sábado, 4 de maio de 2019

O que é ecoteologia?

A teologia é exercício de refletir, elaborar, explicitar, utilizar a razão iluminada pela fé. Já a ecoteologia consiste em pensar a fé no horizonte da consciência planetária. Essa se caracteriza como a (re)descoberta de que o mundo se torna um todo, o ser humano  é membro da Terra e deve assumir a responsabilidade pelo futuro do planeta habitável. Trata-se da mesma teologia, com o foco especial.
Considerar o humano como “filho da terra” e sua expressão auto-consciente impacta diretamente na teologia da criação, na antropologia teológica e na escatologia. Propicia novas leituras a respeito dos relatos da criação, superando uma visão antropocêntrica egóica e dominadora. Traz para a reflexão teológica o tema da origem do nosso planeta, em diálogo com as geociências. Recoloca questões vitais, como: qual a participação e o lugar das outras criaturas no projeto salvífico de Deus? Em que consiste a esperança bíblica de “novo céu e a nova terra”? Como reformular a relação entre matéria e espírito, corpo e alma? Além disso, se somos responsáveis pelo futuro da Terra habitável, isso exige desenvolver uma ética cristã planetária, que vá além das subjetividades, integre as causas sociais com as ambientais e inclua a questão da paz e do diálogo inter-religiosa num mundo plural.

Da ecologia à ecoteologia
O termo “ecologia” é muito amplo e abarca ao menos três âmbitos: ciência da interdependência de todos os seres, ética do cuidado com o planeta e paradigma pós-antropocêntrico. A ecologia apresenta várias vertentes: ambiental, mental, social e integral. Ela visa compreender como os seres se relacionam na bioesfera. Ora, a ecologia, na sua multiplicidade de sentidos (enquanto ciência, ética e paradigma), toca a totalidade do sujeito. A cristã/o se vê então desafiado a ampliar sua autocompreensão (quem sou eu, quem é o ser humano neste mundo) e a repensar suas relações com os outros seres abióticos (solo, água, ar, energia do sol) e bióticos (microorganismos, plantas, animais e humanos) na grande, bela e complexa teia da vida no nosso planeta.

A originalidade da ecoteologia radica tanto no método e na linguagem, quanto no conteúdo. Seguindo tendência semelhante de outras ciências, ela anseia romper com a separação rígida entre sujeito e objeto, no ato de conhecer. Assim, “abandona o pensamento analítico, com suas distinções de sujeito e objeto, em favor de uma forma de pensar nova, comunicativa e integradora. Resgata o antigo conceito da razão como órgão perceptor e participativo” (Moltmann, Deus na Criação). Mudam os interesses que guiam o conhecimento. Já não se conhece para dominar, mas “para participar, para integrar-se nas relações recíprocas do vivo”.

O método da ecoteologia combina vários acessos à comunhão da criação: tradição, experiência, ciência, sabedoria, dedução, intuição. Expressa-se por símbolos e não somente conceitos, que configuram o inconsciente e regulam a consciência. Por fim, incorpora a imaginação criativa e prenhe de esperanças no futuro. “Em teologia, a fantasia é inseparável de Deus e de seu Reino. Se expulsamos da teologia as imagens da fantasia, a mataremos” (Moltmann, Deus na Criação).
A ecoteologia dialoga constantemente com as ciências ambientais. Elas são fundamentais para formatar uma moral ecológica cristã bem fundamentada e significativa. Mas não somente isso. Em sintonia com outras correntes de pensamento atual, como a teoria da complexidade, o “pensar ecológico” abre portas inusitadas para vários saberes.
A ecoteologia se insere no movimento de continuidade, novas sínteses, articulação e avanço, que caracteriza a teologia contemporânea. Não alimenta a ilusão de ser a grande chave de interpretação para reconfigurar toda a teologia. Nem tampouco é um pequeno setor, que se ocupa somente de questões ambientais ou da teologia da criação. Consiste em uma perspectiva, um enfoque, que permite reorganizar dados da fé, inferir, dialogar e aprofundar. Ela influencia a produção da teologia ao colocar perguntas decisivas no momento de realizar o “intellectus fidei”, a mediação hermenêutica propriamente teológica, que utiliza a Bíblia e a Tradição eclesial, sensível aos “Sinais dos Tempos”.

