segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Polêmicas sobre o Sínodo para a Amazônia

Pacto das Catacumbas pela Casa Comum



Por uma Igreja com rosto amazônico, pobre e servidora, profética e samaritana

Nós, participantes do Sínodo Pan-amazônico, partilhamos a alegria de habitar em meio a numerosos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, migrantes, comunidades na periferia das cidades desse imenso território do Planeta. Com eles temos experimentado a força do Evangelho que atua nos pequenos. O encontro com esses povos nos interpela e nos convida a uma vida mais simples de partilha e gratuidade.  Marcados pela escuta dos seus clamores e lágrimas, acolhemos de coração as palavras do Papa Francisco:

“Muitos irmãos e irmãs na Amazônia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja.
Por eles, com eles, caminhemos juntos”[1].

Evocamos com gratidão aqueles bispos que, nas Catacumbas de Santa Domitila, ao término do Concílio Vaticano II, firmaram o Pacto por uma Igreja servidora e pobre[2].  Recordamos com veneração todos os mártires membros das comunidades eclesiais de base, de pastorais e movimentos populares; lideranças indígenas, missionárias e missionários, leigas e leigos, padres e bispos, que derramaram seu sangue, por causa desta opção pelos pobres, por defender a vida e lutar pela salvaguarda da nossa Casa Comum[3]. À gratidão por seu heroísmo unimos nossa decisão de continuar sua luta com firmeza e coragem. É um sentimento de urgência que se impõe ante as agressões que hoje devastam o território amazônico, ameaçado pela violência de um sistema econômico predatório e consumista.
Diante da Trindade Santa, de nossas Igrejas particulares, das Igrejas da América Latina e do Caribe e daquelas que nos são solidárias na África, Ásia, Oceania, Europa e no norte do continente americano, aos pés dos apóstolos Pedro e Paulo e da multidão dos mártires de Roma, da América Latina e em especial da nossa Amazônia, em profunda comunhão com o sucessor de Pedro, invocamos o Espírito Santo,   e  nos comprometemos pessoal e comunitariamente com o que se segue:
1.     Assumir, diante da extrema ameaça do aquecimento global e da exaustão dos recursos naturais, o compromisso de defender em nossos territórios e com nossas atitudes a floresta amazônica em pé. Dela vêm as dádivas das águas para grande parte do território sul-americano, a contribuição para o ciclo do carbono e regulação do clima global, uma incalculável biodiversidade e rica socio diversidade para a humanidade e a Terra inteira.
2.     Reconhecer que não somos donos da mãe terra, mas seus filhos e filhas, formados do pó da terra (Gn 2, 7-8)[4],  hóspedes e peregrinos (1 Pd 1, 17b e 1 Pd 2, 11)[5], chamados a ser seus zelosos cuidadores e cuidadoras (Gn 1, 26)[6]. Para tanto, comprometemo-nos com uma ecologia integral, na qual tudo está interligado, o gênero humano e toda a criação porque a totalidade dos seres são filhas e filhos da terra e sobre eles paira o Espírito de Deus (Gn 1, 2).
3.     Acolher e renovar a cada dia a aliança de Deus com todo o criado: De minha parte, vou estabelecer minha aliança convosco e com vossa descendência, com todos os seres vivos que estão convosco, aves, animais domésticos e selvagens, enfim, com todos os animais da terra que convosco saíram da arca (Gn 9, 9-10 e Gn 9, 12-17[7]).
4.     Renovar em nossas igrejas a opção preferencial pelos pobres, em especial pelos povos originários, e junto com eles garantir o direito de serem protagonistas na sociedade e na Igreja. Ajudá-los a preservar suas terras, culturas, línguas, histórias, identidades e espiritualidades. Crescer na consciência de que estas devem ser respeitadas local e globalmente e, consequentemente favorecer, por todos os meios ao nosso alcance, que sejam acolhidas em pé de igualdade no concerto mundial dos demais povos e culturas. 
