terça-feira, 5 de junho de 2012

Dia do meio ambiente: corpo da Terra e o corpo de Cristo

Marcelo Barros
A Amazônia ressurge das águas da pior inundação dos últimos tempos. O sertão do Nordeste, ao contrário, há tempos, não via seca tão extrema. Em outras paisagens do mundo, a cada dia, notícias de um novo terremoto se fazem ouvir. Cientistas concluem: a terra sempre tremeu e o clima sempre alternou enchentes e estiagens, mas nunca em ritmo tão frequente e de forma tão intensa. Atualmente, o ecossistema reage como pode às agressões humanas. A novidade é que se certas profecias indígenas se cumprem e o mundo parece se acabar, dessa vez, a sentença não vem de alguma divindade magoada com os desmandos da humanidade, mas do próprio ser humano que transforma tudo em mercadoria e destrói a natureza apenas em função do lucro. Graças a Deus, uma parte sadia da sociedade civil internacional se mobiliza e toma consciência: a sustentabilidade do planeta é assunto tão urgente e importante que não pode mais ser deixado ao arbítrio de governos que promovem o sistema econômico que destrói a terra. São as comunidades indígenas, grupos afrodescendentes, movimentos sociais organizados e a parte mais consciente da sociedade civil que se articulam e se unem para pensar o futuro e propor uma nova forma de relação do ser humano com a terra e a natureza.

No dia 05 de junho, a ONU celebra mais uma vez o dia internacional do meio ambiente. Neste ano, essa comemoração ocorre poucos dias antes da Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável que se reunirá no Rio de Janeiro de 20 a 22 desse mês. Exatamente por não querer deixar assunto tão determinante para toda a humanidade apenas em mãos de governos e técnicos, a sociedade civil internacional resolveu se mobilizar. No mesmo tempo e lugar, enquanto a ONU se reúne para estudar novas medidas paliativas para aliviar os impactos do Capitalismo sobre a terra, os movimentos sociais se reúnem na Cúpula dos Povos, para um grande mutirão de cura e salvação do planeta Terra, assim como da busca da sustentabilidade que nos envolve a todos. A Conferência oficial da ONU proporá como solução o que está sendo chamado de "economia verde”. Trata-se de taxar um preço para cada elemento da natureza. Pensam que, ao ter de pagar pelas consequências dos seus desmandos, os responsáveis pela destruição evitarão o pior. Ao contrário, as comunidades populares sabem que a terra, a água e o ar não se salvarão por uma cotação de preços à natureza. Qual o preço de uma árvore frondosa? E quanto paga uma empresa para poluir um rio e matar a vida que nele habita? Quanto custará um pouco de ar puro? A Cúpula dos Povos deixará claro que se a sociedade não mudar esse modo de organizar a sociedade não haverá esperança para a terra e a comunidade da vida no planeta.

Nessa mesma semana em que a ONU celebra o Dia Mundial do Meio Ambiente, coincidentemente, na próxima quinta feira, a Igreja Católica celebra a festa do Corpo e Sangue de Cristo. Em muitas cidades, se fazem procissões e em outras concentrações coletivas para honrar a eucaristia. Ainda são poucos os católicos que percebem: ao manifestar sua presença no convívio afetuoso em uma ceia e especificamente nos elementos do pão e do vinho, símbolos de todo o universo, este se torna assim um imenso corpo cósmico do Cristo. É preciso que todas as tradições religiosas fortaleçam a dimensão ecológica da sua espiritualidade. É na comunhão com a terra, a água e todos os seres do universo que encontramos a Deus e, podemos testemunhar o que escreveu Paulo: "quando todas as coisas estiverem sob o projeto e como o Cristo quer, então também esse estará plenamente em Deus e, então, Deus será tudo em todos os seres” (1 Cor 15, 28).