Originalidade da ecoteologia
A ecoteologia exerce papel de saber crítico-construtivo, justificador e sapiencial.
- Enquanto saber crítico, denuncia a privatização da fé cristã, que a reduz a um lenitivo para resolver questões pessoais e promover uma paz reduzida ao âmbito da subjetividade. Evidencia como o antropocentrismo unilateral contagiou os cristãos. Mostra a inviabilidade do consumismo, para o futuro da humanidade e do planeta. Resgata elementos fundamentais da doutrina e da espiritualidade cristãs, com o novo olhar do pensar ecológico.
- Como saber justificador, a ecoteologia rebate as críticas do que o cristianismo, desde as origens, foi o grande responsável pela atitude de dominação sobre o planeta. Evidencia que a visão bíblica não é antropocêntrica, mas sim teocêntrica relacional. O ser humano, constituído do “barro da Terra” e do sopro criador de Deus, é chamado a cuidar do jardim da criação (Gn 2) e a administrar os bens da Terra (Gn 1). O cristianismo não funda a ilusão do progresso ilimitado, porque não tem visão linear da história, e sim kairológica e messiânica.
- Por fim, a ecoteologia é sapiencial pois não visa somente o conhecimento, mas também o bem viver e a realização do projeto divino de co-existência do ser humano com Deus, seus semelhantes e a comunidade de Vida do planeta. Peregrinar neste mundo com equilíbrio, bom senso e cultivo das virtudes. Fazer um caminho de santidade.

A ecoteologia explicita no pensar teológico o princípio holístico e holográfico. Ou seja, o todo é maior do que a soma das partes, e em cada parte se condensa algo do todo. Isso é fundamental para recuperar a unidade de teologia, que se fragmentou em uma série de áreas e disciplinas, por vezes desconectadas entre si. Poucas vezes o estudante de teologia é estimulado a estabelecer relações entre aquilo que aprende especificamente na área da bíblia, da história, da dogmática, da moral e da liturgia. O mesmo se diz entre teologia, espiritualidade e pastoral, que parecem casas diferentes, de vizinhos que não se comunicam.
Ora, o pensar ecológico é aquele das relações e da interdependência. E neste sentido, toda e qualquer teologia necessita fazer um processo de conversão para ser mais “eco-lógica”. Ou seja, em vez de levantar paredes e construir cômodos independentes, empenhar-se para edificar a “casa comum”, na qual circulam, de forma interdependente, a espiritualidade, a prática transformadora (práxis) e o conhecimento teológico.

Afinal, o que é ecoteologia?
Em síntese, a ecoteologia é uma corrente teológica, em estreita relação com outras correntes teológicas, que:
(1) incorpora a contribuição das ciências ambientais, das práticas socioambientais e do paradigma ecológico para reler e reelaborar a auto-compreensão da fé e do discurso teológico,
(2) reflete sobre a contribuição da fé cristã para o cuidado com o planeta, a sustentabilidade e o bem viver,
 (3) desenvolve uma espiritualidade conectada com o mundo, unificadora, celebrativa, alegre, esperançada e lúcida,
(4) articula a dimensão social da fé cristã com a emergente consciência planetária, ampliando o horizonte da Teologia da Libertação Latino-americana e incorporando elementos crítico-construtivos de outras teologias contextuais (com a de gênero, étnicas, culturais, inter-religiosas).
(5) convoca os cristãos e outros interlocutores para desenvolverem atitudes pessoais, ações coletivas e processos institucionais para manter a terra habitável e promover a inclusão social dos pobres (teologia prática ou da práxis). Tal postura é compreendida com diversos termos, como: cuidado, salvaguarda, integridade da criação.

A ecoteologia latino-americana necessita de pesquisadores, professores, alunos de graduação e pós-graduação, sem prescindir dos agentes de pastoral. Por isso, reconhecemos a importância de agregar pessoas e grupos nesta causa, fundamental para a humanidade neste momento histórico.

