quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Conhecer a Laudato Si – Um roteiro para encontros

Afonso Murad

Fonte: capítulo 16 do livro: Cuidar da Casa Comum. Chaves de leitura teológicas e pastorais da Laudato Si. Paulinas, 2016, p.225-235

Seguem algumas sugestões com elementos básicos para encontros de reflexão, partilha e oração, a partir da Laudato Si. Caso não seja viável realizar todos os encontros, escolha alguns deles. A ordem também pode ser alterada, conforme a realidade do grupo.
Sugerimos que um “encontro motivacional” seja realizado em um parque, bosque, área de conservação, ou qualquer outro espaço onde, antes de refletir, as pessoas exercitem seus sentidos (tocar, cheirar, ver, respirar, ouvir), percebendo-se como parte do meio ambiente. Ele visa a aproximar-se do ecossistema com abertura para a admiração e o encanto, deixar falar a língua da fraternidade e da beleza (LS 11). Tal momento para estimular a sensibilidade e o encantamento pode estar associado ao primeiro encontro, ou não. Outra possibilidade consiste em criar um momento especial de celebração no meio do processo ou após terminar os encontros de reflexão.

(1º) Louvado Seja, meu Senhor, por todas as suas criaturas
Finalidade: (a) Agradecer a Deus pela beleza da criação; (b) Tomar conhecimento das motivações da encíclica; a quem ela destina; suas grandes linhas, as convicções centrais, o mapa para percorrê-la (esquema dos capítulos); (c) Compreender porque Francisco de Assis é modelo do cuidado com a casa comum.
Canto: Cântico das Criaturas, de São Francisco
Começo de conversa: Qual a experiência mais forte que você viveu de sentir a beleza da criação?

Textos da Encíclica:
(1) O que é a Encíclica Laudato Si (LS)
- Faz parte do Ensino Social da Igreja. A LS foi escrita “para nos ajudar a reconhecer a grandeza, a urgência e a beleza do desafio que temos pela frente”: cuidar da casa comum, a Terra (LS 15).
- Como Francisco e seus assessores organizaram a encíclica em seis capítulos (LS 15).
- A Terra é para nós como a casa onde habitamos com as outras criaturas, uma irmã com que partilhamos a existência, uma boa mãe que nos acolhe nos seus braços (LS 1). Ela clama contra a violência que lhe provocamos. Esquecemos de que nós mesmos somos parte da Terra (LS 2).
- Francisco faz um grande apelo: unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral (13).
- Eixos que perpassam toda a encíclica: (LS 16).

(2) São Francisco: exemplo do cuidado pelo que é frágil, por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade. Aquele que reconhece o planeta como um livro maravilhoso de Deus, que nos fala de sua bondade e beleza (LS 10,11,12).
Síntese: (em duplas, seguido de partilha para todo o grupo) O que você aprendeu no encontro de hoje, e vai levar para sua vida?
Oração final: Cantar novamente o Cântico das criaturas. Continuar o louvor espontaneamente, repetindo um refrão de agradecimento.
Textos complementares para leitura: artigos de L.Boff (pag. 15-23) e F. Aquino Júnior (pag. 24-39), no livro: Cuidar da Casa Comum. Chaves de leitura teológicas e pastorais da Laudato Si. Paulinas.

(2º) O que está acontecendo com a nossa casa
Finalidade: fazer uma resenha das questões socioambientais que devem causar inquietação nos cristãos. Despertar a indignação. “Tomar consciência, ousar transformar em sofrimento pessoal aquilo que acontece ao mundo e, assim, reconhecer a contribuição que cada um lhe pode dar” (LS 18).
Canto: Oremos pela Terra (Padre Zezinho – CD “A vida em nossas mãos” – Paulinas. Disponível no blog: ecologiaefe.blogspot)
Começo de conversa: Há um problema ambiental que você e sua família sentem “na pele”? Qual? Em sua opinião, quais são os principais problemas ambientais da sua cidade? E do nosso país?

