domingo, 8 de março de 2009

Ecologia como ética, ciência e paradigma

A palavra “ecologia” tem muitos sentidos e conotações. Para efeito didático, selecionaram-se aqui três dimensões básicas que se implicam neste conceito. A ecologia é simultaneamente: (1) movimento planetário de natureza ética, (2) ciência e (3) paradigma. Pode-se começar com qualquer um deles, pois estão intimamente relacionados. Cada dimensão oferece possibilidades de diálogo com a fé cristã e o seu saber, a teologia. Partiremos da dimensão ética e prática, considerando que as ações humanas são “ato primeiro”, parafraseando G. Gutiérrez.

A ecologia como ética e prática
Basta abrir jornais e revistas, ouvir noticiários na rádio, ou percorrer os canais de TV em diversos programas, para se dar conta de que a questão ambiental está presente na mídia quase todos os dias. Ela aparece como constatação (“o meio ambiente está cada vez mais fragilizado, devido à ação humana”) e interpelação (“é necessário fazer algo para mudar esta situação”). Aqui reside o caráter ético da ética. Responsabiliza-se o ser humano pela crescente destruição das “comunidades de vida” ou ecossistemas e pede-se dele uma nova postura.
Enquanto ética e prática, a ecologia constitui um amplo movimento, no qual fazem parte cidadãos comuns, ambientalistas, ONGs, grupos religiosos, pesquisadores e empreendedores. O que os reúne é o compromisso de fazer algo para o bem do planeta. O movimento ecológico não tem hierarquia nem mecanismo de controle ideológico. Organiza-se sobretudo como rede em torno a causas comuns, de diferentes amplitudes. Desde a ação local para manter limpo um riacho em determinada cidade, até o protocolo intergovernamental de abrangência mundial, para reverter o aquecimento global. No Brasil, há na Internet muitas redes de informação e mobilização em torno da questão ecológica. Por exemplo, a rede brasileira de educação ambiental (REBEA), e a rede em torno das mudanças climáticas (PROCLIMA). Nelas se divulgam informações, opiniões, estudos. E se convoca à participação em eventos e ações conscientizadoras.
O movimento ecológico emite um juízo de valor sobre a relação do ser humano com o meio ambiente. E o interpela, para que reverta os processos de destruição dos ecossistemas e assuma sua responsabilidade pelo presente e pelo futuro de nosso planeta. Tem, portanto, uma dupla vertente de valoração e de ação.
Uma parte significativa do movimento ecológico desenvolve um olhar crítico sobre as estruturas sócio-político-econômicas que regem a economia de mercado, no mundo globalizado. O atual modelo civilizatório exige cada vez mais energia, explora irresponsavelmente recursos finitos e desestrutura os ecossistemas. Está intimamente conectado com o capitalismo internacional. O mesmo sistema que concentra riqueza, exclui nações e povos, também explora e destrói o meio ambiente. Somente uma mudança radical, fora da economia de mercado, tornaria o nosso planeta viável no presente e no futuro. O próprio conceito de desenvolvimento precisa ser revisto.
Outras correntes defendem a bandeira do desenvolvimento sustentável, dentro do capitalismo. Trata-se de investir na ciência e na técnica, aperfeiçoar e corrigir os mecanismos de produção, consumo e descarte dos produtos, reduzir a poluição e aumentar a ecoeficiência. Apelam para um crescente compromisso dos cidadãos e das empresas, no sentido de minimizar o impacto ambiental. Exigem crescentes avanços na legislação dos países, para coibir abusos e punir crimes ambientais. Postulam uma governança planetária, mediada por protocolos e convenções que estabeleçam metas e compromissos das nações com o planeta.
A ecologia recoloca a questão dos valores, do cuidado com a vida, de forma duradoura. O conceito de sustentabilidade ecológica foi introduzido na década de 80 por Lester Brown. Mais tarde, no Relatório Brundtland (1987) se fala em desenvolvimento sustentável, como satisfazer “as necessidades da atual geração, sem comprometer as das gerações futuras”. Assim, sustentabilidade é o somatório de processos que visam garantir a continuidade da qualidade da vida para as novas gerações de seres humanos, animais, plantas e microorganismos.
O conceito de sustentabilidade sofreu uma evolução no correr dos últimos anos. Originalmente, no movimento ecológico, significava garantir a continuidade das “comunidades de vida” e o equilíbrio dos ecossistemas, no presente e no futuro. Tinha assim uma conotação exclusivamente ambiental. Mas o termo foi apropriado pelos gestores de empresas do mercado global, passando a significar a viabilidade e a continuidade de um negócio ou empreendimento. Também os líderes governamentais passaram a usar este termo, para sinalizar se determinadas políticas tinham perspectiva de continuidade em longo prazo. O Fórum Social Mundial levantou a bandeira da “insustentabilidade” do atual mercado global, especialmente em termos sociais. E propugnou um “novo mundo possível e necessário”, com formas diversas de produção, consumo e inclusão. Deste “conflito de interpretações” nasce o termo atual, que inclui a simultaneidade de aspectos ambientais, econômicos e sociais.

Gestão e educação ambientais
A ecologia não é uma ética abstrata, restrita a conselhos generalizados. Ao contrário, ela se traduz em dois grandes instrumentais práticos: a educação ambiental e a gestão ambiental. A primeira significa a somatória de processos que visam criar uma nova mentalidade e posturas correspondentes, na relação do ser humano com o nosso planeta, enquanto a “casa comum”. Sua abrangência é vasta, pois visa a reeducação da humanidade, em termos de percepção do mundo e dos valores que a orientam. A educação ambiental não veicula somente informações sobre o meio ambiente, mas também apura a sensibilidade, faz refletir sobre o sentido da atuação humana no ecossistema, e suscita ações individuais e coletivas, conferindo poder à comunidade local como protagonista de mudança.
Em vários cantos do mundo, a Educação Ambiental se desenvolveu, na sociedade civil e com estímulo do poder público. Na esfera da sociedade civil brasileira, criam-se ONGs e associações que promovem a consciência ecológica e o compromisso com a sustentabilidade junto às comunidades locais. Vários movimentos sociais incorporam a questão ambiental nas suas lutas. A Campanha da Fraternidade sobre a Água suscita uma série de iniciativas locais de natureza permanente. Escolas introduzem a Educação Ambiental como tema transversal. Empresas patrocinaram iniciativas de educação ambiental. Em âmbito governamental elabora-se a Política Nacional de Educação Ambiental, cujo marco é a lei 9.795/99. O Ministério do Meio Ambiente publica o ProNEA (Programa Nacional de Educação Ambiental), voltado à sociedade, enquanto o Ministério da Educação elabora os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) da Educação Ambiental, destinados às escolas. Prefeituras e governos estaduais empreenderam iniciativas e criaram equipes de trabalho de Educação Ambiental. Atuando com diferentes públicos e interlocutores, a educação ambiental visa formar consciência planetária e preparar cidadãos para uma nova percepção do mundo.
A gestão ambiental compreende processos comunitários e institucionais para viabilizar a sustentabilidade. Envolve vários atores sociais, como grupos religiosos e sociais, consumidores, educadores, comunicadores e o poder público. De forma visível, a gestão ambiental tem sido aplicada de forma crescente nas empresas, em resposta à crescente sensibilidade da população para a questão ecológica e às exigências da legislação ambiental. Adotam-se mecanismos para uso racional de água e energia, reduzem-se a quantidade de resíduos e de sua toxidade, racionaliza-se o processo de produção. Cria-se o mote da “produção mais limpa” (P+L). Desenvolvem-se modelos e ferramentas, e sistemas de gestão ambiental (SGA). Consolida-se o processo de certificação ambiental com a norma ISO 14001, de 1996 e 2004.
A educação ambiental e a gestão ambiental fazem a ecologia penetrar no tecido social, nas mentes das pessoas, nas comunidades locais, e nas práticas de produção e consumo. Podem assumir perspectiva transformadora ou manter o sistema que destrói nosso planeta.

Mística que parte da ética
Há uma busca pelo transcendente no meio do movimento ecológico. Ao descobrir as belas conexões ocultas da teia da vida, as múltiplas relações de interdependência entre os seres vivos e os abióticos, as pessoas se extasiam e percebem que há uma dimensão de gratuidade, de mistério, que vai além do âmbito da ciência. Muitos se esforçam para encontrar um sentido integrador da existência pessoal, coletiva e cósmica. Adotam um estilo de vida mais saudável e responsável, em contraposição à lógica desumanizadora da sociedade de consumo. Alguns se servem de diferentes tradições religiosas, para fazer um processo de evolução espiritual, que inclui a integração das pulsões, o autoconhecimento, o equilíbrio energético e a prática da meditação.
Pode-se dizer que há uma “mística ecológica difusa” neste ambiente. Trata-se de uma perspectiva espiritual, sem vinculação à determinada religião. Tomam-se livremente elementos de tradições religiosas diversas, como as “religiões de raiz” ameríndias e as oriundas da África, o hinduísmo e o budismo, o esoterismo moderno, e até mesmo o cristianismo. Tende-se a um Deus impessoal, pura energia que circula no cosmos (imanente). O divino estaria no TODO (panteísmo).