Fonte: Afonso Murad. Ecoteologia: Um mosaico, cap.6. São Paulo: Paulus, 2016.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Páscoa para nós e a mãe Terra

Texto de Marcelo Barros

A chegada da primavera é ocasião de festa para todos os povos.  Muitas comunidades tradicionais, indígenas e africanas, celebram a primavera com ritos para que as pessoas se renovem e readquiram a energia  da juventude. A festa da Páscoa nasceu em tempos imemoriais, em ritos de primavera e renovação da vida. O próprio termo “Páscoa” significa passagem. Não indica somente mudança de estação, mas a decisão de passar de uma vida acomodada e rotineira para um novo modo de viver. É possível que, em seu início, Páscoa fosse o nome de uma dança sagrada, na qual se ensaiavam passos para o futuro e para a vida. 
Nesse ano de 2019, a festa cristã da Páscoa coincide com a celebração da Pessah judaica que começou na sexta-feira 19 e dura uma semana. No judaísmo, o título da festa é “Pezah zeman herutenu” : “a estação da nossa libertação”. O cristianismo fala de “festa da Ressurreição”. A forma e o conteúdo das celebrações variam, mas a raiz é a mesma. A Páscoa judaica tornou-se a comemoração da noite em que o Senhor libertou os hebreus da escravidão. Os cristãos celebram essa memória e acrescentam o memorial da morte e ressurreição de Jesus Cristo.
Foi quando celebrava a Páscoa com sua comunidade que Jesus foi preso e assassinado. Na madrugada do domingo que se seguia ao grande sábado da festa, Jesus deixou-se ver, vivo. O Senhor ressuscitado revela-se com o corpo ferido e chagas abertas nas mãos, nos pés e no peito. Mas, está vivo e resistente. Seus discípulos se alegram em vê-lo vivo e lembram sua palavra: “Filhinhos, no mundo vocês sempre terão aflições. Tenham coragem: eu venci o mundo”(Jo 16, 33).  
Ser discípulo/a de Jesus é testemunhar ao mundo essa energia da ressurreição, atuante nele e por seu Espírito, em todas as pessoas que o aceitam. Essa energia de ressurreição é força de resistência e vigor nas lutas pacificas pela transformação do país e do mundo. No mundo, os poderes da morte continuam agindo. O desamor organiza um mundo escravo do dinheiro e do poder; uma sociedade cruel e sem compaixão. Mas, no coração de muita gente, os gritos de Páscoa ressoam teimosamente.
Celebrar a Páscoa não vai mudar mecanicamente a situação social, política, ou econômica, mas vale como profecia e grito de liberdade para dar força a quem assume as lutas pela transformação do mundo. 
No meio das mais áridas paisagens, as flores resistem. Mesmo a lagarta aparentemente mais asquerosa é chamada a uma mudança radical. Rompe o casulo, ganha asas para voar e se transforma em uma linda borboleta. É símbolo da vocação do ser humano para esse caminho pascal. 
Nesse ano de 2019, no Ocidente, a festa da Páscoa coincide com a celebração do Dia mundial da mãe-Terra, data aprovada pela assembleia geral da ONU e mantida a cada ano no dia 22 de abril. 
Os desequilíbrios climáticos que vimos assistindo, na forma de ondas de calor mais fortes do que o costumeiro, furacões que atingiram a África oriental e nas chuvas torrenciais que provocam destruições em nossas cidades revela que precisamos mudar o modo de organizar a sociedade, baseado na exploração da natureza. O dia mundial da mãe Terra quer provocar uma maior consciência da urgência do cuidado que devemos ter com a mãe Terra, agredida e ameaçada em seu sistema de vida. 
A ressurreição é a energia de Deus para transformar o universo. Celebremos, então, esta festa e vivamos este caminho pascal no aprofundamento da solidariedade como forma de viver a fé e a intimidade com Deus, a renovação de nossas vidas e a comunhão amorosa com a mãe Terra e todo o universo que nos rodeia. Como cantam as comunidades: “Cristo ressuscitou, o sertão se abriu em flor. Da terra, água surgiu. Era noite e o sol brilhou”. 


quinta-feira, 21 de março de 2019

Laudato Si Vídeos

Seguem abaixo os links dos vídeos do Curso EAD sobre a Laudato Si, que realizamos com a Século XXI, em parceria com a FAJE e o Instituto ECOAGENTE. Utilize com a sua comunidade.