Observações:
O capítulo 1 é uma grande síntese das principais questões socioambientais do mundo. Impossível apresentar todos os aspectos numa única reunião de grupo. Seria bom escolher alguns temas, começando por aqueles que atingem mais de perto as pessoas de sua cidade e região. Não necessariamente na ordem proposta pelo documento. O importante é perceber que as questões socioambientais estão interligadas. Pode-se partir da grande questão global (mudanças climáticas), ou de um tema mais próximo, como água e resíduos.
Para grupos com visão profunda e crítica, convém mostrar as raízes dos problemas: o sistema de produção-consumo-descarte do mercado, que rompe com os ciclos de matéria e energia do planeta (LS 22); o poder econômico e financeiro que abandona a ética (LS 56).

Por fim, é bom ressaltar que já existem iniciativas positivas e formas de enfrentar algumas destas questões (LS 58 e 180). Os problemas não podem gerar sensação de impotência ou de indiferença.
Estes temas podem ser abordados em forma de painel, no qual cada pessoa se ocupa de um tema, previamente escolhido, e o apresenta aos outros. Em outros casos, vale convidar pesquisadores ou membros de movimentos socioambientais para partilharem suas lutas em defesa do planeta. Ou ainda recorrer a pequenos vídeos da internet, para provocar a reflexão.

Textos da Encíclica:
Propomos os seguintes tópicos:
- Poluição e resíduos (LS 20-21);
- Mudanças Climáticas e suas consequências (LS 25);
- Água (LS 28);
- Perda da biodiversidade (LS 32);
- Diminuição da qualidade de vida nas cidades (LS 44);
- Desigualdade planetária (LS 48).
- Respostas positivas à crise do planeta (LS 58 e 180)

 Síntese: (em duplas, seguido de partilha para todo o grupo) O que você aprendeu no encontro de hoje, e vai levar para sua vida?
Oração final: Oração pela nossa Terra (Ver: LS 246a)[1]
Textos complementares para leitura: Artigos de Frei Gilvander Moreira (p.197-217) e Frei Rodrigo Peret (p.182-196), no livro: Cuidar da Casa Comum. Chaves de leitura teológicas e pastorais da Laudato Si. Paulinas.

(3º) O Evangelho da Criação
Finalidade: Superar uma concepção literal e estática da origem da Terra. Ampliar a visão cristã sobre a criação e a nossa responsabilidade para com ela. Perceber que a teologia da criação não está somente em Gên 1-2. Ela percorre toda a Bíblia, em estreita relação com a salvação.
Canto: Escolha um Salmo de Louvor com a criação.
Começo de conversa: Levantar com o grupo os textos bíblicos sobre a nossa relação com a Terra. (A pergunta fará a diferença: não somente a respeito dos outros seres - água, solo, ar, plantas, pássaros, animais - , mas sim como eles participam conosco no projeto criador e salvador de Deus).

Textos da Encíclica:
- Narrações da criação: relação do humano com Deus, o próximo e a terra (LS 66).
- Releitura de Gn1 e 2: de dominar para cuidar (LS 67).
- Caim e Abel: a terra clama (LS 70a).
- Noé: tudo está interligado (LS 70b). Basta um homem bom para haver esperança (LS 71a).
- Salmos e o louvor pela criação (LS 72).
- De “natureza” para “criação”: a diferença (LS 76).
- Cada ser é importante. Tudo é carícia de Deus (LS 84).
- Uma comunhão universal: respeito sagrado, amoroso e humilde (LS 89).
- O olhar de Jesus de Nazaré (LS 97-98).
- Cristo glorificado e a Nova Criação (LS 100).

