Nos dias 26 a 30 de outubro aconteceu em Belo Horizonte o 2º Congresso Continental de Teologia, com o tema: "Igreja que caminha com o Espírito e a partir dos pobres". Durante três momentos, às tardes, aconteceram várias oficinas. Uma delas foi a de Ecoteologia, sob a coordenação de Afonso Murad (Brasil) e Alírio Cáceres (Colômbia). Os participantes somaram as suas diversas experiências de prática pastoral, atuação socioambiental e docência da teologia. Veja a foto de uma parte do grupo.
segunda-feira, 2 de novembro de 2015
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
Francisco de Assis: um novo olhar sobre a casa comum
Recordamos as belas e proféticas palavras do Papa sobre Francisco de Assis, na Encíclica Laudato Si.
(10) Francisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo
que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade. É
o santo padroeiro de todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia,
amado também por muitos que não são cristãos. Manifestou uma atenção particular
pela criação de Deus e pelos mais pobres e abandonados. Amava e era amado pela
sua alegria, a sua dedicação generosa, o seu coração universal. Era um místico
e um peregrino que vivia com simplicidade e numa maravilhosa harmonia com Deus,
com os outros, com a natureza e consigo mesmo. Nele se nota até que ponto são
inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o
empenhamento na sociedade e a paz interior.
(11) O seu testemunho mostra-nos também que
uma ecologia integral requer abertura para categorias que transcendem a
linguagem das ciências exatas ou da biologia e nos põem em contato com a
essência do ser humano. Tal como acontece a uma pessoa quando se enamora por
outra, a reação de Francisco, sempre que olhava o sol, a lua ou os minúsculos
animais, era cantar, envolvendo no seu louvor todas as outras criaturas. A sua
reação ultrapassava de longe uma mera avaliação intelectual ou um cálculo
económico, porque, para ele, qualquer criatura era uma irmã, unida a ele por
laços de carinho. Por isso, sentia-se chamado a cuidar de tudo o que existe.
Se nos aproximarmos da natureza e do meio ambiente sem esta
abertura para a admiração e o encanto, se deixarmos de falar a língua da
fraternidade e da beleza na nossa relação com o mundo, então as nossas atitudes
serão as do dominador, do consumidor ou de um mero explorador dos recursos
naturais, incapaz de pôr um limite aos seus interesses imediatos. Pelo
contrário, se nos sentirmos intimamente unidos a tudo o que existe, então
brotarão de modo espontâneo a sobriedade e a solicitude.
(12) São Francisco, fiel à Sagrada
Escritura, propõe-nos reconhecer a natureza como um livro esplêndido onde Deus
nos fala e transmite algo da sua beleza e bondade. Por isso, Francisco pedia
que, no convento, se deixasse sempre uma parte do horto por cultivar para aí
crescerem as ervas silvestres, a fim de que, quem as admirasse, pudesse elevar
o seu pensamento a Deus, autor de tanta beleza. O mundo é algo mais do que um
problema a resolver; é um mistério gozoso que contemplamos na alegria e no louvor.
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
SESSÃO TEMÁTICA DE ECOTEOLOGIA NA ANPTECRE 2015
Mais um vez nos encontramos, desta vez na ST 12: Consciência Planetária, Religião e Ecoteologia. Em Curitiba, durante o V Congresso da ANPTECRE (Associção Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Teologia e Ciências da Religião.
quinta-feira, 16 de julho de 2015
Forum Temático: Religião, ecologia e cidadania planetária
Mais uma vez, aconteceu o Forum Temático "Religião, ecologia e cidadania planetária" durante o Congresso Internacional da SOTER (Sociedade de Teologia e Ciências da Religião). Apresentações se realizar sob o olhar de diversas disciplinas.
O FT “Religião, ecologia e cidadania planetária” visa discutir questões teóricas e experiências relevantes na relação entre Religião, cuidado com a Terra e superação do antropocentrismo, dando continuidade ao trabalho realizado desde 2011. Serão aceitas comunicações que (1) abordem problemas teóricos envolvidos no debate atual da Teologia e das Ciências da Religião, (2) analisem experiências de formação da consciência ecológica/planetária, (3) apresentem dados de pesquisa empírica sobre o assunto, (4) reflitam sobre as imagens de Deus e a espiritualidade que afloram de práticas em favor da sustentabilidade e do Bem-Viver. O Forum Temático é realizado juntamente com o seminário dos grupos de pesquisa “Modernidade, Religião e Ecologia” e “Ecoteologia”.
O FT “Religião, ecologia e cidadania planetária” visa discutir questões teóricas e experiências relevantes na relação entre Religião, cuidado com a Terra e superação do antropocentrismo, dando continuidade ao trabalho realizado desde 2011. Serão aceitas comunicações que (1) abordem problemas teóricos envolvidos no debate atual da Teologia e das Ciências da Religião, (2) analisem experiências de formação da consciência ecológica/planetária, (3) apresentem dados de pesquisa empírica sobre o assunto, (4) reflitam sobre as imagens de Deus e a espiritualidade que afloram de práticas em favor da sustentabilidade e do Bem-Viver. O Forum Temático é realizado juntamente com o seminário dos grupos de pesquisa “Modernidade, Religião e Ecologia” e “Ecoteologia”.
domingo, 5 de julho de 2015
O caso Giordano Bruno
No capítulo XI
de seu livro Ciência e Sabedoria, Jürgen
Moltmann apresenta de modo sucinto a biografia de Giordano Bruno e os traços
básicos de sua visão de mundo e de homem.