Vídeo 3: O Evangelho  da Criação – Antigo Testamento. https://www.youtube.com/watch?v=82YwNrJSQo4&index=3&list=PLgkEjgu5zTfIGQMB1e1NsmdpkZQjnItDL






Vídeo 9: Ações comunitárias a partir da Laudato Si. https://www.youtube.com/watch?v=TaOGxbf5tm0&list=PLgkEjgu5zTfIGQMB1e1NsmdpkZQjnItDL&index=9

sábado, 26 de janeiro de 2019

domingo, 9 de dezembro de 2018

Agressão aos povos indígenas

Nota do Cimi sobre as agressões do Presidente eleito contra os Povos Originários do Brasil

Bolsonaro insiste em equiparar os povos a animais em zoológicos, o que é, por si só, inaceitável. Ao fazer isso, o presidente eleito sinaliza que os povos podem ser caçados e expulsos por aqueles que têm interesse na exploração dos territórios indígenas e que pensam como ele.

O presidente eleito retoma o discurso integracionista, marca dos governos ditatoriais das décadas de 1960 a 1980. A ideologia do integracionismo deu margem para ações de agentes estatais e privados que resultaram no assassinato de ao menos 08 mil indígenas no período citado, como atesta o Relatório da Comissão Nacional da Verdade.

Ao afirmar que as demarcações de terras indígenas no Brasil teriam origem em pressões externas, o presidente eleito falta com a verdade. O fato é que a Constituição Brasileira de 1988, que em seu Artigo 231 reconhece a legitimidade e o direito dos povos indígenas à sua organização social, aos seus usos, costumes, crenças, tradições e às suas terras originárias; é a mesma Lei Maior de nosso país que obriga o Estado brasileiro a promover a demarcação, a proteção e fazer respeitar todos os seus bens nelas existentes.

Além disso, o presidente eleito tem a obrigação de saber, também, que o direito dos povos às suas terras é reconhecido oficialmente desde o Alvará Régio de 1º de abril de 1680, ainda durante o Período Imperial, bem como, desde 1934, em todas as Constituições brasileiras.

Ao insinuar que as demarcações de terras indígenas poderiam dar origem a novos países dentro do Brasil, o presidente eleito ignora o histórico de luta dos povos originários em defesa das fronteiras do nosso país ao longo da história. Demonstra ainda profunda ignorância quanto ao teor da nossa Carta Magna que elenca as terras indígenas como Bens do Estado brasileiro (Artigo 20), registrados como patrimônio da União nos Cartórios de Imóveis locais e na Secretaria de Patrimônio da União, de acordo com o Decreto 1775/96, que regulamenta os procedimentos administrativos correspondentes.

Além de extremamente desrespeitosas para com os povos, as declarações do presidente eleito dão guarida ideológica para a inoperância do Estado em efetivar o direito dos povos esbulhados historicamente de suas terras, bem como, para ações ilegais e criminosas de invasão, loteamento, venda e apossamento de lotes, desmatamento e estabelecimento de unidades de produção no interior de terras indígenas já regularizadas, que caracterizam a mais nova fase de esbulho possessório em curso no Brasil contra os povos.

Por fim, é inequívoco que as palavras do presidente eleito servem de incentivo e referendam as ações que atentam contra a vida dos Povos Indígenas no Brasil, antagônicas, portanto, ao dever do Estado de efetivar as demarcações, a proteção dos territórios e da vida destes povos.

Diante de tantas agressões, o Conselho Indigenista Missionário-Cimi manifesta irrestrita solidariedade aos 305 povos indígenas brasileiros e reafirma o compromisso histórico e inquebrantável de estar junto com os mesmos na defesa de suas vidas e seus projetos de futuro.

Brasília, DF, 01 de dezembro de 2018

Conselho Indigenista Missionário – Cimi