A ecologia como ciência e paradigma
Enquanto ciência, a ecologia nasceu da biologia. Inicialmente, era compreendida como o estudo dos seres vivos em relação com o seu habitat. Daí evoluiu para a ciência que estuda as condições de existência dos seres vivos e todas as interações possíveis entre estes e o seu meio. Literalmente, ecologia quer dizer o estudo ou discurso racional (logos) sobre a casa-Terra (oikos). Segundo F. Capra, a ecologia é o estudo de como a Casa Terra funciona, ou seja, as relações que interligam todos os moradores da nossa Casa comum. Constituem esta casa os seres abióticos e bióticos. Os primeiros, embora literalmente signifiquem “sem vida”, são fundamentais para os ciclos de matéria e energia no planeta: o solo, a água, o ar e a energia do sol. Os seres bióticos, por sua vez, compreendem os microorganismos (como bactérias, fungos e algas), as plantas e os animais. E entre os animais, estamos nós, os seres humanos.
Cada ciência tem objeto específico, perspectiva, epistemologia, método, jogo lingüístico próprio e comunidade validante. O objeto da ecologia são os ecossistemas: resultado das interações entre o conjunto de seres abióticos e os seres vivos em determinado contexto geográfico. Ecossistemas são redes de relações, das quais faz parte a ocupação humana.
A ecologia não é “um saber sobre a natureza”, e sim a ciência sobre a relação entre todos os seres, que torna possível a continuidade da vida no nosso planeta. No atual contexto planetário, ela pesquisa como o ser humano, ao conviver em determinados biomas, altera os biomas e o ecossistema. E também a busca de reequilíbrio. Por isso, não é a ciência da preservação, mas da gestão racional e sustentável dos recursos naturais, compreendidos no quadro mais amplo das “comunidades de vida”.
A mediação hermenêutica da ecologia se tornou tão importante quanto seu objeto de estudo. Já para Ernest Haeckel (+ 1919), primeiro formulador do conceito, a originalidade da ecologia consiste em superar o estudo isolado dos seres bióticos e abióticos, ao perceber as relações entre eles. Daí nasce a compreensão de “ambiente”, que é muito mais do que fauna e flora.
Ao dar o salto para um “saber de relações”, a ecologia postula uma mudança na forma de exercitar a ciência e na auto-compreensão do ser humano. L. Boff diz que a singularidade do saber ecológico consiste na transversalidade, isto é, “relacionar pelos lados (comunidade ecológica), para a frente (futuro), para trás (passado) e para dentro (complexidade) todas as experiências e todas as formas de compreensão como complementares e úteis no conhecimento do universo, na funcionalidade dentro dele e na solidariedade cósmica”.
Leonardo Boff define paradigma como “uma maneira organizada, sistemática e corrente de nos relacionarmos com nós mesmos e com todo o resto à nossa volta. Trata-se de modelos e padrões de apreciação, de explicação e de ação sobre a realidade circundante”. H. Küng distingue a extensão e a profundidade dos paradigmas, enquanto modelos de compreensão, classificando-os em macroparadigmas, mesoparadigmas e microparadigmas. Ora, a ecologia se transformou em macroparadigma, porque está alterando a autocompreensão do ser humano, que foi gerada na modernidade.
A aventura da modernidade caracteriza-se pelo antropocentrismo, pelo advento do sujeito autônomo (subjetividade) e pela universalização da ciência aplicada. Gesta-se uma visão linear e otimista da história, com a ilusão do “progresso infinito” e do “desenvolvimento ilimitado”. Os ecossistemas e suas comunidades de vida são reduzidos a “recursos naturais”. O mundo parece um reservatório infinito, do qual se pode retirar todo o necessário para produzir, vender e consumir. Ora, o paradigma ecológico questiona esta visão, por três vias.
a) A ecologia corrige e aperfeiçoa o antropocentrismo. O ser humano está no centro, mas junto com os outros seres, em busca de comunhão. É filho(a) da Terra, a própria Terra em sua expressão de consciência, de liberdade e de amor. O destino do ser humano está associado ao destino do cosmos. Superando o antropocentrismo egóico da modernidade, afirma-se que há uma circularidade: o universo é direcionado para o humano como o humano é voltado para o universo donde proveio. Pertencem-se mutuamente.
b) O paradigma ecológico revisa a subjetividade moderna, a partir das categorias “diversidade” e “interdependência”. Um dos princípios da ecoalfabetização, propugnado por F. Capra, é que a biodiversidade assegura a resiliência dos ecossistemas. Quanto mais espécies interagem, maior a resistência e a capacidade de reequilibrar-se. O mesmo vale para a convivência humana. Um ser humano sozinho, concebido de forma individualista, sem relação com os demais, centrado egoicamente em si mesmo, é extremamente frágil. A humanidade evolui e conquista equilíbrios mais complexos quando promove e inclui as diferenças de gerações, de gênero, de etnias e de culturas. A biodiversidade inspira a cultivar a antropodiversidade. O ser humano privado, individualista, competidor estaria condenado ao fracasso, em longo prazo. Os processos evolutivos do nosso planeta mostraram que não foram os mais fortes que sobreviveram, e sim aqueles que conseguiram estabelecer relações fortes de cooperação e interdependência.
c) O paradigma ecológico questiona a forma dominante de elaboração do conhecimento e fornece elementos para uma nova epistemologia. A ciência experimental, que define hoje nossa relação para com o universo, envolve duas dimensões constitutivas: compreender e modificar. Transformou-se numa forma de domínio, pois saber é controlar e objetivar. A ciência moderna negou a legitimidade de outras formas de diálogo com a natureza. Ora, o saber ecológico utiliza a razão instrumental da ciência moderna, mas também valoriza a razão simbólica e cordial (do coração), usa os sentidos corporais e espirituais. Assume que somos razão e afetividade. Assim, conhecer não é somente uma forma de dominar a realidade, mas também de entrar em comunhão com os outros seres. O sujeito pensante é parte do processo da realidade e de seu conhecimento reflexo.

Em síntese, um conceito abrangente de ecologia deve contemplar, no mínimo, estas três dimensões: ética, paradigma e ciência.

(Parte do artigo de Afonso Murad, publicado em Perspectiva Teológica, ano 2008)

35 comentários:

  1. “O próprio conceito de desenvolvimento precisa ser revisto.” Hoje, quando nos deparamos com uma crise econômica mundial, que se reflete, em grande parte, na queda de produção de bens, vemos o presidente do Brasil dizer em alto e bom tom: comprem, gastem, consumam. Se a comunidade mundial for seguir à risca tal receita, onde irá parar nosso planeta? Que desenvolvimento econômico é esse que precisa ser sempre maior do que o do ano anterior, que precisa ser sempre crescente às custas de maior consumo de energia, que por sua vez gera maiores degradações ambientais, às custas de maior devastação dos recursos naturais e às custas de maior poluição do nosso ambiente? Pergunto-me, junto com o falecido cientista Carl Sagan: sobreviveremos à nossa atual infância tecnológica? Sobreviveremos ao nosso arcaico sistema econômico atual?
    Em alguma leitura há alguns anos, uma frase atribuída a Ghandi chamou-me a atenção: o nosso planeta pode nos fornecer tudo aquilo que necessitamos; jamais, porém, aquilo que ambicionamos. Ambicionamos demais acerca dos bens à nossa disposição. Mudanças profundas (paradigmáticas) são necessárias. Não é apenas o conceito de desenvolvimento que precisa ser revisto. A nossa própria forma de vida sobre o planeta terra precisa ser revista. Isso é algo inevitável. Ou mudaremos em virtude de uma decisão voluntária e mundial, ou mudaremos por força das circunstâncias, quando a degradação do planeta nos levar a uma situação de ruptura. (FAJE)

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  2. Cícero Edvam, sj ( Faje)
    Cuidar da "casa comum", "novo mundo possível e necessário", "uma maneira organizada, sistemática e corrente de nos relacionarmos com nós mesmos e com todo o resta à nossa volta..." são termos e intuições presentes no texto que me faz apreciar toda essa reflexão sobre a ECOLOGIA como ÉTICA que nos envolve na RESPONSABILIDADE de cuidar da TEIA DA VIDA e como CIÊNCIA que nos permite enveredar nas condições em que se encontra o ECO e com todas suas interações.
    Sem dúvida é preciso aprofundar o tema para superar o ANALFABETISMO que causa reducionismo e visões distorcidas.

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  3. Regina Reinart (ITESP)11 de março de 2009 15:35

    É interessante pensar na ecologia como uma LOGOTERAPIA AMBIENTAL. Enquanto V. Frankl (com sua experiência na prisão nazista) introduziu a busca de sentido na vida da pessoa, uma busca que se tornou a principal força motivadora no ser humano, eu sugiro uma busca de sentido do oikos. Espero que ela nos leve à restituição da imagem do nosso planeta, evitando relativismo, reducionismo e comportamentalismo. Assim, acontecerá um resgate em todas as áreas da vida (não só da vida humana, mas da flora e da fauna).
    O nascimento de uma metanóia ecológica (grego: meta-além; nóia-mente; transformação do pensamento, mudança de mentalidade) ou em termos da fé, uma conversão (já que estamos neste tempo litúrgico do quaresma) nos levaria a uma nova aprendizagem e a sua aplicação prática. Estas incluem metas como a da legislação e da educação. O nosso arrependimento neste processo metanoial da cura exige uma penitência além do cuidar e da ascese enganadora (que é crescente no sistema do consumismo). Que começaremos ter a coragem da nudez, tirando os clichês e revestindo-nos com a militância-missionária-mística (P. Suess - "Introdução à teologia da missão", SP: Ed. Vozes, 2007).
    Tudo isso diante do horizonte internacional, inspirado não só pelo transcendente (citado no texto), mas pelo "trans-do-ENTE". Abraçar uma palmeira e beijar uma primavera se tornarão ritual matinal. Modelando o barro do dia e cheirar a dama-da-noite será o amém das nossas completas noturnas. Assim, viveríamos na casa comum intimamente interligados com posturas éticas e valores "sustentáveis" (eternos).