Giordano Bruno
nasceu em 1548 em Nola, província de Nápoles. Em 1565 entrou no mosteiro
dominicano em Nápoles. Foi ordenado padre em 1572, época da qual procede sua
formação de filosofia da natureza antiga e humanista. Em 1576, a partir de uma
ata secreta, foi levantada contra ele, junto à Inquisição, uma acusação por
causa de dúvidas quanto à fé e de uma tendência à poesia lasciva.
Para evitar o
processo judicial, Bruno fugiu e procurou refúgio nos centros intelectuais
europeus dessa época. Em 1579 chegou a Gênova, o asilo de fugitivos evangélicos
de toda a Europa. Em seguida se mudou para Toulouse onde conquistou o mais alto
grau académico (venia legenda) em
teologia e começou uma atividade bem-sucedida de professor. Em 1581 se mudou
para Paris, onde ganhou grande reputação como professor e por seu livro sobre a
arte da memória. Em 1583 se transferiu para Londres e deu cursos em Oxford
sobre a cosmologia de Copérnico. Na Inglaterra tolerante dessa época publicou
suas obras cosmológicas.
Em 1585 voltou
à França e foi convidado para lecionar na Universidade luterana de Wittenberg.
Em 1589 exerceu a docência na universidade luterana em Helmstedt e escreveu sua
principal obra sobre cosmologia, De
monado, numero et figua liber. Em 1591 lecionou em Zurique. Na época já era
uma celebridade europeia. Mas depois recebeu o convite traiçoeiro e fatídico de
Giovanni Mocenigo para ir a Veneza. Este o denunciou à Inquisição, que o
prendeu em 1592. Em 1593 foi transferido à prisão do Santo Ofício em Roma.
Graças a uma defesa habilidosa e uma certa irresolução dos inquisidores, seu
processo se estendeu por mais de sete anos.
As acusações
contra ele eram difusas. Sua defesa afirmou que ele era filósofo, não teólogo,
e que argumentara de acordo com o entendimento natural, não com a fé. Em 1600
Bruno foi condenado e queimado vivo.
Já em 1543 tinha
aparecido a obra de Copérnico sobre Os
movimentos circulares dos corpos celestes, que causou a dissolução da
mundivisão geocêntrica. Mas Giordano Bruno foi o primeiro a reconhecer o
alcance dessa descoberta e a tirar as consequências para a teologia. Bruno
aboliu todo centrismo e teve a coragem de pensar a infinitude do universo e a
relatividade do centro e dos limites. “No universo não há nem centro, nem
circunferência, mas se quiseres, em tudo há um centro e qualquer ponto pode
valer como centro de qualquer circunferência” (De l’infinito, 5,2). Único é apenas o céu, o espaço incomensurável.
Desse espaço e dos corpos que nele se encontram resulta o universo como um todo
conexo. Se há no espaço esse mundo, então naquele espaço pode haver outros
mundos, e em incontáveis outros espaços incontáveis outros mundos.
Como compaginar
a absoluta infinitude de Deus com essa infinitude do universo incomensurável?
Como se relaciona a unidade de Deus
com essa multiplicidade dos mundos?
Bruno procurou esclarecer as diferenças entre Deus e universo: Deus é o
delimitador, o mundo o delimitado. O Mundo é infinito, Deus o abrange no
sentido da inteireza perfeita e do ser total no universo. O universo não tem
uma infinitude absoluta, mas dimensional. A infinitude cósmica e a divina não
se contradizem. Bruno não introduz Deus no mundo, mas faz luzir o mundo em
Deus. Se o mundo é incomensurável e dimensionalmente infinito, a divindade, na
medida em que é, deve ser maior. O conceito de Deus é, portanto, irrenunciável.
Mas a divindade
não apenas abrange tudo, mas é também o ser total em cada indivíduo. Deus é o
máximo e o mínimo ao mesmo tempo. Se o mínimo geométrico é o ponto, e o mínimo
físico é o átomo, o mínimo metafísico é a mônada. Todas as coisas são
construídas dessas unidades básicas. Elas formam a unidade real do mundo, pois
a divindade é a monas monadum.
No entanto, o
universo de Bruno é pensado de forma organológica, o que o faz retomar a
doutrina estóica de alma do mundo, também familiar para os Padres da Igreja: a
alma do mundo, que vivifica e move tudo, é a dinâmica divina do universo. Isso
resultou na concepção de um mundo que é um organismo vivo. A unidade que atua
em toda parte é Deus.
Para Bruno, o
ser humano não é mais o centro de um mundo criado por causa dele, mas
justamente por isso, pode e deve escolher livremente o centro e criar, ele mesmo, sua orientação. Em
face do universo incomensurável, o homem descobre sua própria dignidade e
grandeza. Ele é o “herói apaixonado”, aquele que percebe a profunda harmonia
com o universo: no finito ele se torna um com o infinito. Torna-se um com
aquilo que torna o mundo intimamente ligado.
O diálogo
teológico com Bruno deve ocorrer hoje sob a impressão da crise ecológica,
provocada pela visão de mundo mecanicista e pela civilização
técnico-científica. O pressuposto metafísico para o desenvolvimento dessa visão
do mundo foi retirar a alma do mundo. A concepção masculina de domínio
desalojou a antiga imagem feminina do mundo organicamente animado. Nesse
sentido, a meta não é mais o “herói apaixonado” que no espírito divino se torna
um com o universo, mas o homem que, pela ciência e pela técnica, se torna
senhor e dono da natureza.
Para que a
natureza e a humanidade convivam nesta terra, elas precisam chegar a uma nova
comunhão. Os humanos devem novamente se integrar às condições delimitadoras
cósmicas da terra. Por isso é necessário e sensato desenvolver novas concepções
do organismo “Terra”.