5.     Abandonar, como decorrência, em nossas paróquias, dioceses e grupos toda espécie de mentalidade e postura colonialista, acolhendo e valorizando a diversidade cultural, étnica e linguística num diálogo respeitoso com todas as tradições espirituais.
6.     Denunciar todas as formas de violência e agressão à autonomia e direitos dos povos originários, à sua identidade, aos seus territórios e às suas formas de vida.
7.     Anunciar a novidade libertadora do evangelho de Jesus Cristo, na acolhida ao outro e ao diferente, como sucedeu com Pedro na casa de Cornélio: “Vós bem sabeis que a um judeu é proibido relacionar-se com um estrangeiro ou entrar em sua casa. Ora, Deus me mostrou que não se deve dizer que algum homem é profano ou impuro” (At 10, 28)[8].
8.     Caminhar ecumenicamente com outras comunidades cristãs no anúncio inculturado e libertador do evangelho, e com as outras religiões e pessoas de boa vontade, na solidariedade com os povos originários, com os pobres e pequenos, na defesa dos seus direitos e na preservação da Casa Comum
9.     Instaurar em nossas igrejas particulares um estilo de vida sinodal, onde representantes dos povos originários, missionários e missionárias, leigos e leigas, em razão do seu batismo, e em comunhão com seus pastores, tenham voz e voto nas assembleias diocesanas, nos conselhos pastorais e paroquiais, enfim em tudo que lhes compete no governo das comunidades.
10.  Empenhar-nos no urgente reconhecimento dos ministérios eclesiais já existentes nas comunidades, exercidos por agentes de pastoral, catequistas indígenas, ministras e ministros e da Palavra, valorizando em especial seu cuidado em relação aos mais vulneráveis e excluídos.
11.  Tornar efetiva nas comunidades a nós confiadas a passagem de uma pastoral de visita a uma pastoral de presença, assegurando que o direito à Mesa da Palavra e à Mesa de Eucaristia se torne efetivo em todas as comunidades.
12.  Reconhecer os serviços e a real diaconia do grande número de mulheres que hoje dirigem comunidades na Amazônia e procurar consolidá-los com um ministério adequado de mulheres dirigentes de comunidade.
13.  Buscar novos caminhos de ação pastoral nas cidades onde atuamos, com protagonismo de leigos e jovens, com atenção às suas periferias e aos migrantes, aos trabalhadores e aos desempregados, aos estudantes, educadores, pesquisadores e ao mundo da cultura e da comunicação[9].
14.  Assumir diante da avalanche do consumismo um estilo de vida alegremente sóbrio, simples e solidário com os que pouco ou nada tem; reduzir a produção de lixo e o uso de plásticos, favorecer a produção e comercialização de produtos agroecológicos, utilizar sempre que possível o transporte público.
15.  Colocar-nos ao lado dos que são perseguidos pelo profético serviço de denúncia e reparação de injustiças, de defesa da terra e dos direitos dos pequenos, de acolhida e apoio a migrantes e refugiados. Cultivar amizades verdadeiras com os pobres, visitar as pessoas mais simples e os enfermos, exercitando o ministério da escuta, da consolação e do apoio que trazem alento e renovam a esperança.

Conscientes de nossas fragilidades, de nossa pobreza e pequenez diante de tão grandes e graves desafios, confiamo-nos à oração da Igreja. Que sobretudo nossas Comunidades Eclesiais nos socorram com sua intercessão, afeto no Senhor e, sempre que necessário, com a caridade da correção fraterna.

Acolhemos de coração aberto o convite do Cardeal Hummes para nos deixarmos guiar pelo Espírito Santo nestes dias do Sínodo e no retorno às nossas igrejas:

“Deixem-se envolver no manto da Mãe de Deus e Rainha da Amazônia. Não deixemos que nos vença a auto-referencialidade, mas sim a misericórdia diante do grito dos pobres e da terra. Será necessária muita oração, meditação e discernimento, além de uma prática concreta de comunhão eclesial e espírito sinodal. Este sínodo é como uma mesa que Deus preparou para os seus pobres e nos pede a nós que sejamos aqueles que servem à mesa[10].