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  4. O debate, que se faz cada vez mais premente nos nossos dias, devido à crise atual, que não é só econômica, mas cultural, social, política, ecológica e civilizacional, traz à tona uma pergunta sobre o paradigma desenvolvimentista tecnocientífico que nos tem acompanhado até agora.
    Ligado ao antropocentrismo e ao individualismo ocidental com sua lógica instrumental e de exploração, este modelo nos leva a questionar, necessariamente, a sua sustentablidade a curto e longo prazo. Ele tem trazido desenvolvimento material para uma parte da humanidade, mas com custos cada vez mais altos para o sistema terra e para todos os habitantes do planeta. Entrevistado pelo jornal italiano “Liberazione” no dia 27 de setembro de 2008 Leonardo Boff dizia que:
    “Só uma razão enlouquecida organiza a sociedade na qual, 20% da população mundial detém 80% de toda a riqueza da Terra; as três pessoas mais ricas do mundo possuem ativos superiores à toda riqueza de 48 paises mais pobres onde vivem 600 milhões de pessoas; 257 indivíduos sozinhos acumulam mais riqueza do que 2,8 bilhões de pessoas, o equivalente a 45% da humanidade; no Brasil 5 mil famílias detém 46% da riqueza nacional. A insanidade da razão produtivista e consumista gerou o aquecimento global que trará desequilíbrios já visíveis e a dizimação de milhares de espécies, inclusive a humana.
    Portanto se faz urgente uma antropologia relacional, uma ética da responsabilidade universal e a recuperação da racionalidade cordial.
    Sempre na entrevista supracitada Boff definia a intenção desta ética da responsabilidade citando o livro ‘Principio Responsabilidade’ do filósofo alemão Hans Jonas, que diz: “Age com tanta responsabilidade que tuas ações sejam boas para todas as formas de vida”.
    O desafio está lançado é só topar.

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  5. Omir Oliveira - svd - ITESP - Sao Paulo11 de março de 2009 20:20

    Gostei muito do que o L. Boff diz que a singularidade do saber ecológico consiste na transversalidade, isto é, “relacionar pelos lados (comunidade ecológica), para a frente (futuro), para trás (passado) e para dentro (complexidade) todas as experiências e todas as formas de compreensão como complementares e úteis no conhecimento do universo, na funcionalidade dentro dele e na solidariedade cósmica”. Na verdade, é somente quando nos damos conta de que não somos seres criados para o isolamento, é que veremos a necessidade de nos proteger, protegendo uns aos outros em todos os aspectos.
    Isto me faz lembrar do povo zambiano, com quem trabalho já há vários anos, que diz que “eu sou, porque nós somos” e o vive no seu cotidiano, nas várias experiências do partilhar a vida em todos os aspectos: aconchego, alimento, casa, terra, até mesmo sua relação familiar.
    Não podemos deixar que a “indiferença” da qual nos fala Mercedes Sosa em seu canto: Solo lepido a Dios se alastre ainda mais criando raizes mais profundas. Mas que todos possamos ver que é necessário dar passos e este devem ser iniciados agora.

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  6. Omir Oliveira - svd - ITESP - São Paulo12 de março de 2009 07:24

    Caro Frei Fabiano,
    Mudanças são realmente necessário neste âmbito do ser e do ter para que a sociedade seja ianda mais aberta às coisas que se nos achegam a cada dia. No entanto, mudança de mentalidade, de costumes, de modos de agir, não é fácil e pode levar mais tempo do que alguém possa imaginar. Lembro-me dos tempos em que trabalhava no sertão da Bahia e falávamos sobre as queimadas como forma de limpeza dos campos e roças e o povo nos dizia: "meu avô sempre queimou, meu pai também... porque eu não posso queimar?!"
    De fato, algo de ser feito a nível estrutural para nos ajudar nesta tarefa, iniciando, porém, dos pequenos gestos e experiências que cada pessoa também possa fazer como forma de contribuição.
    Sigamos, pois esta meta de desenvolvimento.

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  7. Daniel Higino - FAJE12 de março de 2009 09:09

    Ao ler este artigo, observo a existência da descoberta da consciência ecológica em nossa sociedade cada dia mais ascendente. Provavelmente as mudanças climáticas e a percepção real do caos que estamos vivendo no ecossistema têm levado a humanidade a refletir sobre estas questões.
    O artigo tem um caráter otimista, aponta para o crescimento de uma rede de forças sociais, científica e organizacional na busca de soluções comuns. Isso leva a crer no aumento da consciência ecológica.
    Chamo a atenção para alguns aspectos do texto:
    - educação ambiental: a educação ambiental é algo primordial na vida das comunidades. Hoje em alguns encontros, já é visível a substituição de copos descartáveis por canecos, é feita a coleta seletiva dos resíduos, em alguns lugares já se conserva o ambiente limpo visando a questão ecológica. Mercados já exigem dos clientes o uso de sacolas de pano, substituindo as sacolas plásticas. Nas romarias católicas, já é comum temas relacionados a defesa das águas e da comunidade de vida como um todo. Enfim, já existem resultados perceptíveis nesse processo de educação ambiental suscitado pelos diferentes agentes.
    - antropologia ecológica: esta virada antropocêntrica é fundamental, já não somos donos da natureza, redescobrimos que fazemos parte dela. Somos convidados/as ao cuidado com a vida. Sabemos do inter-relacionamento existente entre todo o cosmos, e nessa cadeia de relações estamos profundamente inseridos.
    - epistemológica: a linguagem é fundamental para o estabelecimento de novas práticas, assim como temos aperfeiçoado o nosso discurso em relação ao ser humano e Deus em diversos temas, a epistemologia utilizada para tratarmos da ecologia tem crescido muito nos últimos tempos. Exemplo disso, é que já não usamos mais o meio-ambiente, “queremos o ambiente todo” como diz Leonardo Boff. No lugar dessa expressão adotamos “comunidade de vida”. Ao pensar ecologia, não reduzimos mais a compreensão a idéia do verde, mas pensamos já o cosmos e tudo o que nele está relacionado, incluindo o ser humano.
    Por fim, a preocupação não está sobre estes três aspectos que para mim, estão muito bem explorados neste artigo. A questão hoje é quando a ECOLOGIA será preocupação da ECONOMIA. Os analistas já apontam para os problemas ambientais gerados pelo aquecimento global, fruto do atual modelo econômico capitalista. Esse modelo predatório consome os recursos da terra numa velocidade que torna impossível a sua reconstituição natural. Assim como a ECOLOGIA está inter-relacionada no sistema, a economia também está interrelacionada num sistema globalizado que tem suas conseqüências sobre o político e o social. Para mim é preciso a luz desse novo paradigma ecológico, repensar o modelo econômico mundial, se queremos discutir sobre o futuro da humanidade e do cuidado com o planeta.

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  8. "Viver e não ter a vergonha de ser feliz..."Gonzaguinha

    João Carlos (ITESP-SP).

    Cento e quarenta anos nos separam da versão utilizada pela primeira vez de “oikos” e “logos” – ECOLOGIA (1869-2009) – por Erns Haeckl, um dos grandes expoentes do cienticismo positivista e naturalista alemão, que ajudou a popularizar o trabalho do naturalista britânico Charles Darwin. Equívocos... erros... acertos... Ambos em que erraram e acertaram, para explicar diversos fenômenos biológicos e processos evolutivos e de desenvolvimento na ilustração cientifica? E nós? Estamos errando e acertando onde? Como?
    Um novo olhar sobre Ecologia é possível? O Fórum Social Mundial passou, quais as lições assimiladas e realmente compreendidas? Ecologia e Missão é o tema do próximo intereclesial de comunidades de base na cidade de Porto Velho – Do ventre da terra o grito que vem da Amazônia – continuará nos possibilitando Luzes e Sombras?
    Nosso olhar para com a Ecologia, já não é mais um olhar como autoecologia, demoecologia, sinecologia, já não é mais um olhar somente sobre os fatores abióticos e bióticos, mas o advento de uma interação, interdependência, suas implicações paradigmáticas, cientificas e éticas, ou seja, o surgimento da Ecologia na ótica individual/social/planetária, nos impulsionando a tomarmos consciência e termos uma perspectiva voltada para a terra, criação e o cuidado com o nosso LAR. Nosso esforço passa por um pequena mudança semântica, pequena forma interpretativa, OIKOS não como CASA, mas como LAR, convido-os daqui para frente a tal mudança. Casa é a parte física, concreta. Já o LAR é parte essencial, sutil espiritual. Pode vender a casa e levar o lar junto. Planeta é o lar de todos os seres vivos... é o lar de todos os fatores abióticos e bióticos. Haverá um salto quântico e o planeta será outro. Isto nos possibilitaria pensar com F. Capra, "ecologia deve ser o estudo de como o "LAR" funciona, ou seja, as relações que interligam todos os moradores de nosso "lar" comum.

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  9. Carlos Alberto Motta Cunha FAJE13 de março de 2009 16:24

    O significado da palavra “ecologia” lhe define a natureza: 1. como ética, a ecologia interpela o ser humano a uma postura responsável diante de ações – educação e gestão ambientais –, que reverta os processos de destruição dos ecossistemas; 2. como ciência, mediada pela hermenêutica, a ecologia deixa de ser compreendida como “um saber sobre a natureza” para o estudo das relações entre todos os seres – abióticos e bióticos – com o intuito de se perpetuar a vida no planeta, e 3. como paradigma, a ecologia corrige o antropocentrismo moderno, fornece elementos para uma nova epistemologia e lança os fundamentos de um biocentrismo promovedor de relações fortes de cooperação e interdependência para a evolução da vida.
    O artigo do professor Murad é uma boa iniciativa para a “ecoalfabetização”.