O fundamento
metafísico para tal concepção “pós-moderna” organológica da natureza da terra é
uma nova compreensão para a atuação do espírito divino em todas as coisas. O
fundamento teológico para a superação da religião de domínio unilateral do
homem na sociedade moderna é a redescoberta da imanência de Deus no mundo. No
espírito da criação, que chama à existência todas as coisas e é a vida
vivificante para todos os seres vivos. Deus, o Criador, põe toda a sua alma em
cada uma de suas criaturas e se comunica a todas elas em seu amor ilimitado. O
criador que se comunica está presente em todas as suas criaturas graças a seu
Espírito, de modo que são elas capazes de amar e de louvá-lo. Apenas quando
Deus permanece Deus, sua imanência no mundo ocasiona a autotranscendencia de
todos os sistemas de vida abertos, provocando também evolução e entrelaçamento cada vez mais complexo em
relações comunitárias, porque nela reside aquele “mais” que ultrapassa qualquer
estado.
Resumo de:
MOLTMANN, Jürgen. Que Deus seria que apenas empurrasse de fora, e com os dedos
fizesse girar o universo?” O caso Giordano Bruno. In: ______. Ciência e sabedoria. São Paulo: Loyola,
2007. cap. 11, p.207-220, como atividade de Iniciação Científica, bolsa da
FAPEMIG, realizado por Gonzalo Benavides Mesones, estudante de Teologia da
FAJE, Faculdade Jesuíta, sob orientação do prof. Afonso Murad.
quarta-feira, 20 de maio de 2015
Ciência e Sabedoria
No capítulo X
de seu livro Ciência e sabedoria,
Moltmann faz um percurso pelos modos de conhecer do ser humano, ou pelo espanto
ou pelo temor de Deus, para depois refletir sobre a responsabilidade ética dos
cientistas e o alcance de suas pesquisas.
Segundo as
tradições bíblicas, o temor do Senhor é o início da sabedoria. Segundo os
filósofos gregos antigos a raiz do conhecimento é o espanto, (*a admiração, a
surpresa). Há duas janelas diferentes para a realidade? As ciências naturais e
as ciências humanas se tornaram culturas muitos diferentes? Ou o espanto com a
natureza pode nos levar ao temor de Deus e o temor de Deus ao espanto com a
natureza?
Numa
epistemologia geral pode-se ver como o conhecimento do igual e do análogo
conduz ao reconhecimento do já conhecido e à confirmação. Mas como conhecemos
algo novo? A raiz do conhecimento está no espanto quando nos deparamos com algo
imprevisto e inesperado e nossos sentidos se abrem à recepção direta das
impressões. Se nos abrimos à impressão do novo, surgem novas formas do
apreender, de modo que podemos conservar e recordar a impressão do novo e
trabalhar sobre nossas novas impressões que correspondem a ele em nós. No
espanto, percebemos as coisas pela primeira vez e somente na segunda vez se
formam lembranças por meio das quais as impressões podem ser compreendidas. O
espanto da primeira vez perde-se no acostumado.
Cada nova
“descoberta” das ciências naturais desperta o espanto da primeira vez. Depois,
tais experimentos são repetidos experimentalmente e assimilados como ampliação
do conhecimento. Mas desde o início da era moderna essas descobertas são feitas
ativamente e a pesquisa científica pergunta mais “como funciona isso e o que se
pode fazer com isso?” do que pela essência das coisas e da sabedoria de suas
formas e conexões. No entanto, toda
descoberta real está também fundamentada no lado objetivo dos fenômenos. Eles,
esperados, mas não forçados, nos surpreendem. Se olhamos para o lado passivo e
ativo do conhecimento, também encontramos a harmonia entre aquilo que se
mostrou e o que foi descoberto. Assim, descoberta e revelação são dois lados do
mesmo evento.
A razão moderna
das ciências naturais compreende “apenas o que ela mesma produz segundo seu
projeto” (Kant), mas com isso, a natureza só é cognoscível em sua reação às
ações humanas, não em sua singularidade. Então, que natureza é objeto das
ciências naturais? A razão ativa, apreendedora, pergunta como os sistemas
naturais funcionam e o que o homem pode fazer com eles tecnicamente, para seu
próprio proveito. O objetivo parece ser a construção segundo um modelo, ou a
reconstrução dos sistemas naturais. Nesse sentido, é uma imagem humana que
impomos à natureza e não a imagem que a natureza mostra de si para nós.
Hoje as
ciências naturais e as ciências biológicas são apresentadas como neutras do
ponto de vista dos valores, de modo que estes só devem ser acrescentados
posteriormente. Isso não está correto, pois orientações claras antecedem as
ciências naturais: a vontade de potência sobre a natureza e de domínio sobre a
vida e o objetivo de ampliar essa potência sem fronteiras. Por isso se trata,
nas discussões modernas sobre a pesquisa atômica e as ciências biológicas, de
duas orientações diferentes e muitas vezes contraditórias: de um lado, o
progresso no ganho do poder, de outro o éthos
da dignidade humana.
Se a pesquisa
da natureza é a investigação das memórias naturais nos sistemas da matéria e do
vivo, então investigamos a sabedoria contida em sistemas naturais, e o fazemos
para nos tornar, nós próprios, sábios. Como nos tornamos sábios? A sabedoria
deriva da relação com as experiências que temos. O que torna sábio é o
conhecimento do conhecimento. A sabedoria é uma ética do saber. Quem faz
daquilo que sabe uma consciência deve se perguntar: para que servem seus
conhecimentos? O que as experiências fizeram de sua vida? O que permanecerá
quando você morrer? Perguntamos por sabedoria no trato com o divino, o cósmico
e o humano. Mas antes devemos nos perguntar se são sabedorias diferentes ou se
é uma sabedoria que abrange e une as três dimensões.