Conclusões:
“Tudo está relacionado e os seres humanos caminham juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe terra” (LS 92b).
Essas convicções da nossa fé, a partir da bíblia, provocam uma conversão ecológica (LS 221).
Síntese: (em duplas, seguido de partilha para todo o grupo) O que você aprendeu no encontro de hoje, e vai levar para sua vida?
Oração final: Cantar outro Salmo de Louvor com a criação. Continuar com uma oração espontânea.
Texto complementar para leitura: artigo de Marcelo Barros, p. 103-114, no livro: Cuidar da Casa Comum. Chaves de leitura teológicas e pastorais da Laudato Si. Paulinas.

(4º) Ecologia integral
Finalidade: Compreender que, segundo a Igreja, a ecologia não é somente um estudo sobre o meio ambiente. A ecologia integral compreende a nossa relação com o meio ambiente, as questões sociais, a economia justa, a cultura, a maneira de viver na cidade e as práticas cotidianas.
Canto: Sal da Terra, de Betto Guedes (Disponível no blog: ecologiaefe.blogspot.com).
Começo de conversa: o que você entende por ecologia? Como este tema aparece na TV, nas revistas e na internet?

Observação:
O capítulo IV da LS reflete sobre a Ecologia integral e seus componentes: ecologia ambiental, econômica e social (LS 138-142), ecologia cultural (LS 143-146), ecologia da vida cotidiana (LS 147-155). Relaciona a ecologia com o conhecido princípio do bem comum e a opção preferencial pelos pobres (LS 156-158). Termina com o apelo de estender o nosso compromisso para com as futuras gerações (LS 159-162).
Como no capítulo III (que não trataremos aqui), papa Francisco utiliza aqui vários termos técnicos, que são familiares aos pesquisadores e aos membros de movimentos socioambientais, mas desconhecidos pelo católico comum. Por exemplo: modelos de desenvolvimento, produção e consumo; impacto ambiental, ecossistemas, uso sustentável, capacidade regenerativa, culturas homogeneizadas, ecologia humana, grandes projetos extrativistas, paisagem urbana, solidariedade intergeracional. Por que usar estas palavras? Para permitir um diálogo real com as pessoas que não fazem parte da Igreja; para ampliar a visão dos cristãos e superar esquemas ingênuos e insuficientes, a fim de que a Boa Nova do Evangelho seja significativa na sociedade contemporânea.

A grande parte dos evangelizadores (leigos/as, religiosas/as, presbíteros e bispos) quando falam em ecologia, tendem a identificá-la simplesmente com “preservação da natureza”. Mas o empenho ecológico não consiste somente em manter intacto algo, mas, sobretudo, em estabelecer processos sustentáveis, que respeitem os ciclos de matéria e energia no planeta. Além disso, a ecologia não diz respeito somente à natureza, compreendida numa visão idealizada e fora de nós. A grande novidade da ecologia contemporânea é a interdependência. Nós, humanos, estamos em constante relação, entre nós mesmos e com a comunidade de vida do planeta, os ecossistemas. Fazemos parte da Terra, mas ao mesmo tempo somos diferentes dos outros seres. Ecologia não é sinônimo de natureza estática, e sim da busca por um planeta habitável para nós e outros seres. Por fim, com a grande concentração de pessoas nas cidades, ganha importância a ecologia urbana, que diz respeito à qualidade da existência humana e de seu meio, especialmente para os mais pobres.

A ecologia integral amplia os horizontes humanos e busca integrar o que a ciência moderna fragmentou: o ser humano com todas as suas relações. Por isso, o Papa usa a feliz expressão: “cuidado da casa comum”. Nesta casa habitamos todos: os seres abióticos (solo, água, ar, energia do sol), os seres vivos nos mais distintos graus (como microorganismos, plantas, animais) e os humanos. Oxalá a visão da ecologia integral penetre nas nossas comunidades e faça parte do nosso horizonte cristão.