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  10. Elismar Alves dos Santos (FAJE- Pós Graduação)


    Reação ao artigo do professor Ir. Afonso Murad: “Ecologia como ética, ciência e paradigma”.

    Primeiramente, confesso que sou um “analfabeto” em matéria de ecologia, como explica Capra em seu artigo sobre sustentabilidade. Ao fazer esta constatação, estou começando a compreender o significado de “alfabetização” proposto por Capra no artigo mencionado logo acima. Tecer uma reação sobre o artigo: “Ecologia como ética, ciência e paradigma”, remete-me a trabalhar internamente, antes de qualquer coisa, a dimensão da necessidade de ser “alfabetizado” nesta dupla relação:ecologia e ética.
    Ao ler o artigo do professor Murad, me fez recordar uma pequena reflexão do filósofo alemão Immanuel Kant, presente na Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785/1995), obra que versa acerca da moral e da ética em favor da preservação da dignidade da pessoa humana. Num dos imperativos categóricos, Kant diz assim: “Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei Universal”. (F.M.C, p.59).
    Kant atesta, no entanto, que a máxima subjetiva (individual) precisa se tornar lei universal (objetiva). Essa é a única fórmula que Kant, após ter apresentado na Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785/1995), a mantém, ainda, na Crítica da Razão Prática (1788/2003), uma outra obra que trata também da moral. Este imperativo evidencia a pura “forma” da chamada Lei Moral, isto é, universalidade sem qualquer exceção diante do comportamento humano defendido pela imposição do imperativo, o qual é sustentado pela filosofia do dever em sintonia com a razão prática.
    Sem adentrar em detalhes no sistema kantiano, ver a ecologia como ética, ciência e paradigma, permite, até certo ponto, dizer que para superar este “analfabetismo” sobre a temática da ecologia, que parece ser uma realidade quase coletiva, podemos arriscar a dizer que a educação ambiental, como explica Murad, tem como finalidade criar uma nova consciência sobre a ecologia. Esta consciência que deve ser criada em relação ao comportamento humano com a ecologia, deveria ser uma política universal, isto é, que abarcasse a todos os povos e civilizações.
    A exemplo do imperativo categórico kantiano que enfatiza a universalização da ação humana, como Lei Universal, portanto, para todos. Criar uma nova consciência sobre a ecologia, nos leva a pensar no outro. O outro não tem um valor relativo, mas é um valor em si mesmo, porque é pessoa, portanto, realidade sagrada. A ação individual, no caso, de não respeitar, por exemplo, a ecologia, afeta não só a ecologia como tal , mas e, sobretudo,a pessoa humana. Pelo pouco que li sobre ecologia, penso que não é um erro dizer que um olhar responsável pela questão ambiental, implica um olhar em direção da pessoa humana. Ecologia e pessoa, são dois conceitos inseparáveis.
    Atrelado à educação ambiental, o artigo situa o lugar da gestão ambiental. Na gestão ambiental, como explica Murad, corresponde em primeiro lugar à necessidade de se criar “processos comunitários e institucionais para viabilizar a sustentabilidade”. Nesse sentido, pode-se falar da idéia de criar um trabalho coletivo, isto é, um pensar comunitário e institucional, para mais uma vez, criar consciência sobre a ação de todos nós no planeta em que vivemos que se chama terra.
    Parece-nos que para alcançar um novo conhecimento acerca do papel do homem no Eco Sistema, faz-se necessário efetuar a criação de novas epistemologias. Lembrando, porém, que este caminho é possível por meio da educação ambiental e, consequentemente, com a gestão ambiental. Colocando esta reflexão no sistema moral kantiano ficaria assim: criar em mim uma nova consciência do significado da palavra ecologia, para que esta nova consciência possa abarcar a pessoa do outro; ou mais ainda, o planeta terra como lar de todos nós. Nota-se que parte da atitude individual tendo como meta atingir o outro, e este outro, é a pessoa humana. Daí a necessidade de superar este analfabetismo ecológico, como disse, não parece ser somente meu, mas de uma grande parte da população.

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  11. Regina Reinart, ITESP14 de março de 2009 10:13

    Caro Elismar, a sua citação,“Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei Universal”, do Kant me faz lembrar de uma frase da Edith Stein (1891-1942): "Man muss von Stunde zu Stunde so leben, dass man jederzeit wiederkehren kann." (Devemos viver de hora para hora de uma maneira que podemos voltar cada instante). Penso, se pudessemos realmente viver esta frase ao pé da letra, a nossa atitude ecologica mudaria dramaticamente pelo melhor. Para citar mais uma mulher, Ir. Dorothy Stang, lutadora incansável pelo ambiente: "There comes a time, we must reestablish a tender and just relationship with Mother Earth, recognizing that it is she who sustains us. Only in such a way, will we be able to live a truly Christian life." (Virá um tempo que devemos re-estabelecer uma carinhosa e justa relação com Mãe Terra, reconhecendo que é ela que nos sustenta. Só assim poderemos viver uma verdadeira vida cristã.) Acho forte estas duas frases, vindo de duas mulheres em busca.....

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  12. Antonio F. Rodrigues14 de março de 2009 14:02

    Esse texto mostra e dá uma visão ampla do conceito de "ecologia", que devemos ter. Não podemos ficar no conceito ultrapassado ensinado nas salas de aula. Precisamos ir além, pensar um movimento ecológico globalizado, onde tenha a participação desde o mais humilde cidadão atá ao mais destacado cientista ou intelectual. Agora é evidente, com o atual sistema que só pensa na concentração de riquezas, exclui nações e povos, também destrói o meio ambiente, torna-se impossível. Precisamos pensar em uma mudança radical, fora da economia de mercado. Com certeza, isso nos daria a garantia de um planeta viável no presente e no futuro.
    A sustentabilidade é algo importante que daria garantia da continuidade da qualidade de vida para novas gerações de seres humanos, animais, plantas e microorganismos.O Fórum Social Mundial levantou a bandeira da "insustentabilidade" do atual mercado global e propugnou um "novo mundo possível e necessário". Com isso nasce o termo atual, que inclui a simultaneidade de aspectos ambientais, econômicos e sociais.
    A ecologia não se resume em um saber sobre a natureza, mas é a ciência das relações entre todos os seres, tornando possível a continuidade da vida em nosso planeta. Quando o ser humano amar a Deus sobre todas as coisas e a seu próximo como a si mesmo, o problema da ecologia estará resolvido.

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  13. Sem dúvida, nosso planeta geme como em dores de parto, a Terra grita por "SOCORRO", e espera resposta.
    Resposta esta que tem urgência, pois através do sinais dos tempos, todos somos interpelados a fazer a releitura da Criação,(Gn 1,28). Em sua Obra Criadora, Deus nos coloca como administradores e não destruidores e confia a nós a continuidade da mesma.
    Segundo o texto, sem uma nova ordem mundial, onde os valores pautados pela Ética levem a mudança de mentalidade, nosso habitat natural estará ameaçado.
    Para tanto, uma ação conjunta e dinamizadora será resposta efetiva e afetiva, para chegarmos a Terra Prometida, ou melhor, a "Terra sem Males".
    Acredito que, só sera possível, se a Justiça e o Direito se derem as mãos, surgirá então na aurora do novo dia a Fraternidade
    , onde enfim se realizará a Solidariedade, e despontará a Paz.
    Penso em terminar com uma frase de um dos grandes homens que o mundo conheceu: "Ou nos unimos quanto irmãos, ou pereceremos todos como loucos"(Martin Lther King).

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  14. Olavio Dotto - FAJE
    Chamo atenção para o aspecto da postura ética para a sustentabilidade ecológica.
    Não há como lutarmos pela sustentabilidade ecológica sem sermos éticos, sem esta inspiração benéfica para nossas idéias, projetos e ações.
    As pessoas, organizações, sociedade buscando princípios que orientem seu comportamento no mundo.
    Há quem acredite que seguindo regras, cumprindo leis, será ético. Masn em sempre o legal é ético. Diante de leis injustas ou de regras descabidas, ser ético é justamente contrariar a lei, propor novas regras.
    Por isso, ser ético é transformador. Diante de uma ação ética, nada fica do mesmo jeito. Tudo se reacomoda.
    Penso que seremos uma sociedade sustentável quando houver uma massa crítica suficientemente competente em realizar este contato com a própria consciência e traduzí-lo em ações com foco no bem comum. Pessoas que tenham interiorizado de forma ética as novas condições globais de vida em seu pensamento, em seus valores e em seu comportamento.

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  15. Alex Adriano - FAJE15 de março de 2009 08:45

    O texto, de fato, responde a questões emergentes ligadas ao problema da ecologia e abre perspectivas interessantes de diálogo que extrapola uma epistemologia voltada para a ciência de cunho meramente experimental. Vários elementos me chamaram a atenção, os quais gostaria de enumerá-los. Primeiro: a necessidade de se repensar o conceito de desenvolvimento. Fora, é claro, da economia de mercado que visa um desenvolvimento a qualquer custo, não se importando com as conseqüências alarmantes, nem com o bem estar das pessoas em harmonia com o meio em que vivem, garantindo-lhes vida digna, preservando a cultura, a história e o modo de vida. Segundo: o conceito de ética. Não uma ética abstrata, mas voltada a uma práxis, ou seja, traduzida em ações bem concretas de afirmação e de preservação da vida no planeta. Ressalto, ainda, os dois grandes instrumentais práticos sugeridos pelo autor: a educação ambiental e a gestão ambiental. Fora disso, não passaremos de conceitos genéricos, ou quem sabe, de formulações casuísticas daquilo que se pode ou não pode, sem alargarmos o horizonte da reflexão em vista de um comprometimento, sobretudo, no que se refere a medidas preventivas. Terceiro: o aceno que é dado à dimensão espiritual como parte deste grande complexo que é a vida em sua articulação. Não resta dúvida que sem o cultivo de uma mística profunda, aflorada em sensibilidade e consciência-responsabilidade, perder-nos-emos em ações isoladas de caráter individualista, sem imbricações com o todo – oikos – que podemos traduzir em casa comum.