segunda-feira, 4 de junho de 2012

A dor da seca e das cercas no nordeste

Frei Gilvander Moreira

Início de junho de 2012, no sertão da Bahia, depois de tantas promessas com o projeto da transposição do Rio São Francisco. Uma criança de nove anos, com uma irmãzinha menor no colo, carrega um balde de água na cabeça, servida por um caminhão pipa. A mãe foi para São Paulo para trabalhar de doméstica e envia, mensalmente, o pouco que ganha para a família. Eis uma cena que nos leva às lágrimas. Mais uma vez a seca está campeando no semi-árido brasileiro. Quem tem coração chora ao ver e sentir as agruras dos pobres e animais sem água. Estudos do Instituto de Atividades Espaciais – IAE -, de São José dos Campos, SP, prevê, através do “Prognóstico do Tempo a Longo Prazo”, que a cada 26 anos ocorre uma grande seca em todo o semi-árido brasileiro. Grave é que esta seca instalada agora promete durar todo o ano de 2012 e também por todo o ano de 2013 (...)

Nesse árduo contexto, participamos na cidade de Januária, norte de Minas, de 25 a 27 de maio de 2012, do III Encontro popular da bacia do rio São Francisco, promovido pela Articulação Popular São Francisco Vivo.  Participaram dezenas de representantes das lutas de defesa do Rio, do povo e de todo seu bioma, lutas que estão em curso na Bacia Sanfranciscana - de Minas, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. Foi um encontro de resistência. Foi reconfortante (re)encontrar tantas pessoas militantes da mesma causa: a do rio São Francisco, do seu povo e de toda a biodiversidade existente na grande bacia do Velho Chico. Que beleza perceber que os povos tradicionais – quilombolas, indígenas, geraizeiros, vazanteiros, comunidades de fundo e fechos de pasto, pescadores, ribeirinhos – estão firmes resistindo aos projetos capitalistas. Resistem para continuarem existindo!

Visitamos algumas aldeias do povo indígena Xacriabá, no município de São João das Missões, MG. Foi emocionante constatar como os nossos parentes indígenas têm uma mística/espiritualidade que os move a conviver com a terra, as águas e toda a biodiversidade com uma postura de veneração pelo divino que está em todos e em tudo. Os Xacriabás estão lutando pela conquista de seu território integral. Cerca de 50 mil hectares de seu território ainda continuam grilados. Visitamos também três comunidades do Rio dos Cochos que, com o apoio da Cáritas, há mais de dez anos, estão revitalizando o Rio dos Cochos. Com os frutos do cerrado fazem suco, doces, remédios, renda familiar. Fizeram barraginhas com lombadas para contenção das enxurradas e aproveitamento das águas pluviais. Replantaram matas ciliares, tendo, inclusive, matas ciliares doadas para a universidade fazer pesquisa. Recuperaram nascentes e as preservam. Cobram políticas públicas de saneamento e de preservação ambiental em toda a região.

Na análise da conjuntura ficou claro que a Transposição das águas do rio São Francisco vai de mal a pior. Obras paradas com rachaduras, um grande número de famílias expulsas de suas casas, povo desiludido. As promessas estão se revelando falsas, conforme denunciou com autoridade o bispo dom Luiz Flávio Cappio. “Várias construtoras largaram a Transposição e foram fazer obras da COPA. Exigem aditivos contratuais acima de 40%. Quem acreditou na propaganda da transposição está desiludido. Cadê os empregos? Demissões estão acontecendo aos montes”, denuncia padre Sebastião Gonçalves, da Diocese de Floresta, PE. Todos os que estão participando do Projeto de Convivência com o semi-árido dizem: “O problema do Nordeste não é a seca, mas são as cercas do latifúndio, do hidro e agronegócio, da indústria da seca que se compõe de obras faraônicas tal como a Transposição do Velho Chico, a Transnordestina, as monoculturas, grandes projetos para exportação.”