Textos da Encíclica:
Como há muitos aspectos neste capítulo, sugerimos apenas alguns. Você e sua equipe podem escolher outros, conforme sua realidade local.
(1)   Ecologia da vida cotidiana das cidades:
- Verdadeiro progresso: melhoria global da qualidade de vida (LS 147).
- Esforços para melhorar o ambiente vizinho. A rede de comunhão e pertença (LS 148-149).
- Cuidado com os espaços comuns e a intervenção na paisagem urbana (LS 151).
- Acesso à moradia e um projeto urbano humanizador (LS 152).
- Transporte particular e transporte público (LS 153).

(2)   Ecologia e vida humana
- Nós fazemos parte do ambiente. Buscamos soluções integrais: ecológicas e sociais (LS 139).
- O bem comum está ligado à promoção social dos mais pobres (LS 158).
- É preciso buscar a qualidade de vida pensando nas novas gerações do presente e do futuro (LS 159 e 162).

Síntese: (em duplas, seguido de partilha para todo o grupo) O que você aprendeu no encontro de hoje, e vai levar para sua vida?
Oração final: Preces de louvor e súplica.
Textos complementares para leitura: artigos de Pedro R. Oliveira (p. 90-102) e Manfredo Oliveira (p.129-145), no livro: Cuidar da Casa Comum. Chaves de leitura teológicas e pastorais da Laudato Si. Paulinas.

(5º) Espiritualidade ecológica
Finalidade: Estimular a conversão ecológica, que suscita novas atitudes pessoais e comunitárias. Descobrir a espiritualidade ecológica e assimilá-la em sua existência.
Canto: Abençoa nossa Terra (Padre Zezinho – CD “A vida em nossas mãos” - Paulinas)
Começo de conversa: Você deve estar fazendo várias descobertas, com a leitura da Laudato Si. Você sentiu algum apelo para mudar sua forma de rezar e de se relacionar com Deus, a partir dos nossos encontros? O papa Francisco fala em “conversão ecológica”. O que você pensa que seja essa “conversão ecológica”?

Textos da Encíclica:
(1) O apelo à conversão ecológica
- A espiritualidade está ligada ao corpo, à natureza e às realidades deste mundo (LS 216).
- Conversão ecológica: deixar emergir, nas relações com o mundo em que vivemos, todas as consequências do encontro com Jesus. Sermos guardiães da criação (LS 217).

(2) Espiritualidade ecológica
- Espiritualidade simultaneamente pessoal e comunitária (LS 218).
- Viver com alegria e simplicidade (LS 222).
- A felicidade com poucas coisas (LS 223).
- Paz interior e equilíbrio de vida (LS 225-226)

(3) Os sacramentos em perspectiva ecológica
- Sacramentos e visão integradora do mundo (LS 235).
- Eucaristia, ato de amor cósmico (LS 236).

Síntese: (em duplas, seguido de partilha para todo o grupo) O que você aprendeu no encontro de hoje, e vai levar para sua vida?
Oração final: Repetir alguma frase da Encíclica, em forma de ação de graças.
Tarefa para o próximo encontro: Cada um(a) pense qual ação coletiva (comunitária) será assumida pela comunidade como forma concreta de atender ao apelo do Papa Francisco na Laudato Si. Por vezes, já existem iniciativas bem sucedidas em sua cidade, que precisam de apoio e colaboração. Procure descobri-las, antes da reunião. Conforme o caso, convidar membros de movimentos socioambientais para participar do próximo encontro.

Textos complementares para leitura: Artigos de Frei Luis Carlos Susin (p.40-51), Frei Betto (p.157-168) e Maria Clara Bingemer (p.169-181), no livro: Cuidar da Casa Comum. Chaves de leitura teológicas e pastorais da Laudato Si. Paulinas.


(6º e 7º) Atitudes individuais e ações coletivas de cuidado com a casa comum
Finalidade: Colocar em prática a mensagem da Encíclica Laudato Si.
Canto: Momento Novo ou outro cântico que estimule a ação conjunta.