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  16. Lúcio Bento - FAJE16 de março de 2009 09:40

    Frente à constatação da atual questão ambiental – de que “o meio ambiente está cada vez mais fragilizado, devido à ação humana” –, urge que o ser humano reveja sua posição e responsabilidade em relação a Casa-Terra. Em uma abordagem religiosa, talvez seja tempo de reconsiderarmos nossa compreensão do mandato divino: o qual nos autoriza e orienta a multiplicarmo-nos, submeter e dominar a Criação (Gn 1, 28). Nesse sentido, o paradigma ecológico pode orientar nossa reflexão na busca de uma consciência adequada e saudável da condição humana nas relações de interdependências com os demais seres e com o habitat natural. Trata-se de uma questão de importância vital e fundamental para a sustentabilidade da vida no presente e, sobretudo, no futuro. Sendo uma questão vital, torna-se também “área de missão” frente à ação evangelizadora da Igreja, somando forças e compondo a rede de ações do movimento ecológico.

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  17. Raimundo Donato - FAJE17 de março de 2009 08:50

    O texto é obejtivo e realista em ressaltar que a Ecologia virou o foco das atenções do homem "pós-moderno". Depois de muito destruir agora busca reconstruir o que se perdeu ao longo dos séculos. O paradigma ecológico surge como o grande norteador dessa empreitada na busca de garantir para as futuras gerações uma qualidade de vida que seja dignamente humana. O autor foi muito feliz ao redigir o texto,pois buscou ver ecologia em um âmbito globalizante e ético.A consciência ecológica ajuda-nos a descobrir que o Planeta, nossa “casa comum”, necessita de "care" ou seja, cuidado. E acredito que o cristão de amanhã será um “Místico Ecológico”, ou não terá uma credibilidade em falar sobre Deus. A nossa meta cristã é o Reino de Deus, e este passa necessariamente pela dimensão ecologica, pois Deus é o Deus da vida.E quem não valoriza a vida dificilmente fará a experiência autêntica de Deus em sua vida.

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  18. SOBRE A ECOLOGIA E A COMUNHÃO

    Lendo o texto “Fé Cristã e Ecologia: o diálogo necessário”, meus pensamentos remeteram aos tantos desafios da atualidade. A ecologia como macroparadigma foi-me o ponto mais interessante. A pós-modernidade tão estudada em variados aspectos, pontos sócio-políticos, psicológicos, pedagógicos, (etc...) parece que cada um destes estão presentes de forma implícita ou explícita na Ecologia. Esta ciência que está num nível de transversalidade tão forte, utilizando da interdisciplinaridade e transdisciplinaridade faz de cada um de nós, estudiosos de tantas áreas, à primeira vista, perdidos. Muitas frentes de cientistas parecem ter muitos receios de quem envolve-se no movimento ecológico, e os meios de comunicação de massa parecem ainda estar sendo tendenciosos, não noticiando com integridade ( ou omitindo tantos fatos) os acontecidos marcados fortemente pelo interesse do capital acima de tudo, da “insustentabilidade do mercado”. Falta diálogo real, sentimos a ausência de comunhão.
    O paradigma das relações humanas e ainda, relações com o meio circundante está num momento crítico. Muitas crianças e adolescentes cada vez mais estão afundados num dia-a-dia “computadorizado” e “despersonalizado”. A ecologia é espaço de encontro, propiciando comunhão, estudos que propiciam correções e aperfeiçoamentos no antropocentrismo, ou melhor, o “heliocentrismo humano” que carregamos em nossa cultura. A família, a juventude, os idosos estão na necessidade de comunhão, de encontrarem-se, de sentirem-se mais comunidade global, pertencentes ao meio ambiente, criação de Deus. A encarnação de Jesus Cristo nos mergulha na mensagem forte do movimento do Reino de Deus, no qual o ser humano não é o centro, está em comunhão, na busca do “novos céus e nova terra”.
    A cultura hodierna carrega muita mutabilidade, muitas transformações crônicas na cronologia “selvagem” da produção de tecnologias, meios de consumo e também elementos supérfluos. A eleição e a percepção da ecologia como paradigma maior, necessário e urgente ajudam o ser humano a “sair de si”, a transformar-se numa forte relação na qual não há dominadores e dominados, muitos menos exploradores e explorados. A fé cristã, no movimento “escatológico” para que “sejamos um” (Jo 17, 21) carrega a mística ecológica, a responsabilidade sócio-ambiental. As tecnologias, tantos e tantos produtos de consumo são meios os quais não são tão necessários quanto estarmos em comunhão com o nosso meio, o planeta, o ecossistema que nos envolve.
    Raoni Urbano Neto

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  19. renato pimenta ISTA3 de agosto de 2009 08:07

    Em breve vou colocar meu comentário.

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  20. Elias Amorim de Oliveira FAJE30 de setembro de 2009 13:12

    A ecologia ética leva o ser humano a responsabilizar-se pela destruição dos ecossistemas e a assumir ações praticas de cuidado e luta em prol da sustentabilidade das “comunidades de vida”. Como ciência, a ecologia se origina da Biologia e pesquisa sobre a interrelação e interdependência de todos os seres que fazem parte da nossa casa comum. O paradigma ecológico questiona o pensamento contemporâneo da linearidade e o progresso desenvolvimentista infinito e sem limite. Põe no “centro” todos os seres em associação, destacando a riqueza da diversidade na interdependência geradora de equilíbrio e avanço no processo evolutivo humano. Argúi a construção gnosiológica, apresentando elementos para uma nova epistemologia que unem razão e afeto.

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  21. Fantástica a ideia de Ecologia como Paradigma. Ela nos ajuda a rever conceitos e valores e oferece questionamentos às diversas áreas do saber, entre eles a Teologia.
    Levar a sério a Ecologia significa levar a sério a vida e suas conseqüências. Significa ser verdadeiramente “ecumênico”, ou seja, em diálogo com tudo e com todos, na cooperação da construção de um outro mundo possível. Pelo paradigma da ecologia, podemos levar questionamentos e propostas à política, à economia, à filosofia, à teologia e a outros ramos do saber. Uma vivência coerente da causa ecológica nos leva a um espiritualidade de harmonia com a natureza e o cosmos, dos quais o filme “Avatar” nos apresenta interessantes exemplos. A causa ecológica é profundamente mística e libertadora, é questionadora e profética, leva-nos a uma verdadeira conversão.

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  22. Fantástica a ideia de Ecologia como Paradigma. Ela nos ajuda a rever conceitos e valores e oferece questionamentos às diversas áreas do saber, entre eles a Teologia.
    Levar a sério a Ecologia significa levar a sério a vida e suas conseqüências. Significa ser verdadeiramente “ecumênico”, ou seja, em diálogo com tudo e com todos, na cooperação da construção de um outro mundo possível. Pelo paradigma da ecologia, podemos levar questionamentos e propostas à política, à economia, à filosofia, à teologia e a outros ramos do saber. Uma vivência coerente da causa ecológica nos leva a um espiritualidade de harmonia com a natureza e o cosmos, dos quais o filme “Avatar” nos apresenta interessantes exemplos. A causa ecológica é profundamente mística e libertadora, é questionadora e profética, leva-nos a uma verdadeira conversão.

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  23. JORGE WILIAM SILVA - FAJE PÓS-GRADUAÇÃO 20102 de junho de 2010 22:53

    A imensidão e a beleza do planeta terra, fez os homens acreditarem que Deus realizou uma festa cósmica de boas vindas com comida e bebida farta que jamais se extinguiriam. Assim, tomados pelo ímpeto da liberdade mal assumida (falta mesmo de educação) acharam melhor ir comendo o bolo (leia-se Planeta Terra) pelas beiradas até que o Anfitrião chegasse. Então num belo dia, entre a angustia de ver o lindo Planeta Azul se descompondo de sua beleza, que parecia infinita, e gemendo pelas dores que lhe causavam os convivas, alguém teve um “clic”, e percebeu um simples detalhe: O planeta é vivo! E agora, está agonizante! Surgiram muitos com consciência crítica, aqueles interessados em restaurar o “bolo”, começaram a falar com os outros, se reuniram em grupos para terem mais forças no intuito de, apressadamente, consertar o estrago. Então, alguém descobriu que o planeta não era somente um presente para os homens, mas de todos os convidados para a grande festa; e descobrem mais, as gerações futuras já foram convidadas para a mesma festa e vão chegando aos poucos. A situação continua insustentável assim mesmo, conserta-se de um lado desmorona-se o outro. Agora se percebe que as mudanças têm de ser estruturais, tudo está comprometido e somente uma ação de conjunto uma “gestão racional e sustentável dos recursos naturais”, que envolva todos os convidados, pode evitar a grande catástrofe que está para ser deflagrada. Oxalá nós homens tivéssemos uma educação voltada para estes problemas desde o seio materno, instruindo-nos a reconhecer o planeta, como cita o nosso professor, como nossa “casa comum”, onde pudéssemos ter consciência verdadeira a nos sentirmos comprometidos e absolutamente responsáveis pelos ecossistemas que o compõem. Mas antes tarde do que nunca, tranquilizou-me um pouco saber o quanto entidades governamentais e também a sociedade civil em diversos setores estão engajadas a desenvolver uma “consciência ecológica” e também na busca de um compromisso dos diversos setores institucionais com o intuito de salvar o planeta das práticas destruidoras do meio-ambiente e dos diversos ecossistemas que o compõe. Ao ler este artigo, gostei muito da deixa “possibilidades de diálogo com a fé cristã e seu saber, a teologia”, que indica caminhos para uma reflexão “ecoteológica”. Interessante quando Murad faz referência à busca pelo transcendente em meio a esse movimento pela saúde do planeta Terra. E quando fala sobre a grande “teia da vida” e suas conexões ocultas que ligam “os seres vivos e abióticos” envoltos por uma névoa de mistério que ultrapassa limites da ciência. Seu artigo é certamente um convite ao engajamento consciente, e um apelo a sair do comodismo e do indiferentismo para então se envolver concretamente no movimento pela vida do nosso planeta. Aprendi muito, muito obrigado!
    JORGEWS

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  24. Elismar Alves dos Santos9 de junho de 2010 21:08

    Livro: A Ecologia do Desenvolvimento Humano: Experimentos Naturais e Planejados. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996 (Urie Bronfenbrenner, 272 páginas).
    Elismar A. dos Santos (FAJE: Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Pós-graduação).