Após muitas trocas de experiências, palestras, debates e planejar a continuidade da luta, o Encontro encerrou-se nas águas do Velho Chico, onde os indígenas cantaram e todos, em duplas, se “batizaram” nas águas que clamam por revitalização. Assim, revigorados na esperança e conspirando uma causa justa e sublime voltaram para suas bases, os de Alagoas e de Sergipe tendo que pegar 36 horas de viagem. Voltaram para suas bases com o compromisso com a luta reafirmado. Lá nas bases, sobretudo os que estão no Nordeste, sabem que a cena acima apresentada, uma criança de nove anos com a lata de água na cabeça e uma irmãzinha no colo tem sido as cenas do dia-a-dia, com a falta de chuva e de políticas públicas que priorizem, de fato, a convivência com o semiárido.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A loucura do mundo e a urgência da questão ambiental

É paradoxal e aflitivo: 2.800 cientistas reunidos em Londres assinam, no simpósio Planet Under Pressure, uma declaração sobre o estado do planeta, na qual dizem que "o funcionamento do sistema Terra (...) está em risco"; que poderemos enfrentar ameaças graves na questão da água, dos alimentos e da biodiversidade, com crises econômicas, ecológicas e sociais. No Brasil, quase 800 municípios do Semiárido enfrentam estado de emergência, com uma seca que pode ser a mais grave em 40 anos e já deixa prejuízos superiores a R$ 12 bilhões. Também no Extremo Sul do País a seca é gravíssima. No Amazonas, dois terços dos municípios se veem às voltas com uma inundação inédita, que já afetou 70 mil famílias e inundou até partes de Manaus (após fortes estiagens em 2005 e 2010 e outra forte inundação em 2009).
Embora 65% dos brasileiros ouvidos numa pesquisa CNI/Ibope considerem "muito graves" os problemas relacionados com o clima, nossas políticas continuam fazendo de conta que não precisamos perder tempo com o "ambiente" - tanto que no novo Código Florestal, mesmo após os vetos presidenciais, anistiamos a maior parte dos desmatadores, permitimos a ocupação de encostas e topos de morros (que assoreia rios e contribui para inundações), reduzimos áreas preservação à beira-rio, permitimos a ocupação de partes de mangues. E não tomamos conhecimento das advertências dos cientistas.

Já desmatamos quase 20% da Amazônia, quase 50% do Cerrado, só restam 7% da Mata Atlântica, quase nada dos Pampas, o Pantanal já sofre muito. O pretexto é não "prejudicar a expansão da agropecuária", quando a Embrapa há mais de 20 anos diz que não é preciso desmatar um só hectare: temos 200 mil hectares já desmatados e sem ocupação econômica, além de metade das pastagens degradadas. Mais grave ainda, qualquer que seja a decisão final do Congresso Nacional a respeito do projeto, tudo tenderá a ficar como nas práticas predatórias de hoje, já que o Ministério do Meio Ambiente, com menos de 1% do orçamento da União, não tem estruturas para fiscalizar com rigor e mudar o quadro.
Também não se deve esperar muito na Caatinga. O projeto de transposição de águas do Rio São Francisco, que o ex-presidente Lula anunciava como redenção para "12 milhões de pessoas que sofrem com a seca", em 2012 só teve gastos 2,2% do seu orçamento (Estado, 23/5), está com 4 dos 16 lotes de obras paralisados, já custa quase o dobro do que fora orçado e a água, quando chegar, irá em grande parte para grandes projetos agrícolas de exportação, outra parte para cidades que desperdiçam mais de 40% do que sai das estações de tratamento.

Para a Amazônia encontra-se em discussão no Congresso projeto para abrir as terras indígenas à mineração - quando estudos internacionais e nacionais dizem que essas reservas são o caminho mais eficaz para a conservação da biodiversidade, uma das riquezas nacionais. E uma medida provisória reduz a área de várias unidades de conservação para permitir a formação de grandes lagos para sete hidrelétricas - quando estudo da Unicamp/WWF, já citados várias vezes neste espaço, considera que não precisamos de novas mega-hidrelétricas, e sim de conservação e eficiência energética, além de redução de perdas nas linhas de transmissão.