Celebramos esta Eucaristia do Pacto como “um ato de amor cósmico. “Sim, cósmico! Porque mesmo quando tem lugar no pequeno altar duma igreja de aldeia, a Eucaristia é sempre celebrada, de certo modo, sobre o altar do mundo”. A Eucaristia une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação. O mundo saído das mãos de Deus, volta a Ele em feliz e plena adoração: no Pão Eucarístico “a criação propende para a divinização, para as santas núpcias, para a unificação com o próprio Criador”. “Por isso, a Eucaristia é também fonte de luz e motivação para as nossas preocupações pelo meio ambiente, e leva-nos a ser guardiões da criação inteira”.[11]

Catacumbas de Santa Domitila
Roma, 20 de outubro de 2019


[1] Homília do Papa Francisco na Missa de abertura do Sínodo, Roma 06-10-2019
[2] Pacto por uma Igreja servidora e pobre. Catacumbas de Santa Domitila, Roma 16 de novembro de 1965. O Pacto assinado por 42 concelebrantes, recebeu em seguida a adesão de cerca de 500 padres conciliares.
[3] DAp 98, 140, 275, 383, 396.
[4]7 Então o SENHOR Deus formou o ser humano com o pó do solo, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida e Ele tornou-se um ser vivente. 8 Depois, o Senhor Deus plantou um jardim em Éden, a oriente, e pôs ali o homem que havia formado”.
[5] “... vivei no temor o tempo de vossa permanência como migrantes” (1 Pd 1, 17b) e “Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros...” (1 Pd, 2, 11).
[6]26 Deus disse: ‘Façamos o ser humano à nossa imagem e segundo nossa semelhança, para que domine [cuide] sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todos os animais selvagens e todos os animais que
se movem pelo chão’. 27 Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou”.
[7] 12 E Deus disse: “Eis o sinal da aliança que estabeleço entre mim e vós e todos os seres vivos que estão convosco, por todas as gerações futuras. 13 Ponho meu arco nas nuvens, como sinal de aliança entre mim e a terra. 14 Quando eu cobrir de nuvens a terra, aparecerá o arco-íris nas nuvens. 15 Então me lembrarei de minha aliança convosco e com todas as espécies de seres vivos, e as águas não se tornarão mais um dilúvio para destruir toda carne. 16 Quando o arco-íris estiver nas nuvens, eu o contemplarei como recordação da aliança eterna entre Deus e todas as espécies de seres vivos sobre a terra”. 17 Deus disse a Noé: “Este é o sinal da aliança que estabeleço entre mim e toda a carne sobre a terra”.
[8] 4 Então, Pedro tomou a palavra: “De fato”, disse, “estou compreendendo que Deus não faz discriminação entre as pessoas. 35 Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença (At 10, 34-35).
[9] Cfr DSD 302.1.3
[10] HUMMES, Card. Cláudio, 1ª. Congregação Geral do Sínodo Amazônico, Relação introdutória do Relator Geral, Roma, 07-10-2019 (BO 792).
[11] Laudato Si’, 237.

sábado, 4 de maio de 2019

O que é ecoteologia?