Na teologia da
revelação, tudo se passa como se Deus se revelasse em eventos e pessoas da
história humana e então fosse reconhecido na natureza. Na teologia da
sabedoria, Deus é conhecido a partir da vida e das ordens da natureza e então
reconhecido na sabedoria de vida humana. Em vez de Deus-homem-natureza, a ordem é Deus-natureza-homem.
Segundo o
Antigo Testamento, o homem ganha a sabedoria divina no “temor do Senhor”. Isso
se refere à sublimidade de Deus, que desperta reverência e humildade quando é
percebida pelo ser humano. Temor e amor descrevem os dois lados da presença de
Deus: distância e proximidade, sublimidade e intimidade, transcendência e
imanência. Que conhecimento nasce do temor e do amor a Deus? Primeiro, uma
reflexão sobre o próprio homem. Ante a sublimidade de Deus, o ser humano se
conscientiza de sua nulidade e desaparece toda autodivinização. Mas no amor de
Deus, toma consciência de seu significado para Deus e desaparece assim todo
autodesprezo.
Em Provérbios 8
se afirma a preexistência da sabedoria divina. O livro da Sabedoria diz que as
atividades da sabedoria são vistas no formar, moldar e ordenar a obra da
criação. Deus não somente chama o mundo à existência, mas configura todas as
coisas de tal forma que elas se tornam reflexo de sua glória. Ele é o mistério
divino da criação, que se exprime em todas as criaturas e em suas
inter-relações, mas também as supera.
A sabedoria
cósmica fala aos homens. Isso pressupõe a crença de que a criação é, por
princípio, cognoscível para as criaturas humanas. Pode-se imaginar isso como
uma imanência gradual do criador do mundo: (1) Em suas obras de criação por sua
sabedoria, (2) Em suas obras de
santificação por seu Espírito, (3) Na
redenção, por sua glória. A dimensão
divina da sabedoria imanente no cosmos mantém essa sabedoria longe do
conhecimento humano, por mais que seja conhecida. Essa é a dimensão
transcendental da sabedoria imanente. Isso nos torna humildes em nosso
conhecimento do mundo. Se o conhecimento científico leva em conta essa dimensão
transcendental, o interesse que o guia não estará apenas no domínio e na
apropriação da natureza conhecida, mas também na atenção a ela.
Na sabedoria
humana, trata-se da diferenciação de bom e mau, conservação e aniquilação, vida
e morte. Acrescenta-se ao éthos
científico o éthos no trato com os
conhecimentos científicos. Na responsabilidade do cientista, entra sua responsabilidade
como cidadão na sociedade e como portador de sua cultura. Sábio é fazer dos
conhecimentos científicos apenas o que serve à vida, e resistir e renunciar ao
que espalha aniquilação e morte.
Até onde vai a
responsabilidade dos cientistas pelas pesquisas ou também por aquilo que eles
mesmos ou outros fazem com seus resultados? Essa foi, no último século, a pergunta
pela guerra e pela paz. Em circunstâncias normais, a responsabilidade
científica estende-se até aos métodos de pesquisa. Mas a responsabilidade pela
direção da pesquisa ultrapassa o indivíduo. Contudo, na transição para a
economia bélica, os cientistas individuais também se põem diante da pergunta
ética: devem colaborar com os meios de destruição em massa ou se recusar a
isso? O cientista é também cidadão e partícipe da responsabilidade política.
A “utilização
pacífica” e simultânea da energia nuclear começou com a promessa de uma “fonte
de energia inesgotável”. Infelizmente, os envolvidos caíram na armadilha do
“aprendiz de feiticeiro”: as pessoas conheciam as fórmulas para o emprego
industrial da energia atômica, mas não as fórmulas para a eliminação do lixo
atômico radiativo. Esse conhecimento deveria tornar os cientistas, os políticos
e o público cautelosos quando os biotécnicos pedirem dinheiro de pesquisa com
promessas salvíficas semelhantes. Erros na tecnologia genética como na energia
atômica têm consequências para várias gerações no futuro.
A “primeira
fórmula do poder” está hoje nas mãos dos cientistas; a “segunda fórmula do
poder” seria a fórmula da liberdade ética sobre o poder físico e está nas mãos
da sabedoria. Não é preciso fazer tudo que se pode fazer. Essa é a hora da
sabedoria e da superação da crença no progresso. Precisamos de outra época para
a integração da civilização humana ao sistema de vida desta terra, porque
também somos uma parte da natureza e não seus senhores, semelhantes a deuses.
O temor de Deus
gera a sabedoria ética com que o homem conhece e reconhece seus limites e, com
isso, adquire poder sobre seu poder científico e técnico. Depois de um aumento
tão extraordinário de saber precisamos no futuro próximo de um aumento ainda
maior de sabedoria e de relação sábia com esse saber.
Resumo de:
MOLTMANN, Jürgen. Ciência e Sabedoria. In: ______. Ciência e sabedoria. São Paulo: Loyola, 2007. cap. 10, p. 187-206, como
atividade de Iniciação Científica, bolsa da FAPEMIG, realizado por Gonzalo
Benavides Mesones, estudante de Teologia da FAJE, Faculdade Jesuíta, sob
orientação do prof. Afonso Murad.
sábado, 11 de abril de 2015
Deus e o espaço
No texto “Deus
e espaço”, Jürgen Moltmann coloca a seguinte questão: A que espaços nos leva a
experiência de Deus e a que concepções de Deus chegamos quando tentamos medir
os espaços em Deus e Deus nos espaços?
Nós, humanos,
somos na experiência cotidiana o ponto de interseção entre os tempos do passado
e do futuro, e entre os espaços na frente e atrás de nós, sobre o sob nós, e ao
nosso lado, contanto que nos conscientizemos de nossa presença e estejamos
espiritualmente presentes. O momento entre os tempos do passado e do futuro é
também um ponto de interseção de tempo e espaço.