Mas a falta de juízo não é só por aqui. Há poucos dias, terminou em fracasso - "discórdia e desapontamento", segundo o jornal The Guardian (25/5) - mais uma reunião da Convenção do Clima. Com retrocesso até, já que muitos países (principalmente Índia e China) se mostram relutantes em continuar apoiando a carta de intenções aprovada no ano passado em Durban, que acena para 2015 com um compromisso de todos os países para reduzir as emissões de poluentes, mas só entrando em vigor em 2020. Aprovou-se apenas a prorrogação do Protocolo de Kyoto, porque este envolve altíssimos recursos financeiros, ao permitir que um país ou empresa financie em outro país projeto que reduza emissões - e contabilize a redução no seu balanço próprio. Há um mercado mundial de muitos bilhões de dólares envolvido.

As discussões foram as de sempre: quem deve pagar pelas reduções, países ricos ou "em desenvolvimento"? Como farão China, Índia e outros que ainda precisam dotar de energia as casas de centenas de milhões de pessoas e só dispõem de combustíveis fósseis? Que se fará agora com o novo caminho de extração de gás de rochas, chamado de fracking, que dizem poluir menos, mas implica liberação de metano? A Agência Internacional de Energia não se cansa de advertir que já nos estamos aproximando do limite de mais 2 graus Celsius no aquecimento da Terra, mas as emissões de poluentes continuam em nível recorde - e a partir de 2017 a alta terá efeitos irreversíveis. O tema também nos fala de perto. Segundo estudo publicado na revista da Fapesp por Fábio Castro, Minas Gerais poderá perder R$ 450 bilhões até 2050 com problemas climáticos; o País todo, R$ 3,6 trilhões em 40 anos.
E a três semanas do início oficial da conferência Rio+20, na qual todos esses temas - mais a pobreza no mundo, redução do desperdício de alimentos (1,3 bilhão de toneladas anuais), novas formas de calcular crescimento, "economia verde", "governança sustentável" - em princípio estarão na pauta, surgem os temores de outro malogro, já que as discussões preliminares continuam patinando. O temor já foi manifestado pela ex-primeira-ministra norueguesa Gro Brundtland e pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

"O planeta não é sustentável sem controle do consumo e da população", diz a britânica Royal Society (Folha de S.Paulo, 27/4). Mas da crise econômica no mundo "ninguém vai escapar sem ser afetado". Poderemos até levar "de um século a dois para sair da crise", afirma o renomado economista James K. Galbraith, da Universidade Yale (Estado, 23/5). Seja como for, é preciso continuar encarando os olhos luminosos dos nossos netos e seguir lutando.

Fonte: Washington Novaes, jornalista, O Estado de S. Paulo, 01 de junho de 2012.

sábado, 19 de maio de 2012

Chaves da consciência planetária à luz da fé

Partilho com você o esquema da apresentação que faço em vários lugares do Brasil, visando despertar a consciência planetária em pessoas, grupos e organizações.