Observações
Estes encontros têm caráter prático, concreto. O mais importante é que a comunidade assuma algumas ações coletivas de cuidado com a casa comum, conforme sua realidade local. Embora esteja colocado no final da série, podem ser realizados no meio do processo. As ações comunitárias suscitam consciência e nos permitem fazer uma ligação entre a prática e a teoria. Sugerimos dois encontros, para amadurecer as propostas, escolher as pessoas e organizar as atividades.

Sugestão de método: O animador(a) inicia recolhendo as sugestões dos participantes. Escreve-se ou se projeta tudo o que foi sugerido. Convém distinguir as iniciativas já existentes e as novas propostas. Em seguida, um tempo de cochicho, para escolher as viáveis. Caso haja pessoas convidadas, que representam movimentos existentes, elas devem brevemente colocar o que realizam. Depois, segue-se a discussão em vista da decisão. Por fim, na reunião seguinte, aprofundamento e escolha das opções, com as respectivas pessoas encarregadas e o cronograma de execução.
 Ações comunitárias: Essas são realizadas com a finalidade de efetivamente contribuir para a melhoria da qualidade da vida. Além disso, despertam a consciência para o cuidado com a Casa comum. O papa Francisco insiste que devemos construir juntos uma terra habitável. Quando já existem iniciativas da sociedade civil, devemos nos unir a elas, ou realizar um trabalho de parceria. Se não há nada na cidade, é momento de começar.

Existem no mínimo dois tipos de ações comunitárias: campanhas e processos. As campanhas visam desinstalar as pessoas e mobilizá-las para mudar de atitudes e empreender ações de impacto, durante um tempo fixado. Já os processos são duradouros (embora devam ser avaliados a cada ano, para melhorar ou modificar). Uma campanha pode desembocar num processo. Depende da existência ou não de pessoas na comunidade que assumam a responsabilidade. Tanto as campanhas como os processos devem ser bem preparados, com uma comunicação eficiente, utilizando meios interpessoais e virtuais. Não basta que a proposta seja boa. Ela deve começar bem, para ter futuro. Chegar até as pessoas, onde elas estão. Hoje é necessário unir várias formas e canais de comunicação. Por exemplo: um cartaz inteligente e bonito, afixado em locais por onde as pessoas passam (como a escola e a padaria), abordagem na porta da Igreja, entrevista na rádio da cidade, rede no What’s App, comunidade no Facebook...

Algumas destas iniciativas somente serão duradouras se contarem com a ajuda de voluntários, ambientalistas e pessoas que tragam sua experiência e contribuição técnica. Em outros casos, com o apoio das associações locais e outras igrejas cristãs. Algumas atividades complexas exigem a parceria com o poder público, especialmente a prefeitura. Evite-se a submissão destas iniciativas ao apoio interesseiro de vereadores ou deputados.
O animador(a) deve estudar antes da reunião as propostas viáveis, pesquisar na internet, entrar em contato com pessoas na cidade. Ver as possibilidades e os riscos de cada iniciativa. E estar aberto(a) às propostas que venham do grupo. Seguem algumas sugestões. Você encontrará vários vídeos com experiências detalhadas na internet, que podem servir de inspiração.

Textos da Encíclica:
- Ações individuais: (LS 211 e 212).
- Amor civil e político (LS 228 e 231).

Oração final: Após momento espontâneo de louvor, encerrar com a Oração cristã com a criação (LS 246b).
Texto complementar para leitura: artigo da Marcial Maçaneiro (p. 73-89) no livro: Cuidar da Casa Comum. Chaves de leitura teológicas e pastorais da Laudato Si. Paulinas.



[1]Em um mesmo parágrafo da LS por vezes há assuntos diferentes. Para efeito didático, colocamos a letra (a) ou (b), para indicar que o texto indicado se encontra no início ou no final do tópico citado. Tal letra não existe no documento.

