perspectiva do autor, o que está em jogo não é somente o acesso às informações, mas sim a forma como captamos as informações e as relacionamos. Ecopercepção implica uma postura ética: tomar atitudes pessoais e coletivas em vista da continuidade da teia da vida em nosso planeta.
Convém notar que a consciência planetária é mais do que ecológica, pois tematiza a utopia viável de superação da exploração econômica, social, étnica e política, em favor de sociedades interconectadas com equidade, que cultivem o respeito, a tolerância, a diversidade e a cooperação. A visão planetária, embora assumida por cada pessoa, pode ser classificada como um tipo de consciência coletiva, na acepção de Durkheim. Do ponto de vista da sociologia, o termo “consciência” compreende: quem somos (autoconhecimento), o que é o mundo (conhecimento experiencial da realidade) e o que deve ser mudado nele (critérios éticos para a ação transformadora). Neste sentido, “consciência planetária” designa o conjunto de ideias e valores que fundamentam e motivam um amplo movimento social em defesa da vida na Terra.

A visão planetária é uma forma de “consciência crítica”, tal como é compreendida por João Batista Libanio: autocompreensão do ser humano, nas suas relações intersubjetivas, comunitárias e estruturais. Libanio identifica três etapas de evolução da consciência na humanidade: o momento do objeto, o do sujeito e o social . Posteriormente, ele acrescenta o momento da consciência ecológica. Assim, articula o pensar dialético com o quântico. Intenta ajudar as pessoas a pensarem, compreendendo os complexos mecanismos que envolvem a vida intelectual. Segundo ele, como atitude fundamental, o senso crítico é um esforço para superar as primeiras impressões, o óbvio, o imediato, o visivelmente aparente, indo às raízes da realidade. A dimensão crítica da consciência planetária se liga àquilo que Goleman chamou de “inteligência ecológica”, ao desenvolvimento de sensibilidade abrangente que permite perceber as interconexões entre as ações humanas e seus impactos ocultos no planeta, na saúde dos indivíduos e da coletividade e nos sistemas sociais. Segundo ele, trata-se de uma habilidade que se conquista coletivamente, implicando a conscientização acerca das consequências profundas do que fazemos e do que compramos, a determinação de mudar para melhor e a disseminação dos conhecimentos adquiridos,

No dizer do filósofo José Carlos Aguiar de Souza: “A consciência planetária significa um estar atento aos destinos do planeta que é a nossa casa comum (..), consciente dos problemas que o afetam”. Num só movimento, a consciência plenamente atenta se encontra presente tanto a si mesma quanto à alteridade dos seres bióticos e abióticos, que constituem a ecosfera.
Portanto, o termo “consciência”, aplicado à visão planetária, significa simultaneamente: processo de compreensão, postura crítica, opção ética, além de modelo de interpretação ou paradigma emergente.
Fonte: http://periodicos.pucminas.br/index.php/horizonte/article/view/P.2175-5841.2013v11n30p443