domingo, 13 de maio de 2012

Aumenta erosão nas praias do Brasil

Moradores e turistas da praia de Porto Grande, em São Sebastião, olham o mar bater forte nos muros de contenção. Eles se recordam do tempo em que era preciso caminhar na areia por 30 metros antes de mergulhar naquele trecho do litoral. Os muros aguentam, mas não diminuem o medo de que o mar engula a comunidade ali, como já ocorreu em praias de toda a costa brasileira.
Levantamento feito pela Folha de São Paulo com base no estudo "Erosão e Progradação do Litoral Brasileiro" mostra que ao menos 120 praias já foram atingidas pela erosão de forma severa em todo o litoral. Nenhum órgão sabe quanto esse número significa em extensão - há cerca de 8.500 km de praias no país. O que se tem certeza é que quase todo o litoral sofre. Na Paraíba, por exemplo, 50% das praias registram erosão. Praias badaladas e paradisíacas estão na lista: de Jurerê, Canasvieiras, Santinho e Ingleses, no litoral catarinense, às de Caravelas (BA) e Maragogi (AL), no Nordeste. O problema coincide com a constatação de estudiosos de que o nível do mar vem aumentando. Esta é uma das prováveis causas da erosão, mas não necessariamente a principal, segundo o professor da UFRJ Dieter Muehe, que organizou o estudo. Para ele, esgotamento de fontes naturais e construções desordenadas que interrompam o fluxo da areia são grandes causadores.
A partir deste mês, o mar começa a avançar de forma mais agressiva em direção à costa, quando tem início o período de ressacas. Segundo o Centro de Hidrografia da Marinha, as costas sul e sudeste são as mais afetadas pelo fenômeno, causado por ciclones extratropicais intensos. Na iminência da ressaca e de possíveis erosões, Ubatuba e Caraguatatuba tentam se proteger: muros de contenção são erguidos, respectivamente, nas praias Grande e Massaguaçu. Na primeira, a prefeitura está construindo uma mureta de concreto para proteger banhistas e comerciantes. Dois quiosques foram atingidos.
Um estudo do professor de engenharia da USP Paolo Alfredini aponta não só que o nível do mar está subindo como a intensidade das ondas também é maior.Para ele, esse é um dos causadores da erosão. O pesquisador analisou marégrafos de cinco pontos espalhados pelo país - Cananeia, Santos, Ubatuba, Recife e Belém - e constatou o aumento. Nos cálculos dele, Santos, por exemplo, teve aumento do nível médio em cerca de 4 centímetros por década, entre 1976 e 2007. Em Recife, entre 1947 e 1987, o aumento foi de 5,2 centímetros por década. Em outro estudo, ele constatou que a altura das ondas aumentou em 20% entre 1957 e 2002. Com isso, o impacto provocado por elas aumentou, ajudando a arrancar mais areia das praias.
De acordo com o engenheiro Roberto Teixeira Luz, do IBGE, nem sempre é o mar que está subindo, mas a crosta terrestre que pode estar afundando. Isso pode ocorrer por vários motivos, entre eles falhas geológicas ou afundamento do solo por conta da retirada de água do lençol freático. Para o pesquisador Dieter Muehe, a elevação do nível do mar não é necessariamente a maior culpada. Estudos feitos em 16 Estados mostram que é comum no litoral a construção de barragens nos rios. Com isso, os sedimentos fluviais que são carregados até as praias passam a não chegar, diminuindo o volume de areia que deveria reabastecer o estoque que é levado pelas ondas.
Fonte: Folha de São Paulo, 13/5/12

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Código florestal: nota de Leonardo Boff

Lamento profundamente que a discussão do Código Florestal foi colocada preferentemente num contexto econômico, de produção de commodities e de mero crescimento econômico. Isso mostra a cegueira que tomou conta da maioria dos parlamentares e também de setores importantes do Governo. Não tomam em devida conta as mudanças ocorridas no sistema-Terra e no sistema-Vida que levaram ao aquecimento global.

Este é apenas um nome que encobre práticas de devastação de florestas no mundo inteiro e no Brasil, envenenamento dos solos, poluição crescente da atmosfera, diminuição drástica da biodiversidade, aumento acelerado da desertificação e, o que é mais dramático, a escassez progressiva de água potável que  atualmente já tem produzido 60 milhões de exilados. Aquecimento global significa ainda a ocorrência cada vez mais frequente de eventos extremos, que estamos assistindo no mundo inteiro e mesmo em nosso país, com enchentes devastadoras de um lado, estiagens prolongadas de outro e vendavais nunca havidos no Sul do Brasil que produzem grandes prejuízos em casas e plantações destruídas.