Conhecer a Laudato Si - Pistas pastorais

Fonte: capítulo 16 do livro: Cuidar da Casa Comum. Chaves de leitura teológicas e pastorais da Laudato Si. Paulinas, 2016, p.219-224

Introdução
Quando o/a peregrina está num grande Santuário, como Aparecida, além de rezar diante da “imagem da santa” e participar da missa, percorre capelas e outros cantinhos, contempla as pinturas e esculturas, caminha na área externa, visita as lojinhas, alimenta-se, ou ainda senta-se debaixo das árvores para se abrigar do sol e descansar. Se alguém visita uma cidade histórica, como Ouro Preto, sobe e desce as ladeiras, olha os casarões, entra nas igrejas, prova a saborosa comida mineira, senta-se na praça, admira o artesanato de pedra sabão. Diferentemente de outras culturas, o brasileiro(a) não costuma usar mapas ou roteiros para percorrer santuários ou cidades. Por vezes, estes instrumentais são importantes para a gente se guiar e desfrutar com mais conhecimento e profundidade da experiência de peregrino ou enriquecer nosso horizonte cultural. Mas, um mapa não substitui a prática de descobrir, contemplar, rezar, comer, divertir-se ou descansar.

Assim também acontece com a leitura e a prática cristã que decorre de um documento eclesial, como a Encíclica Laudato Si. As chaves de leitura que apresentamos nos capítulos anteriores são como um mapa, um roteiro ou aquelas “dicas” que se busca na internet. Ora, a gente se torna peregrino quando chega ao santuário. Conhece uma cidade ou região quando caminha, vê, sente os odores, conversa com as pessoas e faz suas próprias fotos. A grande tarefa que se põe agora consiste em introduzir as pessoas para conhecer a Laudato Si e colocar em prática a sua proposta.

Quem organiza excursões ou peregrinações (e às vezes ambas fazem parte do mesmo “pacote”) coloca uma pergunta prévia: “a quem se destina?”. Ora, o conteúdo e a forma estão intimamente ligados ao tipo do público-alvo. Uma peregrinação para a terceira idade requer escolha de locais e uma programação próprias, diferente daquela dirigida a um grupo de jovens. De maneira semelhante, tal questão orienta bispos, presbíteros, religiosos(as) e outros agentes de pastoral quando introduzem os cristãos no conhecimento e na vivência da mensagem da Laudato Si. O importante é ajudar as pessoas e os grupos a realizarem uma “fusão de horizontes” da sua experiência pessoal e comunitária com o texto inspirador. E a partir daí, alargar sua visão de mundo, enriquecer a espiritualidade e suscitar práticas transformadoras. Isso requer o conhecimento específico de determinado grupo, com suas características de faixa etária, cultura local, interesses, tipo de religiosidade predominante e experiências de vida.

Apresentaremos aqui uma sugestão de trabalho com a Encíclica, dirigida a grupos eclesiais, pastorais e movimentos de adultos em paróquia urbana. Esse recorte também é amplo. Deve-se levar em conta vários fatores do público-alvo concreto, como acesso à leitura, condição social, prática de trabalho em grupo etc.
Deixamos claro: não se trata de um roteiro pronto, mas de pistas para suscitar a criatividade local. Esperamos que se tomem iniciativas semelhantes com os/as catequistas e as crianças, os jovens, os movimentos, as pastorais específicas, especialmente as pastorais sociais.

O caminho da aprendizagem: conteúdo e metodologia
- O Papa Francisco insiste que o “cuidado com a casa comum” compreende ao mesmo tempo as atitudes individuais (ecologia do cotidiano) e a prática do “amor civil e político” (LS 228-231). Por vezes, é difícil realizar as duas dimensões. No momento, há um descrédito quanto à luta de grupos organizados para garantir políticas públicas justas e sustentáveis. Além disso, nos últimos anos desenvolveu-se na Igreja uma espiritualidade muito subjetiva e centrada em práticas religiosas (piedade e liturgia), em detrimento da ética.Sem contar a crescente influência do pentecostalismo, fascinado por milagres e experiência religiosa emocional, mas avessa à reflexão. Neste contexto, deve-se valorizar o louvor e partir da subjetividade. Por isso, colocamos como primeiro tema o louvor pela criação e a referência a São Francisco.