    Com a finalidade de compreender como as crianças se desenvolve em seu ambiente natural, o autor defende que é necessário observar seus comportamentos enquanto elas estão interagindo com os adultos, no decorrer de períodos e de tempo prolongados. A Ecologia do Desenvolvimento Humano oferece um esquema importante para a construção de uma Psicologia do Desenvolvimento nova e Ecologicamente válida.
    A abordagem ecológica do Desenvolvimento evidencia os aspectos saudáveis do desenvolvimento, os estudos realizados em ambientes naturais e a análise da participação da pessoa no maior número possível de ambientes e em contato com diferentes pessoas. Bronfenbrenner define o desenvolvimento como “o conjunto de processos através dos quais as particularidades da pessoa e do ambiente interagem para produzir constância e mudança nas características da pessoa no curso de sua vida” (p,191).
    O livro é divido em quatro partes: Orientação Ecológica, onde o autor descreve alguns conceitos básicos com os quais pretende trabalhar; Elementos do Ambiente, em que se discute o valor das relações interpessoais subjacente a vivência em diversos sistemas em sintonia com o desempenho de papéis desempenhados pelas pessoas; A Análise dos Ambientes em que se trata dos temas da relação de ambientes naturais, como o ambiente das pesquisas, juntamente com a visão ecológica que acentua o papel das instituições (creches, escolas, etc) na formação da consciência através da relação com o meio ambiente.
    Em relação às definições abordadas pelo autor, algumas sobressaem: Microssistema, Messosistema, Exossistema e Macrossistema. Vejamos os seus respectivos significados. Microssistema é definido como o ambiente onde a pessoa em desenvolvimento se encontra e estabelece relações. Neste sistema deve sobressair, primeiramente, a reciprocidade, equilíbrio de poder e afeto. Por outro lado, o Mesossistema é definido como um conjunto de microssistemas. A criança vive o processo de transição em que passa por vários microssistemas em que a leva a participar em diversos níveis, como a família compreendida como realidade “nuclear e extensa”; a escola, a vizinhança, etc. Nesse processo de socialização ocorre o processo de desenvolvimento da criança. O autor chama este processo de “transição ecológica”.
    O Exossistema, por sua vez, é apreendido por ele como um ambiente onde a pessoa em desenvolvimento não se encontra presente, mas cujas relações que neles existem afetam seu desenvolvimento. E, por fim, o Macrossistema que abarca os sistemas de valores e crenças que permeiam a existência das diversas culturas, e que são vivenciados e assimilados ao longo do processo de desenvolvimento. Esses quatro conceitos apresentam coerência interna e uma dinamicidade no processo de interação da criança com o meio ambiente e na experiência familiar.
    Por fim, trata-se de um livro que está sendo ainda divulgado pela Psicologia em que apresenta alguns pontos interessantes da pesquisa em Psicologia do Desenvolvimento evidenciando o significado das relações pessoa-ambiente, em diversos contextos sócio-culturais. Reflete, por outro, lado o papel da formação ecológica na consciência da criança, sobretudo, na sua relação com os ambientes que a circundam, como a família e a escola.

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  25. Elismar Alves dos Santos9 de junho de 2010 21:15

    Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia
    Departamento de Teologia- pós graduação
    Elismar Alves dos Santos

    Correntes éticas referentes à Ecologia
    O tema da ética no âmbito da ecologia emerge ao menos quatro modelos de antropocentrismo: Antropocentrismo Clássico; Antropocentrismo Aberto; Biocentrismo Radical e Biocentrismo Relacional. O primeiro coloca o ser humano ao centro como critério de juízo. Todo o ecossistema e os outros seres estão em função do humano. Como ser de linguagem, de cultura e racionalidade, torna-se Sujeito Ético e, a cultura torna-se objeto da Ética. A revolução kantiana, partindo do campo científico e filosófico, envolve também o espaço ético. Kant é verdadeiramente um marco na história da ética: por um lado, representa o ponto de chagada de um movimento que remonta ao fim da Idade Média, segundo o qual a ética consiste num equilíbrio entre lei e liberdade; por outro, ele é o lugar de referência da reflexão ética posterior.
    Ao sublinhar que o ser humano encontra-se num grau de superioridade em relação aos seres irracionais, Kant na “Fundamentação da Metafísica dos Costumes” (1785) defende que os seres cuja existência depende, não da vontade do homem, mas da natureza, possui um valor relativo, e por isso são meramente coisas. Já os seres racionais são pessoas, porque sua natureza os distingue com fim em si mesmo. Pode-se afirmar que esse modelo de Antropocentrismo Clássico, contribuiu para a exploração dos ecossistemas por serem tomados como meramente “coisa” ao sublinhar que o ser humano encontra-se acima dos seres irracionais.
    Por outro lado, o Antropocentrismo Aberto coloca o ser humano ao centro, mas com os outros seres. São herdeiros do processo da evolução, numa ótica utilitarista. O filósofo A. Schopenhauer em “O Mundo como Vontade e Representação” (1818) explica que a compaixão estende-se não somente na relação entre os seres humanos, mas também com a natureza (ecologia com sua Bio-Diversidade, na linguagem de hoje).
    O Biocentrismo Radical, por sua vez, diz que o ser humano é somente um na “Teia da Vida”. Nota-se que iguala o homem aos seres que compõe a bio-diversidade. Por último, o Biocentrismo Ralacional, não iguala os animais aos seres humanos, mas evidencia quais os seres vivos são mais importantes para o equilíbrio do Eco-Sistema. Emerge daí a visão relacional dos seres vivos, inclusive ecológico com o ser humano. O significado de Interdependência junto ao conceito de alteridade dá margem para se pensar na dimensão da relação da alteridade entre ser humano e Biodiversidade. A ecologia com o passar do tempo poderá corrigir esses quatro modelos de antropocentrismo tendo como pressuposto o significado da Holística, porque o todo é mais do que a soma das partes.

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  26. Elismar Alves dos Santos9 de junho de 2010 21:18

    Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia
    Pós-graduação em Teologia
    Elismar Alves dos Santos


    Reflexão Teológica sobre o aquecimento global

    Em nosso dia-dia acompanhamos através dos meios de comunicação, diversas catástrofes traduzidas por meio das mudanças climáticas que estão ocorrendo em ritimo acelerado no cenário mundial. Essas catástrofes são conseqüências do aquecimento global. Devido ao aumento da emissão de gases poluentes, sobretudo, derivados da queima de combustíveis fósseis (gasolina, diesel, etc), na atmosfera. Por outro lado, há o desmatamento e a queima de florestas e matas que colaboram com esse processo. Nota-se assim, as conseqüências do aquecimento global através do protesto da própria natureza. Tem-se acompanhado, por exemplo, o aumento do nível dos oceanos, em decorrência do derretimento das geleiras, que aumentam o nível das águas dos oceanos e, como conseqüência, tem-se assistido a submersão de algumas cidades litorâneas. Constata-se também o crescimento e o surgimento de desertos. O considerável aumento de ciclones e furacões. Os dois últimos já fazem parte do cenário brasileiro assistido por todos há dois anos atrás em Santa Catarina.
    Ao tratar da questão teológica e o aquecimento global, somos remetidos, primeiramente, a colocar em pauta um dado antropológico-biblico: o homem é indiscutivelmente um ser de relação. Ora, sendo relação o mesmo precisa ser tomado como realidade capaz de viver “uma conversão ecológica pela qual o ser humano deixe de se autocompreender como indivíduo separado, para se ver como parte de um conjunto de inter-relações naturais e sociais”. (J. R. Junges. Ecologia e criação. São Paulo: Loyola, 2001, p.8). A consciência do homem como ser social evidencia que toda ação traduzida em forma de comportamento, só é possível porque há o dado relacional em sua gênese humana.
    O comportamento somente ocorre devido à intencionalidade. Sem a intencionalidade não existe ação. Por isso, o problema ecológico quando tomado pela ótica bíblica, pode ser analisado pelo dado da consciência, pois sem criar uma cultura da consciência, talvez nada possa ser feito no que toca aos efeitos catastróficos da ação do homem na natureza. A Gaudium et Spes faz lembrar sabiamente que Deus não criou o homem como realidade monádica, mas, ao contrário: “o homem é, com efeito, por sua natureza intima um ser social” (n.12). Com essa característica peculiar de ser social, ou seja, relacional, o homem passa a ser convidado a repensar como vem sendo sua relação com a natureza, pois Deus não o criou só, mas ao seu lado, como relata o livro do Gênesis, criou também a natureza com suas particularidades. Analisado por esse prisma, a ação transformadora deve ocorrer por meio da consciência. A consciência faz lembrar que existe em nossa estrutura psíquica uma lei. Essa lei não deve ser tomada simplesmente como um imperativo calcado no dever, mas proporciona ao homem a capacidade de refletir e pensar sobre as conseqüências do seu agir, de suas intenções, de sua intencionalidade que decorrerá em forma de comportamento.
    Por fim, sabiamente a Gaudium et Spes recorda aos homens e mulheres de boa vontade: “na intimidade da consciência, o homem descobre uma lei: faze isto, evita aquilo. A consciência é o núcleo secretíssimo e o sacrário do homem onde ele está sozinho com Deus e onde ressoa sua voz” (n.16).