A Terra pode viver sem nós e até melhor. Nós não podemos viver sem a Terra. Ela é nossa única Casa Comum e não temos outra. A luta é pela vida, pelo futuro da humanidade e pela preservação da Mãe Terra. Vamos sim produzir, mas respeitando o alcance e o limite de cada ecossistema, os ciclos da natureza e cuidando dos bens e serviços que Mãe Terra gratuita e permanentemente nos dá. E vamos sim salvar a vida, proteger a Terra e garantir um futuro comum, bom para todos os humanos e para a toda a comunidade de vida, para as plantas, para os animais, para osdemais seres da criação. A vida é chamada para a vida e não para a doença e para morte. Não permitiremos que um Código Florestal mal intencionado ponha em risco nosso futuro e o futuro de nossos filhos, filhas e netos. Queremos que eles nos abençoem por aquilo que tivermos feito de bom para a vida e para a Mãe Terra e não tenham motivos para nos amaldiçoar por aquilo que deixamos de fazer e podíamos ter feito e não fizemos.

O momento é de resistência, de denúncia e de exigências de transformações nesse Código que modificado honrará a vida e alegrará a grande, boa e generosa Mãe Terra. Agora é o momento ds cidadania popular se manifestar. O poder demana do povo. A Presidenta e os parlamentares são nossos delegados e nada mais. Se não representarem o bem do povo e da nação, de nossas riquezas naturais, de nossas florestas, de nossa fauna e flora,  de nossos rios, de nossos solos e de nossa imensa biodiversidade perderam a legitimidade e o uso do poder público é usurpação. Temos o direito de buscar o caminho constitucional do referendo popular. E ai veremos o que o povo brasileiro quer para si, para a humanidade, para a natureza e para o futuro da Mãe Terra.

sábado, 21 de abril de 2012

Cúpula dos Povos vem aí!

A Cúpula dos Povos na Rio+20 por Justiça Social e Ambiental é um evento organizado pela sociedade civil global que acontecerá entre os dias 15 e 23 de junho no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro – paralelamente à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (UNCSD), a Rio+20.

Por quê?
Rio+20 oficial marca os vinte anos da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio 92 ou Eco 92). Nestas duas décadas, a falta de ações para superar a injustiça social ambiental tem frustrado expectativas e desacreditado a ONU. A pauta prevista para a Rio+20 oficial – a chamada “economia verde” e a institucionalidade global – é considerada por nós como insatisfatória para lidar com a crise do planeta, causada pelos modelos de produção e consumo capitalistas. Para enfrentar os desafios dessa crise sistêmica, a Cúpula dos Povos não será apenas um grande evento. Ela faz parte de um processo de acúmulos históricos e convergências das lutas locais, regionais e globais, que tem como marco político a luta anticapitalista, classista, antirracista, antipatriarcal e anti-homofóbica. Queremos, assim, transformar o momento da Rio+20 numa oportunidade para tratar dos graves problemas enfrentados pela humanidade e demonstrar a força política dos povos organizados. “Venha reinventar o mundo” é o nosso chamado e o nosso convite à participação para as organizações e movimentos sociais do Brasil e do mundo. 

Como?
O Comitê Facilitador da Sociedade Civil para a Rio+20 (CFSC) está preparando o desenho da Cúpula dos Povos e do território que ocuparemos no Aterro do Flamengo. O espaço será organizado em grupos de discussão autogestionados, na Assembleia Permanente dos Povos e num espaço para organizações e movimentos sociais exporem, praticarem e dialogarem com a sociedade sobre suas experiências e projetos. As ações da Cúpula estarão todas interligadas. A ideia é que a Assembleia Permanente dos Povos – o principal fórum político da Cúpula, se organize em torno de três eixos e debata as causas estruturais da atual crise civilizatória, sem fragmentá-la em crises específicas – energética, financeira, ambiental, alimentar. Com isso, esperamos afirmar paradigmas novos e alternativos construídos pelos povos e apontar a agenda política para o próximo período.