- Embora na igreja se fale pouco sobre o cuidado com o planeta, existe uma sensibilidade crescente na sociedade para com esta questão. O tema é atraente e cria condições para suscitar novas lideranças eclesiais. Atrairá homens e mulheres que desejam contribuir com uma sociedade sustentável. Trará “novos ares” para a espiritualidade e a ética cristã.

- A encíclica é dirigida não somente aos católicos(as), mas também a cristãos de outras Igrejas, crentes de outras religiões e todos os homens e mulheres que são chamados a cuidar de nosso planeta. Propositalmente, a Laudato Si tem poucos parágrafos explicitamente confessionais católicos, como as referências à Eucaristia (LS 236) e a Maria (LS 241). O texto do Papa pretende ser uma Boa Nova para a humanidade. Seria bom promover debates com fiéis de outras religiões, pesquisadores e membros de movimentos socioambientais. Isso exige uma metodologia diferente daquela que apresentamos aqui, voltada, sobretudo, a grupos que estão “dentro da Igreja”.

- Convém motivar as pessoas a conhecerem o texto inteiro da Encíclica e a meditarem sobre seu conteúdo. Além da versão escrita, editada em várias editoras católicas, as pessoas podem usar o texto na internet, no site do vaticano. Ele se encontra em Língua Portuguesa assim como é praticada em Portugal.

- Francisco nos pede para mudar nossa ecopercepção. Isso significa: superar aquela ideia do que o meio ambiente está fora de nós, vencer o preconceito de que ecologia é assunto de radicais verdes. Em outras palavras, compreender que tudo está interligado, que fazemos parte da Terra, que a ecologia é muito mais do que preservação da natureza. Inclui a consciência social, a busca de qualidade de vida na cidade, a espiritualidade integradora, a sensibilidade para a beleza, a gratuidade na existência, a renúncia ao consumismo, a adoção de um modelo de vida simples e alegre. Enfim, deter a espiral de destruição do planeta e acreditar que a humanidade pode ser diferente.

- Esta nova relação com a criação como um todo será alcançada também com uma metodologia que inclui os cinco sentidos (ver, tocar, cheirar, ouvir, sentir o gosto). Sugerimos que ao menos um encontro ou parte dele seja realizado num parque da cidade, em área de conservação, na beira do rio ou da praia, ou simplesmente embaixo de uma árvore. Somente nos sentiremos irmãs e irmãos das outras criaturas se nos aproximarmos delas conscientemente, experimentando, refletindo e rezando. Também podem ser úteis pequenos exercícios de autoconsciência e comunhão com a casa comum, como respirar, pisar e tocar na grama, molhar o rosto e o pescoço com a água fresca, fazer juntos e saborear uma bela salada com muitas cores.

- É fundamental que o estudo da Laudato Si se conclua com práticas concretas, perceptíveis, avaliáveis. A própria encíclica propõe algumas delas. Do ponto de vista das instituições eclesiais, como paróquias e escolas, é fundamental dar exemplos de práticas ambientais estimuladoras. Citamos aqui algumas: reutilização de água de chuva, substituição por lâmpadas econômicas, redução drástica do uso de material descartável, reutilização de produtos, separação e destinação do lixo seco para cooperativa de coletores. Isso se amplia com algumas iniciativas que partem do espaço eclesial e se destinam às famílias, tais como: incentivo à compostagem e horta/jardim de apartamento, oferecer mudas para replantio e cultivo de árvores frutíferas e do bioma local, centro para recolher e destinar à reciclagem o óleo de cozinha. Tais iniciativas devem ser realizadas em parceria com cooperativas, ONGs, empresas e poder público. Por vezes, eles já realizam iniciativas louváveis. O incentivo da Igreja e a motivação da fé permitem que seus frutos se multipliquem.