Para refletir,
em sentido figurado, sobre os espaços de Deus, o autor faz uma pequena
fenomenologia das experiências do espaço. Cada coisa tem seu tempo (tempo kairológico) e seu espaço (espaço ecológico). Esses espaços não são
homogêneos e iguais para todos. Cada vida tem seu espaço vital específico; daí que quem destrói os mundos vitais de
outros seres vivos mata-os.
As pessoas
experienciam seu espaço de duas maneiras: como amplidão e limite. O
“espaço amplo”, símbolo da liberdade, é um convite para mover-se, atravessar e
experimentar o ilimitado, mas nunca podemos permanecer ou morar nele. Para
permanecer, morar e dormir precisamos do espaço cercado, limitado, do espaço de
morada e proteção que nos são familiares e aos quais nos confiamos. Amplidão e
limite formam um todo na vida humana.
O espaço vital não deve ser compreendido
apenas em plano geográfico ou ecológico, mas também social e moral. A
experiência em outra coisa ou outra pessoa é realizada, antes de tudo, como existência social: sou nos outros e os outros em mim (sou na família, sou na
sociedade). Esses espaços de vida sociais são complementados pelos espaços morais, espaços de decisão. Nesses espaços morais também somos sujeito e
objeto ao mesmo tempo: nós nos decidimos e outros decidem sobre nós. O autor
chama esses espaços de vida sociais e morais de pericoréticos, porque suas redes ou encaixes transpõem os simples espaços
de vida ecológicos relacionados ao sujeito. Todo ser vivo tem seu espaço: oikos. Todo ser vivo é espaço para o
outro: perichoresis.
E como nos
orientamos nos espaços? No espaço da terra, nos orientamos por nosso corpo e
pela sensação de equilíbrio. Nos espaços ecológicos, pela compatibilidade com o
meio ambiente; nos espaços sociais, pela compatibilidade com a vida (justiça
social); nos espaços morais, pelas leis morais.
Para falar dos
espaços de Deus, Moltmann lembra que no judaísmo palestino do primeiro século
se encontra uma antiga ligação entre espaço e Deus: Maqom (= espaço)
tornou-se um nome de Deus. Maqom kadosh
é o distrito sagrado da shekinah; mas
sem delimitação, maqom é usado como
conceito da onipresença divina. Aqui reencontra-se a amplidão e o limite: “A ti também ele te quis levar da angústia
para o espaço amplo onde nada incomoda” (Jó 36,16), isto é, o espaço da
redenção, o espaço vital em que a criatura redimida encontra em Deus. Mas ao
lado dessa imagem há também aquela de Deus como lugar seguro, delimitado e
protegido: “O Senhor dos exércitos está
conosco, o Deus de Jacó é nosso refúgio” (Sl 46).
Na tradição
cristã, pode-se dizer que Deus é um Deus habitável. Ele é espaço vital de seu
mundo, espaço de movimentação de suas criaturas e de sua morada eterna. Isso se
fundamenta na essência intratrinitária de Deus. O conceito de perichoresis designa a interpenetração
das naturezas humana e divina no Deus-homem Cristo e as habitações do Pai e do
Filho e do Espírito Santo uns nos outros. Em sua unidade pericorética, as pessoas trinitárias são iguais. Cada pessoa existe
nas duas outras e se movimenta nelas. Graças a sua habitação recíproca, as
pessoas se ligam formando uma unidade e se diferenciam entre si. Do ponto de
vista de cada um dos outros lados, as pessoas trinitárias são também espaços
para as outras. Cada uma é, ao mesmo tempo, espaço de vida e de morada para as
outras duas. Cada pessoa da Trindade se faz, graças à perichoresis, habitável
para as outras.
Deus
corresponde a si mesmo quando concede em si mesmo espaço para sua criação antes
de criá-la. Deus se retrai para permitir que uma realidade não-divina exista
consigo e em si mesmo. Pela autolimitação do eterno surge o espaço vazio, o nihil, em que o criador então pode chamar o não-ser à existência. Ele
não quer ocupar sozinho o espaço de sua onipresença. Ele se limita, para dar
lugar a outro ser. Antes que o todo-poderoso se faça “criador do céu e da
terra”, ele já se tornou um espaço
acolhedor e sustentador para suas criaturas. E Deus respeita a singularidade e
a liberdade do criado por ele, senão se contradiria a si mesmo. Ele não pode
prever como suas criaturas se decidirão e para onde se desenvolverão. Deus lhes
permite tempo e lhes abre um futuro imprevisível. Aprende com elas.
Mas, por que
Deus faz isso? Encontramos uma resposta na história salvífica das “habitações”
de Deus no espaço: em Israel, em Cristo, na Igreja e, por fim, na terra em que
mora a justiça. Na história de Israel, graças à shekinah de Deus, o eterno se torna companheiro de viagem e de
infortúnio de seu povo impotente. O que acontece ao povo, acontece também à shekinah divina nele.
A teologia da shekinah é a raiz da experiência divina
cristã na cristologia e na pneumatologia. Mas as experiências de Deus na
comunhão com Cristo ultrapassam essa teologia porque nelas a habitação de Deus
recebe um corpo, um nome e uma forma: Jesus de Nazaré. Da manjedoura à cruz, Jesus
experienciou o desabrigo e a falta de pátria, o abandono e a exclusão. O
criador não apenas permite que sua criatura exista, mas entra em sua criação,
envolve-se com ela para morar nela, ou seja, para nela repousar e permanecer. Deus
se faz espaço de morada de suas criaturas e, ao mesmo tempo, entra em sua
criação, a fim de torná-la seu espaço de morada. Isso corresponde à perichoresis em sua forma cristológica:
é uma habitação recíproca de desiguais, não de iguais. O mundo habita em Deus
de forma mundana, e Deus habita no mundo de forma divina. Eles se
interpenetram, sem se destruir.