A teologia é exercício de refletir, elaborar, explicitar, utilizar a razão iluminada pela fé. Já a ecoteologia consiste em pensar a fé no horizonte da consciência planetária. Essa se caracteriza como a (re)descoberta de que o mundo se torna um todo, o ser humano  é membro da Terra e deve assumir a responsabilidade pelo futuro do planeta habitável. Trata-se da mesma teologia, com o foco especial.
Considerar o humano como “filho da terra” e sua expressão auto-consciente impacta diretamente na teologia da criação, na antropologia teológica e na escatologia. Propicia novas leituras a respeito dos relatos da criação, superando uma visão antropocêntrica egóica e dominadora. Traz para a reflexão teológica o tema da origem do nosso planeta, em diálogo com as geociências. Recoloca questões vitais, como: qual a participação e o lugar das outras criaturas no projeto salvífico de Deus? Em que consiste a esperança bíblica de “novo céu e a nova terra”? Como reformular a relação entre matéria e espírito, corpo e alma? Além disso, se somos responsáveis pelo futuro da Terra habitável, isso exige desenvolver uma ética cristã planetária, que vá além das subjetividades, integre as causas sociais com as ambientais e inclua a questão da paz e do diálogo inter-religiosa num mundo plural.

Da ecologia à ecoteologia
O termo “ecologia” é muito amplo e abarca ao menos três âmbitos: ciência da interdependência de todos os seres, ética do cuidado com o planeta e paradigma pós-antropocêntrico. A ecologia apresenta várias vertentes: ambiental, mental, social e integral. Ela visa compreender como os seres se relacionam na bioesfera. Ora, a ecologia, na sua multiplicidade de sentidos (enquanto ciência, ética e paradigma), toca a totalidade do sujeito. A cristã/o se vê então desafiado a ampliar sua autocompreensão (quem sou eu, quem é o ser humano neste mundo) e a repensar suas relações com os outros seres abióticos (solo, água, ar, energia do sol) e bióticos (microorganismos, plantas, animais e humanos) na grande, bela e complexa teia da vida no nosso planeta.

A originalidade da ecoteologia radica tanto no método e na linguagem, quanto no conteúdo. Seguindo tendência semelhante de outras ciências, ela anseia romper com a separação rígida entre sujeito e objeto, no ato de conhecer. Assim, “abandona o pensamento analítico, com suas distinções de sujeito e objeto, em favor de uma forma de pensar nova, comunicativa e integradora. Resgata o antigo conceito da razão como órgão perceptor e participativo” (Moltmann, Deus na Criação). Mudam os interesses que guiam o conhecimento. Já não se conhece para dominar, mas “para participar, para integrar-se nas relações recíprocas do vivo”.

O método da ecoteologia combina vários acessos à comunhão da criação: tradição, experiência, ciência, sabedoria, dedução, intuição. Expressa-se por símbolos e não somente conceitos, que configuram o inconsciente e regulam a consciência. Por fim, incorpora a imaginação criativa e prenhe de esperanças no futuro. “Em teologia, a fantasia é inseparável de Deus e de seu Reino. Se expulsamos da teologia as imagens da fantasia, a mataremos” (Moltmann, Deus na Criação).
A ecoteologia dialoga constantemente com as ciências ambientais. Elas são fundamentais para formatar uma moral ecológica cristã bem fundamentada e significativa. Mas não somente isso. Em sintonia com outras correntes de pensamento atual, como a teoria da complexidade, o “pensar ecológico” abre portas inusitadas para vários saberes.
A ecoteologia se insere no movimento de continuidade, novas sínteses, articulação e avanço, que caracteriza a teologia contemporânea. Não alimenta a ilusão de ser a grande chave de interpretação para reconfigurar toda a teologia. Nem tampouco é um pequeno setor, que se ocupa somente de questões ambientais ou da teologia da criação. Consiste em uma perspectiva, um enfoque, que permite reorganizar dados da fé, inferir, dialogar e aprofundar. Ela influencia a produção da teologia ao colocar perguntas decisivas no momento de realizar o “intellectus fidei”, a mediação hermenêutica propriamente teológica, que utiliza a Bíblia e a Tradição eclesial, sensível aos “Sinais dos Tempos”.