Quando?
Os dois primeiros dias da Cúpula (15 e 16 de junho) serão pautados por atividades organizadas pelos movimentos sociais locais, que estão em luta permanente de resistência aos impactos das grandes obras. Desde esse momento, já estará montado um espaço de livre acesso, onde organizações e movimentos da sociedade civil global exibirão experiências e projetos que evidenciam como é possível viver em sociedade de forma fraterna e sustentável, ao contrário do paradigma hoje vigente. Por isso, o território da Cúpula dos Povos será organizado de forma livre da presença corporativa e com base na economia solidária, agroecologia, em culturas digitais, ações de comunidades indígenas e quilombolas. Esse encontro da cidadania, que também contará com atrações culturais, ficará aberto até o fim da Cúpula, no dia 23. No dia 17, domingo, a organização da Cúpula prepara uma passeata para marcar o evento. A partir do dia 18, começarão as discussões autogestionadas e a Assembleia Permanente dos Povos. O 20 de junho será o Dia da Mobilização Internacional, com manifestações que enviem uma mensagem clara e incisiva para a Rio+20 oficial.

Fonte: www.cupuladospovos.org.br

segunda-feira, 26 de março de 2012

Hora do Planeta 2012

O QUE É?
A Hora do Planeta é um ato simbólico, promovido no mundo todo pela Rede WWF, no qual governos, empresas e a população demonstram a sua preocupação com o aquecimento global, apagando as suas luzes durante sessenta minutos.
QUANDO?
Sábado, dia 31 de março, das 20h30 às 21h30. Apague as luzes e participe da Hora do Planeta 2012.
ONDE?
No mundo todo e na sua cidade, empresa, casa... Em 2011, mais de um bilhão de pessoas em todo mundo apagaram as luzes durante a Hora do Planeta.



A campanha Hora do Planeta é promovida há cinco anos pela ONG WWF e conta com apoio de vários países e estados, que apagam as luzes de seus monumentos e prédios públicos para participar.
Esta é a quarta vez que o Brasil participa, oficialmente, da Hora do Planeta. Neste ano, a WWF pretende conseguir ainda mais adeptos para a iniciativa e mobilizar cerca de 1,8 bilhão de cidadãos, de mais de 5250 cidades de 135 países de todos os cantos do planeta.


O Ecologia e fé apoia e participa da campanha. Que tal aderir também? Apague as luzes da sua casa por uma hora no dia 31/03, a partir das 20h30, e, se possível, desligue também os aparelhos eletrônicos - como TV, computador e outros.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Perspectivas da Rio+20

Entrevista com o Jornalista ambiental André Trigueiro
Quais são suas perspectivas para a Rio+20?
André Trigueiro – Não sabemos ao certo quantos chefes de estado virão. O que é certo é a gravidade da crise econômica na Europa e nos Estados Unidos, que estará no centro das atenções nos países desenvolvidos ano que vem e poderá ser usada como pretexto para não avançarmos de imediato na direção de um modelo mais sustentável de desenvolvimento, o que é um equívoco. Mas organizações do terceiro setor e as associações de empresas comprometidas com a sustentabilidade se movimentam para que a Rio+20 não seja um fiasco completo.

Que retrospectiva histórica pode ser feita desde a Eco-92 sobre os encaminhamentos em relação aos desafios climáticos do planeta?
André Trigueiro – Cobri a Rio-92 e lembro-me bem da novidade que foi aquela Conferência e do que ela representou para o mundo. O Protocolo de Kyoto  e o Tratado da Biodiversidade  nasceram ali. A expressão “desenvolvimento sustentável” foi popularizada mundo afora a partir da Rio-92. De lá para cá registramos muitas inovações importantes nos setores público e privado em favor do meio ambiente. Enfim, demos um passo importante. Mas o mundo avançou muito menos do que poderia, ou deveria, nessas duas décadas. Há 20 anos saímos da inércia. Mas hoje constatamos com certa perplexidade que a escalada de destruição do planeta não desacelerou como deveria.