E qual é a
consequência dessa decisão de Deus? O autor apresenta uma confrontação atual prática
com as questões do espaço. De um lado, o grande projeto da modernidade, a
viagem espacial para outras estrelas. De outro, os milhões de migrantes sem
pátria e sem teto, que não encontram lugar para viver nesse planeta. Uma é
prodígio da ciência e da técnica modernas, a outra é o maior escândalo da
superpopulação humana da Terra e de uma política desumana.
Os que buscam a
viagem cósmica sentem-se sozinhos na Terra, ou talvez buscam uma “segunda
Terra” na qual se estabelecer quando o espaço vital se lhes tornar muito
estreito neste planeta. Paradoxalmente, os outros, os que estão na rua não têm
espaço, não têm pátria nem teto, ficam inquietos e estrangeiros num mundo que
lhes é hostil. Os milhões de pessoas em países do terceiro mundo que se
tornaram migrantes são o reflexo de uma política de desalojamento associal.
Sem espaço
ninguém pode viver. Então, a situação das pessoas na rua, os espaços fechados
das celas de prisão e dos campos de trabalho forçado, também não expulsa de
nosso mundo, juntamente com essas “pessoas supérfluas”, o “Deus que habita”, o
Deus da shekinah, e Jesus, o Filho do Homem “sem pátria”? A comunidade cristã
se tornará uma “habitação de Deus no
Espírito” (Ef 2,22) e criará lugares convidativos para o Filho do Homem
presente nos “famintos, sedentos, estrangeiros, nus, doentes e presos” (Mt
25,35-36): pátria para o Deus sem pátria neste mundo?
Resumo de:
MOLTMANN, Jürgen. Deus e espaço. In: ______. Ciência e sabedoria. São Paulo: Loyola, 2007. cap. 8, p.145-162, como
atividade de PIBIC, bolsa da FAPEMIG, realizado por Gonzalo Benavides Mesones,
estudante de Teologia da FAJE, Faculdade Jesuíta, sob orientação do prof.
Afonso Murad.
Origem e consumação do Tempo
No capítulo 7 de seu livro Ciência e Sabedoria, Moltmann se
pergunta pelas categorias tempo e espaço no “momento escatológico”. Ele explica
que na escatologia teológica moderna, se apresentam três esquemas básicos: a
escatologia coerentemente futura (Weiss, Schweitzer), a escatologia realmente
presente (Dodd, Bultmann) e a visão conciliadora ou do equilíbrio, conhecida
como “já, mas ainda não” (Cullmann, Kümmel, Kreck). O problema desses esquemas
é que o Reino de Deus é medido com a categoria do tempo transitório,
inapropriada para ele e, portanto, não permite sua compreensão.
Uma alternativa para esses esquemas
consistiu na escatologia da eternidade
(Althaus, Barth), que reformulava a consciência do tempo e os conceitos de
tempo para pensar em escatologia na história. Segundo ela, assim como todo
tempo está igualmente próximo do estado original e do pecado de Adão, todo
tempo também está imediatamente próximo da consumação. Mas essa “suprassunção
da história na eternidade”, que ocorre no “momento escatológico”, leva a uma
des-historização da parusia e da
lembrança bíblica da morte e ressurreição de Cristo.
A “teologia da história”
(Pannenberg) e a “teologia da esperança” (Moltmann) quebram o conceito de tempo
linear para pensar num “futuro” que não traz o passado futuro. O ser de Deus
está no vir, não no vir-a-ser (e passar). Se Deus e futuro são ligados desse
modo, então se pode pensar o ser de Deus escatologicamente e compreender o
“futuro” teologicamente. Nesse sentido, nem a história traga a escatologia, nem
a eternidade suprassume a história.
Então, qual é a relação entre o
conceito escatológico de futuro e o conceito teológico de eternidade de Deus?
Como eternidade e tempo são mediados no conceito escatológico de futuro? O
autor tenta responder essas questões em três pontos:
1. Quando ocorre “a ressurreição dos
mortos”: “no dia do Juízo” ou no dia eterno do Senhor? Segundo Paulo, a “ressurreição dos
mortos” ocorre no “momento escatológico” (1Cor 15,52). Esse “momento
escatológico” abrange não apenas sincronicamente todos os homens, mas
diacronicamente todos os mortos; por isso, não pode ser posterior a todos os
dias dos tempos, também deve ser simultâneo a todos os dias. Mas, como pensar
esse “momento escatológico” da ressurreição dos mortos como escatológico e
eternamente simultâneo, sem que uma dimensão suplante a outra?
Deve haver um
“tempo intermediário” e um “espaço intermediário” entre a morte individual e o
dia do Juízo do mundo. O “tempo intermediário” é o tempo entre a ressurreição
de Cristo e a ressurreição geral dos mortos. Ele é preenchido pela soberania de
Cristo e sua comunhão com mortos e vivos. O “espaço intermediário” entende-se
determinado por Cristo como espaço final, porque é escatologicamente orientado.
2. Como conceber o fim dos tempos,
se nele a criação não deve mais ter “tempo” e “espaço”? O “tempo final” significa que “não
haverá mais tempo” (Ap 10,6). O tempo detém-se quando o mistério de Deus é
consumado, isto é, quando o próprio Deus aparece para o julgamento de seus
inimigos e o estabelecimento de seu Reino. Diante dessa presença eterna de Deus
sobre a terra, a nova criação é chamada à sua existência. O “fim do tempo” é o
início do tempo eterno da nova criação. Se esse futuro da criação é revelado e
aberto em e por Cristo, então o tempo qualificado por Cristo é “tempo final”.