Originalidade da ecoteologia
A ecoteologia exerce papel de saber crítico-construtivo, justificador e sapiencial.
- Enquanto saber crítico, denuncia a privatização da fé cristã, que a reduz a um lenitivo para resolver questões pessoais e promover uma paz reduzida ao âmbito da subjetividade. Evidencia como o antropocentrismo unilateral contagiou os cristãos. Mostra a inviabilidade do consumismo, para o futuro da humanidade e do planeta. Resgata elementos fundamentais da doutrina e da espiritualidade cristãs, com o novo olhar do pensar ecológico.
- Como saber justificador, a ecoteologia rebate as críticas do que o cristianismo, desde as origens, foi o grande responsável pela atitude de dominação sobre o planeta. Evidencia que a visão bíblica não é antropocêntrica, mas sim teocêntrica relacional. O ser humano, constituído do “barro da Terra” e do sopro criador de Deus, é chamado a cuidar do jardim da criação (Gn 2) e a administrar os bens da Terra (Gn 1). O cristianismo não funda a ilusão do progresso ilimitado, porque não tem visão linear da história, e sim kairológica e messiânica.
- Por fim, a ecoteologia é sapiencial pois não visa somente o conhecimento, mas também o bem viver e a realização do projeto divino de co-existência do ser humano com Deus, seus semelhantes e a comunidade de Vida do planeta. Peregrinar neste mundo com equilíbrio, bom senso e cultivo das virtudes. Fazer um caminho de santidade.

A ecoteologia explicita no pensar teológico o princípio holístico e holográfico. Ou seja, o todo é maior do que a soma das partes, e em cada parte se condensa algo do todo. Isso é fundamental para recuperar a unidade de teologia, que se fragmentou em uma série de áreas e disciplinas, por vezes desconectadas entre si. Poucas vezes o estudante de teologia é estimulado a estabelecer relações entre aquilo que aprende especificamente na área da bíblia, da história, da dogmática, da moral e da liturgia. O mesmo se diz entre teologia, espiritualidade e pastoral, que parecem casas diferentes, de vizinhos que não se comunicam.
Ora, o pensar ecológico é aquele das relações e da interdependência. E neste sentido, toda e qualquer teologia necessita fazer um processo de conversão para ser mais “eco-lógica”. Ou seja, em vez de levantar paredes e construir cômodos independentes, empenhar-se para edificar a “casa comum”, na qual circulam, de forma interdependente, a espiritualidade, a prática transformadora (práxis) e o conhecimento teológico.

Afinal, o que é ecoteologia?
Em síntese, a ecoteologia é uma corrente teológica, em estreita relação com outras correntes teológicas, que:
(1) incorpora a contribuição das ciências ambientais, das práticas socioambientais e do paradigma ecológico para reler e reelaborar a auto-compreensão da fé e do discurso teológico,
(2) reflete sobre a contribuição da fé cristã para o cuidado com o planeta, a sustentabilidade e o bem viver,
 (3) desenvolve uma espiritualidade conectada com o mundo, unificadora, celebrativa, alegre, esperançada e lúcida,
(4) articula a dimensão social da fé cristã com a emergente consciência planetária, ampliando o horizonte da Teologia da Libertação Latino-americana e incorporando elementos crítico-construtivos de outras teologias contextuais (com a de gênero, étnicas, culturais, inter-religiosas).
(5) convoca os cristãos e outros interlocutores para desenvolverem atitudes pessoais, ações coletivas e processos institucionais para manter a terra habitável e promover a inclusão social dos pobres (teologia prática ou da práxis). Tal postura é compreendida com diversos termos, como: cuidado, salvaguarda, integridade da criação.

A ecoteologia latino-americana necessita de pesquisadores, professores, alunos de graduação e pós-graduação, sem prescindir dos agentes de pastoral. Por isso, reconhecemos a importância de agregar pessoas e grupos nesta causa, fundamental para a humanidade neste momento histórico.