O que há de novo, de diferente na Rio+20 em relação às outras conferências do clima já realizadas?
André Trigueiro – Importa esclarecer que a Rio+20 não é uma Conferência formal nas Nações Unidas, onde os países devam buscar acordos oficiais sobre os assuntos discutidos. Não haverá, portanto, o estresse e a tensão das negociações do clima e da biodiversidade, para citar apenas dois exemplos de assuntos estratégicos. Alguns diplomatas e políticos entendem que essa forma “descontraída” de promover o debate pode ajudar na busca por acordos informais que, eventualmente, se desdobrem na direção de uma formalidade legal. Mas não há garantias de que isso aconteça. Está previsto também que as ONGs entreguem aos chefes de estado as conclusões dos debates realizados pelo terceiro setor. Isso poderá gerar um fato de pressão positiva na busca por novos comprometimentos. É esperar para ver.

Até que ponto essas reuniões ou conferências sobre o clima contribuem para uma real mudança de paradigma em relação ao planeta?
André Trigueiro – Sem esses encontros tudo seria mais difícil. O fato de os resultados até aqui serem relativamente escassos não invalida a iniciativa. O mundo precisa se reconhecer em torno de uma mesma mesa. É assim que se constrói a agenda da mudança.

Como seria uma economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza?
André Trigueiro – A expressão economia verde não é aceita por alguns segmentos da sociedade que entendem aí uma tentativa de esvaziar o debate sobre inclusão social e erradicação da pobreza no mundo, que estariam melhor acomodados na expressão “desenvolvimento sustentável”. Há certo exagero nisso. Li o documento da ONU sobre economia verde e a questão da pobreza está colocada. Mas é bom estarmos vigilantes em relação a essa polêmica porque, de fato, há aqueles que não percebem a questão da pobreza como inerente a qualquer debate que pretenda discutir um novo modelo de desenvolvimento.

Qual o papel da sociedade civil e das empresas para o sucesso da Rio+20?
André Trigueiro – É cada vez maior. À medida que os governos tendem a se preocupar com a agenda de curto prazo, com os planos de desenvolvimento imediatistas, é preciso buscar fora dos governos o arco de alianças que projetará o rumo dos debates no longo prazo. Governos passam, vem e vão. A sociedade fica. É preciso dar voz e vez aos legítimos representantes do terceiro setor e das empresas.

 Que relação pode ser estabelecida entre a sustentabilidade socioambiental e a redução das desigualdades no mundo?
André Trigueiro – Os pobres e miseráveis são as maiores vítimas da crise ambiental. Resolver ou atenuar a crise é prevenir o risco de um colapso social. Além disso, não é possível falar de sustentabilidade onde ainda haja pobreza e miséria. Um modelo sustentável de desenvolvimento é aquele que compatibiliza produção de riqueza com geração de renda e emprego, justiça social e respeito aos limites da natureza.

Como imaginar um cenário com prosperidade sem crescimento econômico?
André Trigueiro – Não é consensual a tese de que o crescimento econômico seja sinônimo de prosperidade coletiva. O próprio termo “crescimento” está sendo questionado por economistas e pensadores. O economistada USP, Ladislau Dowbor , para citar apenas um exemplo, diz que “crescer por crescer é a filosofia da célula cancerosa”. Há quem defenda um modelo de desenvolvimento em que a meta não seja simplesmente “crescer”, mas promover a retirada sustentável dos recursos naturais. Nossa cultura desenvolvimentista (que elegeu o crescimento do PIB como meta) não enxerga os limites do planeta, e isso pode se revelar extremamente ameaçador para a própria espécie humana. Os valores prevalentes da sociedade de consumo são essencialmente predatórios, não respeitam a resiliência do meio ambiente e a melhor tradução disso em uma única palavra é “ecocídio”. É preciso coragem intelectual para pensar de forma diferente, fazer as perguntas certas e não ter medo das respostas.
Fonte: IHU on-line