Como a “ressurreição dos mortos” é o início da nova criação, o “fim do mundo”
não é nada mais que a “ressurreição dos mortos” geral, e o fim do tempo efêmero
é o início do tempo eterno.
Ante o trono e
o semblante manifesto da majestade de Deus, “fugiram a terra e o céu, e não se
achou lugar para eles” (Ap 20,11). Isso pressupõe que Deus concede um lugar
para sua criação “escondendo” seu semblante e impondo à sua onipresença os
limites em que o céu e a terra podem existir em relativa autonomia perante ele.
Mas na presença real de seu semblante desvelado, manifesto, esse espaço de
vida, concedido à criação “no início” passa. A nova criação é a morada da
justiça de Deus.
À parada do
tempo corresponde o desaparecimento do espaço da criação, suprimem-se as
distâncias temporais e espaciais na simultaneidade e na onipresença do eterno.
Ambas as coisas ocorrem no advento do Deus eterno e onipresente, ou seja, no
“momento escatológico”.
3. O “momento escatológico” do tempo
final corresponde ao “momento original” da criação do mundo? O momento original está à frente da
criação do mundo na determinação de Deus de ser seu criador. Ele recolheu em si
sua eternidade a fim de se ocupar com sua criação. Por isso, nesse momento
original, são reunidas e preparadas todas as possibilidades que Deus desdobrará
no tempo da criação. Deve-se pensar o momento escatológico numa relação
especular com o momento original. A autocontração
original de Deus, que possibilitou o tempo e o espaço da criação, cede à auto-expansão glorificante de Deus:
surge uma nova criação.
O “momento
escatológico” tem dois lados: no próprio Deus se realiza a auto-expansão: Deus
aparece com “semblante descoberto” em toda a sua glória. Ele próprio vem para o
Juízo e o Reino. Isso é, ao mesmo tempo, o cumprimento da meta original da
criação: a autocomunicação da glória. Pela criação se realiza a transição do
reino da natureza e do reino da graça para o reino da glória. Isso é o fim que
a criação “no início” almejava e pela qual se norteou.
Resumo de:
MOLTMANN, Jürgen. Origem e consumação do tempo... In: ______. Ciência e sabedoria. São Paulo: Loyola,
2007. cap. 7, p. 131-144, como atividade de PIBIC, bolsa da FAPEMIG, realizado
por Gonzalo Benavides Mesones, estudante de Teologia da FAJE, Faculdade Jesuíta,
sob orientação do prof. Afonso Murad.
quinta-feira, 19 de março de 2015
O tempo e o kairós
Jürgen Moltmann, no capítulo VI de seu livro Ciência e Sabedoria, reflete acerca da
essência do tempo e de sua experiência, apresentando e comparando os diferentes
conceitos de tempo que se aplicam nas ciências naturais, na história e na
teologia.
O autor parte do conceito de tempo irreversível porque é aplicável tanto aos processos naturais
e históricos quanto às experiências religiosas do judaísmo, cristianismo e
islamismo. Essas três religiões têm como elemento primordial a experiência de
Deus por parte de Abraão e Sara. Essa experiência de Deus está ligada às
experiências do Êxodo e do exílio, porque se orienta pela promessa e pela
esperança de um novo futuro. Essa experiência separa os tempos num passado
irrecuperável e num futuro ainda não alcançado.
“Natureza” e “história” são dois aspectos da mesma
realidade, em que os homens existem e da qual fazem parte. Daí que possa se
transferir o conceito histórico de tempo irreversível para alguns processos
naturais. O tempo histórico se refere ao sujeito da experiência, que é
historicamente mutável e, portanto, empírico. Daí se constata uma diferença
fundamental entre a experiência do tempo e a do espaço: podemos estar no mesmo
lugar em diferentes tempos, mas não no mesmo tempo em diferentes lugares.
No tempo histórico podemos distinguir modos temporais:
um antes (passado) e um depois (futuro) diferenciados pelo presente, que tanto
distingue como une os modos temporais; ele é fim do passado e começo do futuro.
Nessa perspectiva, também podemos ver no presente uma categoria da eternidade,
pois o presente produz a unidade e a diferença dos tempos. Daí se segue o
princípio teológico: em relação à eternidade só há um tempo: presente. Ele é o conceito temporal da eternidade. Apenas
o presente pode ser experienciado como existência imediata. Mas não temos
nenhuma consciência desse presente, pois todo conhecer precisa de distância do
conhecido. Assim, o presente é o mistério interno dos tempos.
Se colocamos os três modos do tempo num parâmetro
não-direcionado, os movimentos a ser medidos com ele são reversíveis e
simétricos. Em sistemas complexos, o tempo reversível assegura a estabilidade,
porque é a forma de desenvolvimento dos processos cíclicos. O tempo reversível
é um tempo atemporal.
Graças ao conceito de Entropia introduziu-se na física a noção de tempo irreversível e se
deu o primeiro passo para a percepção física da temporalidade do tempo mesmo. Então,
deve-se contar com ambas as formas temporais, a reversível e a irreversível, e
falar de um “paradoxo do tempo”? Se a natureza como um todo está em processo
histórico, então se soluciona o paradoxo em favor da noção do tempo
irreversível.
Na experiência histórica do tempo, os modos temporais
são subsumidos às modalidades do ser. Passado – presente – futuro correspondem
ao ser necessário – ser real – ser futuro. O futuro é o âmbito do possível; o
passado, o âmbito do real. E o presente, a linha de frente, na qual o possível
se realiza ou não. Isso gera a “flecha do tempo” irreversível. O futuro pode se
tornar passado, mas o passado não volta a ser futuro.