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  27. Elismar Alves dos Santos9 de junho de 2010 21:20

    Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia
    Pós-graduação em Teologia
    Elismar Alves dos Santos


    Reflexão Teológica sobre o aquecimento global

    Em nosso dia-dia acompanhamos através dos meios de comunicação, diversas catástrofes traduzidas por meio das mudanças climáticas que estão ocorrendo em ritimo acelerado no cenário mundial. Essas catástrofes são conseqüências do aquecimento global. Devido ao aumento da emissão de gases poluentes, sobretudo, derivados da queima de combustíveis fósseis (gasolina, diesel, etc), na atmosfera. Por outro lado, há o desmatamento e a queima de florestas e matas que colaboram com esse processo. Nota-se assim, as conseqüências do aquecimento global através do protesto da própria natureza. Tem-se acompanhado, por exemplo, o aumento do nível dos oceanos, em decorrência do derretimento das geleiras, que aumentam o nível das águas dos oceanos e, como conseqüência, tem-se assistido a submersão de algumas cidades litorâneas. Constata-se também o crescimento e o surgimento de desertos. O considerável aumento de ciclones e furacões. Os dois últimos já fazem parte do cenário brasileiro assistido por todos há dois anos atrás em Santa Catarina.
    Ao tratar da questão teológica e o aquecimento global, somos remetidos, primeiramente, a colocar em pauta um dado antropológico-biblico: o homem é indiscutivelmente um ser de relação. Ora, sendo relação o mesmo precisa ser tomado como realidade capaz de viver “uma conversão ecológica pela qual o ser humano deixe de se autocompreender como indivíduo separado, para se ver como parte de um conjunto de inter-relações naturais e sociais”. (J. R. Junges. Ecologia e criação. São Paulo: Loyola, 2001, p.8). A consciência do homem como ser social evidencia que toda ação traduzida em forma de comportamento, só é possível porque há o dado relacional em sua gênese humana.
    O comportamento somente ocorre devido à intencionalidade. Sem a intencionalidade não existe ação. Por isso, o problema ecológico quando tomado pela ótica bíblica, pode ser analisado pelo dado da consciência, pois sem criar uma cultura da consciência, talvez nada possa ser feito no que toca aos efeitos catastróficos da ação do homem na natureza. A Gaudium et Spes faz lembrar sabiamente que Deus não criou o homem como realidade monádica, mas, ao contrário: “o homem é, com efeito, por sua natureza intima um ser social” (n.12). Com essa característica peculiar de ser social, ou seja, relacional, o homem passa a ser convidado a repensar como vem sendo sua relação com a natureza, pois Deus não o criou só, mas ao seu lado, como relata o livro do Gênesis, criou também a natureza com suas particularidades. Analisado por esse prisma, a ação transformadora deve ocorrer por meio da consciência. A consciência faz lembrar que existe em nossa estrutura psíquica uma lei. Essa lei não deve ser tomada simplesmente como um imperativo calcado no dever, mas proporciona ao homem a capacidade de refletir e pensar sobre as conseqüências do seu agir, de suas intenções, de sua intencionalidade que decorrerá em forma de comportamento.
    Por fim, sabiamente a Gaudium et Spes recorda aos homens e mulheres de boa vontade: “na intimidade da consciência, o homem descobre uma lei: faze isto, evita aquilo. A consciência é o núcleo secretíssimo e o sacrário do homem onde ele está sozinho com Deus e onde ressoa sua voz” (n.16).

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  28. Elismar Alves dos Santos9 de junho de 2010 21:25

    FAJE - Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia
    Pós-Graduação Teologia
    Aluno: Elismar Alves dos Santos


    Um pouco do que se entende por “ecologia”

    Segundo o Dicionário Aurélio, há dois campos semânticos em que o termo “ecologia”ganha expressão e vulto. Tal palavra é entendida como: 1) a parte da biologia que estuda as relações entre os seres vivos e o meio ou ambiente em que vivem bem como as suas recíprocas influencias; 2) o ramo das ciências humanas que estuda a estrutura e o desenvolvimento das comunidades humanas em suas relações com o meio ambiente e sua conseqüente adaptação e assim como novos aspectos que os processos tecnológicos ou os sistemas de organização social possam acarretar para as condições de vida do homem.
    Em 1895 pela primeira vez, aparecia tal termo no título de um tratado de giobotânica geral, de Eugen Warming. Considera-se esse tratado o primeiro de uma teoria para a ecologia e, por isso, cabe a Warming o título de pai da ecologia. Por outro lado, em 1935, um avanço conceitual permitiu uma notável ampliação das pesquisas em ecologia. Foi nessa época que o ecólogo A. G Tansley crio o conceito de ecossistema, considerando-o um complexo dos fatores físicos que formam o que chamamos meio ambiente do bioma, os fatores do habitat no sentido mais amplo.
    Ecologia pode ser também compreendida como “casa”, lugar de habitação de todos os seres vivos, em especial a pessoa humana. “O termo ecologia é formado das palavras gregas oikos (casa) e logos (conhecimento). Portanto, ecologia é a ciência da nossa ‘casa comum’: o meio ambiente, a natureza, a terra”. (JUNGES J.R. Ecologia e criação. São Paulo: Loyola, 2001, p.9).

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  29. Elismar Alves dos Santos9 de junho de 2010 21:47

    Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia
    Pós-graduação em Teologia
    Disciplina: Estudos de Teologia Fundamental: Teologia da Libertação e Ecoteologia
    Professor: Dr. Afonso Murad
    Aluno: Elismar Alves dos Santos
    Data: 19/03/2010.

    Filosofia e Teologia em Ignácio Ellacuría como proposta de libertação
    Resumo
    Ignacio Ellacuría reflete sobre a necessidade de sistematizar uma filosofia a partir da realidade da América Latina. Desejamos num primeiro momento apresentar os principais traços de sua filosofia voltados para a realidade libertadora, tendo como referencial teórico o artigo: “Funcion Libertadora de la Filosofia” de 1985. Num segundo momento serão apresentados os principais pontos de dois escritos do autor: “El objeto de la filosofia” de 1992 e “Filosofia de la realidad histórica”de 1990. Notar-se-á que os três escritos convergem para o propósito de contribuir na formação da consciência dos cristãos da América Latina. Esse propósito foi e continua sendo defendido pela Teologia da Libertação da qual Ellacuría contribuiu incansavelmente com suas reflexões filosóficas e teológicas.

    O caráter libertador da Filosofia
    O teólogo e filósofo Ignácio Ellacuría desenvolve uma reflexão atual sobre o papel da filosofia nas relações humanas em vista da promoção da dignidade do ser humano. Trata-se de uma filosofia concebida como busca pela verdade em sintonia com a liberdade. Lembrando, porém, que os escritos de Ignácio Ellacuría, tanto na área da teologia como da filosofia refletem acerca da situação da opressão e da desigualdade social na América Latina. O autor lembra que na América Latina existe uma Teologia própria conhecida como Teologia da Libertação. Porém, carece, ainda, de uma Filosofia com o “rosto”da América Latina, enquanto originada da sua própria realidade histórica. Uma razão pela não existência ainda de um método filosófico de origem Latino Americano, na avaliação de alguns estudiosos, pode ser este: “devido ser um continente nacionalista, indigenista, autóctonas, etc”. (Ellacuría, 1985, p. 46).
    A proposta filosófica de Ellacuría tem como meta abordar a filosofia na condição de meio que proporciona a liberdade através da experiência da cultura e das estruturas sociais, dentro da realidade da pessoa humana, onde ela precisa realizar-se em espírito de liberdade. A liberdade é tema importante na filosofia desse pensador. Assim, ele explica que a filosofia desde os pré-socráticos, procura refletir sobre a liberdade. Porém, não se trata de uma liberdade abstrata, mas sim, prática na história do ser humano.
    (Continuação do artigo em seguida)

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  30. Elismar Alves dos Santos9 de junho de 2010 21:50