Se você começa a conhecer uma cidade ou região com um tempo limitado, deve necessariamente priorizar o que verá. Ou confiar no seu guia, quer fará isso por ele/a. Se vai a Salvador, seguramente será levado ao pelourinho. Quem passa por Belém, visitará o mercado “Ver o peso”. Em outra ocasião se deterá em outros pontos e fará seu próprio percurso. Impossível ver tudo de bom, ao mesmo tempo. Assim também procederemos aqui. Escolhemos alguns temas e parágrafos da Laudato Si, que nos parecem imprescindíveis para entrar no documento. Propomos alguns encontros, que podem ser aumentados ou diminuídos, conforme a natureza do grupo.

Algumas dicas
Vale relembrar alguns princípios metodológicos, tendo em vista o público-alvo escolhido.
- Procure utilizar textos breves, na medida certa para seus interlocutores.  Textos extensos, muitas citações da Encíclica, e longos comentários levam ao desinteresse pelo tema ou perda do foco. Para cada encontro propusemos alguns parágrafos da Laudato Si. Mesmo assim, veja o que é mais apropriado para o seu grupo.

- Divida bem o tempo de cada encontro, de forma a incluir um momento de oração, o conhecimento de tópicos da Encíclica e o confronto com a vida das pessoas. Conforme o tema, dediquem-se ao discernimento de ações práticas, em âmbito pessoal, familiar e comunitário.

- O estudo da Laudato Si pode estar articulado com temas das Campanhas da Fraternidade que tratam de questões socioambientais.

- Conforme o público, utilize música, clipe ou vídeo, como motivação. Neste caso, escolha o material que desperte a mente e o coração, e ajude a fazer a “fusão de horizontes”. Evite filmes longos. Há bons vídeos na internet, especialmente para tratar de alguns temas dos capítulos I (Como anda nossa casa Comum) e IV (Ecologia Integral).

- Se você e seu grupo produzirem um material de uso coletivo (como texto, vídeo, música, desenhos, clipe), coloque-o na Internet, no site da sua pastoral, movimento, paróquia ou diocese, de forma que outras pessoas no Brasil possam utilizá-lo. Compartilhe com seus amigos em redes sociais. Mande-nos também o link para colaborarmos na sua divulgação: murad4@hotmail.com
- Colocamos à sua disposição algumas apresentações em powerpoint, que estão no blog: ecologiaefe.blogspot.com  Tenha a liberdade de modificar, reduzir ou ampliar.
- Também produzimos uma série de programas de rádio sobre a Laudato Si, de seis minutos cada um, que estão disponíveis no site da RCR ou em www.amigodaterra.com.br Divulgue na emissora da sua cidade. Utilize como subsídio de áudio para discussão e reflexão. Se você produziu algum programa ou entrevista em áudio, mande também para nós, no email: murad4@hotmail.com

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Oração pela nossa Terra

Deus Onipotente,
que estás presente em todo o universo
e na mais pequenina das tuas criaturas,
Tu que envolves com a tua ternura
tudo o que existe,
derrama em nós a força do teu amor
para cuidarmos da vida e da beleza.
Inunda-nos de paz,
para que vivamos como irmãos e irmãs
sem prejudicar ninguém.

Ó Deus dos pobres,
ajuda-nos a resgatar
os abandonados e esquecidos desta terra
que valem tanto aos teus olhos.
Cura a nossa vida,
para que protejamos o mundo
e não o depredemos,
para que semeemos beleza
e não poluição nem destruição.

Toca os corações
daqueles que buscam apenas benefícios
à custa dos pobres e da terra.
Ensina-nos a descobrir o valor de cada coisa,
a contemplar com encanto,
a reconhecer que estamos profundamente unidos
com todas as criaturas
no nosso caminho para a tua luz infinita.

Obrigado porque estás conosco todos os dias.
Sustenta-nos na nossa luta
pela justiça, o amor e a paz.


(Papa Francisco, Laudato Si 246)