Possibilidade e realidade são modos de ser
qualitativamente diferentes. O passado lembrado é diferente do futuro esperado.
Se toda realidade na história é possibilidade realizada, então a possibilidade
é ontologicamente superior à realidade. Por conseguinte, o futuro deve ter
prioridade entre os modos temporais. Se perguntamos pela fonte do tempo, ela deve estar no futuro. Mas se deve distinguir
entre o futuro como modo temporal (que passa) do futuro como fonte dos tempos.
O futuro transcendental do tempo está presente para cada tempo: o futuro, o
presente e o passado.
Com a introdução do sujeito na experiência do tempo
surgem os fenômenos especiais do tempo histórico: não há tempo histórico sem o
sujeito que a experiencia. Em sua teoria
do tempo psicológico, Agostinho relaciona passado, presente e futuro à
percepção deles pela alma humana: pela recordação (memoria), o espírito humano presentifica o passado. Esse é o
passado presentificado, não o passado mesmo. Pela expectativa (expectatio), ele presentifica o futuro.
Esse é o futuro presentificado, não o futuro mesmo. Pela intuição (contuitus), o espírito humano percebe o
presente. Esse é o presente imediato. No espírito humano, o passado e o futuro
estão presentes graças à lembrança e à expectativa, eles são co-presentes.
Dessa associação surge no espírito humano uma simultaneidade do não-simultâneo.
Essa simultaneidade é uma eternidade
relativa, pois um dos atributos temporais da eternidade é sua
simultaneidade. A presença do espírito do homem pode ser entendida como cópia
da presença temporal absoluta da eternidade de Deus. Se pela recordação
chamamos o passado, que não é mais, de volta à memória presente, e se
antecipamos, pelas expectativas, o futuro, que ainda não é, então isso é uma
ação criativa por parte do espírito humano sobre o ausente e que não é. Portanto,
um reflexo de Deus, que chama o que não é à existência.
Há diferenças entre a história experienciada e a
própria história. No passado lembrado, existe a diferença entre o presente passado e o passado presentificado. Nas expectativas
presentificamos o futuro. Nós o
presentificamos não como futuro, mas como presente
futuro e experiência futura possível.
O entrelaçamento dos tempos no tempo histórico vai
mais longe. Todo presente passado teve, assim como foi experienciado pelas
gerações passadas, suas próprias lembranças e expectativas e também, portanto,
seu próprio entrelaçamento de passado e futuro presentificados. Quando
recordamos um presente passado, devemos perguntar também por suas lembranças e
expectativas. Na própria orientação para o futuro, buscamos as esperanças do
passado e as encontramos nas esperanças irrealizadas e nas dívidas não pagas
das gerações passadas. Nesse sentido, o futuro
da história determina os tempos e torna o passado futuro passado, o presente futuro
presente, e os tempos futuros se tornaram futuro futuro.
A experiência da eternidade no tempo não é nada mais
que a dimensão profunda do presente, porque o presente espiritual, graças à
lembrança e à expectativa, produz uma relativa simultaneidade de passado e
futuro. Essa presença da eternidade no momento histórico não é a eternidade do
Deus “totalmente distinto”, mas a eternidade análoga, relativa, participativa
de sua imagem na terra.
Não é apenas a simultaneidade de passado e futuro no
presente histórico que constitui o conceito temporal de eternidade, mas também
a experiência dessa simultaneidade. Essa é a experiência do presente como kairos, não como chronos. Kairos é o
“tempo certo, oportuno”. Na compreensão kairológica do tempo “cada coisa” tem
“seu tempo”. A compreensão kairológica do tempo é acentuada na experiência extática ou mística do
presente como “momento cumprido”. Ela interrompe o fluxo temporal histórico de
futuro e passado, nela desaparecem as lembranças e expectativas. Estamos
totalmente “aí” e nos esquecemos de nós mesmos e de nossa temporalidade. A
experiência do “tempo cumprido” na totalidade da vida vivida é a experiência da
eternidade presentificada. Dessas experiências de eternidade presentificada nasce o anseio pelo presente eterno.
Então, existe um ponto pelo qual nos
conscientizaríamos da temporalidade da vida e do mundo? Segundo a concepção
clássica, esse ponto é a morte do
sujeito, porque ela é a saída do tempo da vida e do tempo do mundo. Desde o
começo da modernidade, a morte é vista como saída do tempo para o nada eterno.
A saída para o nada nos revela a efemeridade como consequência do pecado, do
isolar-se de Deus e de seu Espírito eterno e vivificante. Mas, se a saída do
tempo é experienciada no momento cumprido da eternidade presente, a experiência
da vida temporal é diferente. A vida eterna começa já aqui e agora no meio do
tempo efêmero. Por causa dessa experiência extática do presente, a morte é
esperada como começo da transformação em vida eterna, que se consumará com a
ressurreição dos mortos. À luz dessa expectativa da ressurreição, o tempo é
essencialmente determinado como futuridade e esperado, experienciado e lembrado
como história do futuro.
Resumo de: MOLTMANN, Jürgen.. In: ______. Ciência e sabedoria. São Paulo: Loyola,
2007. cap. 6, p. 115-130, como atividade de PIBIC, bolsa da FAPEMIG, realizado
por Gonzalo Benavides Mesones, estudante de Teologia da FAJE. Orientador:
Afonso Murad. Projeto: Ecoteologia
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Taller "Educación, ecologia y bien-vivir"
Foto do grupo que participou da Oficina "Educación, Ecologia y Bien-viviv" durante o Encontro das Equipes Diretivas dos centros educativos maristas, em Mar Del Plata, Argentina.
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