Fonte: Afonso Murad. Ecoteologia: Um mosaico, cap.6. São Paulo: Paulus, 2016.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Páscoa para nós e a mãe Terra

Texto de Marcelo Barros

A chegada da primavera é ocasião de festa para todos os povos.  Muitas comunidades tradicionais, indígenas e africanas, celebram a primavera com ritos para que as pessoas se renovem e readquiram a energia  da juventude. A festa da Páscoa nasceu em tempos imemoriais, em ritos de primavera e renovação da vida. O próprio termo “Páscoa” significa passagem. Não indica somente mudança de estação, mas a decisão de passar de uma vida acomodada e rotineira para um novo modo de viver. É possível que, em seu início, Páscoa fosse o nome de uma dança sagrada, na qual se ensaiavam passos para o futuro e para a vida. 
Nesse ano de 2019, a festa cristã da Páscoa coincide com a celebração da Pessah judaica que começou na sexta-feira 19 e dura uma semana. No judaísmo, o título da festa é “Pezah zeman herutenu” : “a estação da nossa libertação”. O cristianismo fala de “festa da Ressurreição”. A forma e o conteúdo das celebrações variam, mas a raiz é a mesma. A Páscoa judaica tornou-se a comemoração da noite em que o Senhor libertou os hebreus da escravidão. Os cristãos celebram essa memória e acrescentam o memorial da morte e ressurreição de Jesus Cristo.
Foi quando celebrava a Páscoa com sua comunidade que Jesus foi preso e assassinado. Na madrugada do domingo que se seguia ao grande sábado da festa, Jesus deixou-se ver, vivo. O Senhor ressuscitado revela-se com o corpo ferido e chagas abertas nas mãos, nos pés e no peito. Mas, está vivo e resistente. Seus discípulos se alegram em vê-lo vivo e lembram sua palavra: “Filhinhos, no mundo vocês sempre terão aflições. Tenham coragem: eu venci o mundo”(Jo 16, 33).  
Ser discípulo/a de Jesus é testemunhar ao mundo essa energia da ressurreição, atuante nele e por seu Espírito, em todas as pessoas que o aceitam. Essa energia de ressurreição é força de resistência e vigor nas lutas pacificas pela transformação do país e do mundo. No mundo, os poderes da morte continuam agindo. O desamor organiza um mundo escravo do dinheiro e do poder; uma sociedade cruel e sem compaixão. Mas, no coração de muita gente, os gritos de Páscoa ressoam teimosamente.
Celebrar a Páscoa não vai mudar mecanicamente a situação social, política, ou econômica, mas vale como profecia e grito de liberdade para dar força a quem assume as lutas pela transformação do mundo. 
No meio das mais áridas paisagens, as flores resistem. Mesmo a lagarta aparentemente mais asquerosa é chamada a uma mudança radical. Rompe o casulo, ganha asas para voar e se transforma em uma linda borboleta. É símbolo da vocação do ser humano para esse caminho pascal. 
Nesse ano de 2019, no Ocidente, a festa da Páscoa coincide com a celebração do Dia mundial da mãe-Terra, data aprovada pela assembleia geral da ONU e mantida a cada ano no dia 22 de abril. 
Os desequilíbrios climáticos que vimos assistindo, na forma de ondas de calor mais fortes do que o costumeiro, furacões que atingiram a África oriental e nas chuvas torrenciais que provocam destruições em nossas cidades revela que precisamos mudar o modo de organizar a sociedade, baseado na exploração da natureza. O dia mundial da mãe Terra quer provocar uma maior consciência da urgência do cuidado que devemos ter com a mãe Terra, agredida e ameaçada em seu sistema de vida. 
A ressurreição é a energia de Deus para transformar o universo. Celebremos, então, esta festa e vivamos este caminho pascal no aprofundamento da solidariedade como forma de viver a fé e a intimidade com Deus, a renovação de nossas vidas e a comunhão amorosa com a mãe Terra e todo o universo que nos rodeia. Como cantam as comunidades: “Cristo ressuscitou, o sertão se abriu em flor. Da terra, água surgiu. Era noite e o sol brilhou”.