    Tendo subjacente o artigo de 1985, “Funcion Liberadora de la Filosofia,” I. Ellacuría parte de uma constatação: a América Latina por ter vivido um contexto de opressão não foi possível criar uma tradição filosófica. Ele considera a filosofia responsável por conceder “uma capacidade crítica ”ao ser humano diante das ideologias. Ellacuría recorda que a filosofia é uma poderosa “arma” no combate a opressão social, pois leva o indivíduo a criar consciência do seu papel enquanto agente de transformação. Assim, recorda que a filosofia se distingue historicamente, por sua criticidade.
    A filosofia busca, entretanto, os fundamentos racionais que o indivíduo necessita para posicionar-se diante de seu contexto histórico. Com isso, “a função libertadora da filosofia é exigida então, por sua própria condição de criticidade e fundamentação e por sua vez, obriga ao fazer filosófico buscar uma fundamentação crítica”. (Ellacuría,1985, p. 51). A reflexão filosófica de Ellacuría visa chamar a atenção para a importância da emancipação do sujeito. O teólogo lembra que na década de oitenta, dever-se-ia pensar nos processos sócio-econômicos que a sociedade estava passando, de opressão pelos regimes totalitários, como pela gritante desigualdade social nos países classificados como “terceiro mundo”. Nessa perspectiva ele pontua que se deveria falar da “autodeterminação pessoal do sujeito livre e consciente”. (Ellacuría, 1985, p.53).
    A filosofia deve ser utilizada como referencial teórico de enfrentamento diante da realidade de desigualdade social, pois ilumina, interpreta e transforma a pessoa humana. Está subjacente ao seu pensamento, a capacidade da filosofia enquanto meio que proporciona a práxis. Em outras palavras: “O homem tem uma forma peculiar de enfrentar-se com a realidade que é a habilidade intelectiva, que independentemente de sua origem, natureza e condicionamentos, estruturais, têm sua peculiaridade que deve ser estudada não só para conhecer o que é o homem, mas para anteriormente poder fazer um uso crítico de sua própria inteligência.” (Ellacuría,1985, p.54).
    Entretanto, adverte que esta possibilidade da filosofia em proporcionar a liberdade através da inteligência serve tanto para libertar o homem como também para oprimi-lo. Se a filosofia faz parte da condição existencial do ser humano, então ela contempla a realidade social do indivíduo. Lembrando que “homem, sociedade e história são três realidades vinculadas entre si, porém cada uma tem sua peculiaridade”. (Ellacuría, 1985, p.54). A temática da história na filosofia encontra espaço fecundo em suas reflexões, pois ele propõe uma filosofia da realidade histórica, como ponto nefrálgico de seu método filosófico. Esse assunto será evidenciado no segundo artigo do autor, em relação ao objeto da filosofia. A filosofia é uma busca transcendental, porém vinculada às realidades transcendentes, na historicidade do ser humano.

    (Continuação do artigo)

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  31. Elismar Alves dos Santos9 de junho de 2010 21:53

    A filosofia contempla a historicidade da pessoa. Com isso, ele faz lembrar que a razão tem um caráter concreto, ou seja, a intenção presente na razão é tomada como figura concreta em seu modo formal de estar lançada ao real. Retomando o que foi dito sobre o papel da práxis, pode-se dizer que a práxis não é um conceito psicológico, social ou ético, mas um conceito estrutural. Esse conceito estrutural da práxis encontra-se presente na realidade histórica do indivíduo. “A filosofia como momento teórico desempenha sua capacidade libertadora e ela mesma se potencia como tal ao recuperar consciente e reflexivamente seu papel como momento teórico adequado da práxis histórica”. (Ellacuría, 1985, p.56). A práxis contempla o caráter estrutural-social e a libertação precisa ter também “um caráter estrutural-social”.
    Considerando que a filosofia para Ellacuría precisa encontrar-se encarnada na realidade social e histórica, surge a possibilidade de se pensar uma filosofia “cristã”, como proposta nova em favor do ser humano. A filosofia cristã teria como meta instalar seu caráter filosófico autônomo no lugar privilegiado da verdade da história, em sintonia com a experiência da Cruz, pois a Cruz remete-nos a esperança libertadora. A filosofia cristã, nessa perspectiva, identifica-se com a história de crucificação do povo e com toda forma de dominação e exploração, sobretudo, na realidade da América Latina.
    Ignácio Ellacuría no artigo “Funcion Liberadora de la Filosofia” de 1985 lembra do contexto no qual emergiu a Teologia da Libertação. A mesma surgiu devido a um dilema na área da política, da realidade social e religiosa, em que a opressão e a desigualdade social contribuíram para se pensar numa nova hermenêutica teológica. Ele defende a criação de um estilo filosófico Latino-Americano, partindo da experiência histórica dos diversos rostos crucificados pela desigualdade social, tendo por meio da filosofia um suporte crítico e libertador. Essa seria a função da “Filosofia da Libertação”. Vejamos agora como ele compreende o objeto da filosofia, tendo como referencial dois escritos de sua autoria: “El objeto de la filosofia” de 1992 e “ Filosofia de la realidad história”de 1990.
    (Continuação do artigo sobre I. Ellacuría)

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  32. Elismar Alves dos Santos9 de junho de 2010 21:54

    A filosofia contempla a historicidade da pessoa. Com isso, ele faz lembrar que a razão tem um caráter concreto, ou seja, a intenção presente na razão é tomada como figura concreta em seu modo formal de estar lançada ao real. Retomando o que foi dito sobre o papel da práxis, pode-se dizer que a práxis não é um conceito psicológico, social ou ético, mas um conceito estrutural. Esse conceito estrutural da práxis encontra-se presente na realidade histórica do indivíduo. “A filosofia como momento teórico desempenha sua capacidade libertadora e ela mesma se potencia como tal ao recuperar consciente e reflexivamente seu papel como momento teórico adequado da práxis histórica”. (Ellacuría, 1985, p.56). A práxis contempla o caráter estrutural-social e a libertação precisa ter também “um caráter estrutural-social”.
    Considerando que a filosofia para Ellacuría precisa encontrar-se encarnada na realidade social e histórica, surge a possibilidade de se pensar uma filosofia “cristã”, como proposta nova em favor do ser humano. A filosofia cristã teria como meta instalar seu caráter filosófico autônomo no lugar privilegiado da verdade da história, em sintonia com a experiência da Cruz, pois a Cruz remete-nos a esperança libertadora. A filosofia cristã, nessa perspectiva, identifica-se com a história de crucificação do povo e com toda forma de dominação e exploração, sobretudo, na realidade da América Latina.
    Ignácio Ellacuría no artigo “Funcion Liberadora de la Filosofia” de 1985 lembra do contexto no qual emergiu a Teologia da Libertação. A mesma surgiu devido a um dilema na área da política, da realidade social e religiosa, em que a opressão e a desigualdade social contribuíram para se pensar numa nova hermenêutica teológica. Ele defende a criação de um estilo filosófico Latino-Americano, partindo da experiência histórica dos diversos rostos crucificados pela desigualdade social, tendo por meio da filosofia um suporte crítico e libertador. Essa seria a função da “Filosofia da Libertação”. Vejamos agora como ele compreende o objeto da filosofia, tendo como referencial dois escritos de sua autoria: “El objeto de la filosofia” de 1992 e “ Filosofia de la realidad história”de 1990.
    (Continuação do artigo sobre I. Ellacuría)

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  33. Elismar Alves dos Santos9 de junho de 2010 21:59

    O objeto da Filosofia
    A realidade social está metafisicamente entrelaçada na história. Para tanto, ele fala da inter-relação entre natureza e história. Sobre esse ponto escreve: “não se pode tratar da natureza sem referir-se a história, nem do homem sem referir-se a sociedade e reciprocamente”.(Ellacuría, 1992, p.64). Porém, abarcando a totalidade como objeto, a filosofia depara-se com uma questão intrigante: “como se configuram a peculiaridade e a totalidade em cada uma das coisas?” (Ellacuría,1992, p.64). Por isso, diz que o objeto da filosofia deve ser tomado como um campo vasto, porque a filosofia deve configurar-se a todas as realidades existentes. Essa seria segundo Ellacuría o primeiro objeto formal da filosofia: sub ratione totius.
    Mesmo falando em objeto da filosofia no “sub ratione totius”, Hegel e Marx salientaram a importância da unidade do objeto filosófico. Mas, Ellacuría pontua precisamente que o “objeto” da filosofia precisa contemplar a realidade como um todo sistemático, pois a realidade é um todo dialético. Se em Hegel a busca pelo objeto da filosofia diz respeito ao “sentido do ser”, em Marx configura-se pelos antagonismos sociais. Ellacuría diz que não se trata de fazer uma separação entre Hegel e Marx, mas colocar em discussão a questão do “objeto” da filosofia para ambos. Comumente afirmar-se que para Hegel tal objeto é o “ser”, porém para Marx são as realidades sociais.
    A questão consiste em observar que Ellacuría serve-se da filosofia de Hegel e das considerações de Marx para pensar e estruturar o seu próprio “objeto”da filosofia. Ele lembra que tanto para Hegel como para Marx, a realidade é concebida como algo dinâmico e processual. Assim, após expor a matização do objeto da filosofia em Hegel e Marx, Ellacuría explica que segundo Xavier Zubiri, “ o objeto da filosofia é o todo da realidade dinamicamente considerado”. (Ellacuría, 1992, p.71).
    Para Zubiri não há distinção entre “metafísica geral”e “metafísica especial”. A filosofia nessa perspectiva contempla o todo da realidade. Então, o objeto de estudo desse pensador, segundo Ellacuría é a “realidade intramundana”. Ele explica que Hegel desenvolve uma filosofia idealista; Marx oferece um método cientifico – “materialista” e, Xavier Zubiri discorre em sua filosofia acerca de um método filosófico – “realista”. São abordagens diferentes com o mesmo objetivo: compreender a realidade. Entretanto, Ellacuría adverte que “a realidade é sempre dinâmica e seu tipo de dinamismo corresponde ao tipo de realidade”. (Ellacuría,1992, p.76). Em outras palavras, não há realidade estática. A realidade é originalmente dinâmica.

    (Continuação do artigo sobre I. Ellacuría)

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  34. Elismar Alves dos Santos9 de junho de 2010 22:02

    Ellacuría postula o objeto da filosofia como realidade histórica. Vejamos em que consiste essa realidade histórica. Primeiramente trata-se de uma realidade assumida no reino social através da liberdade: é a realidade mostrando suas virtudes e possibilidades. A realidade histórica engloba todos os tipos de realidades, isto é, não há realidade histórica sem realidade material; sem realidade biológica; sem realidade pessoal e; sem realidade social. “Porque ‘realidade histórica’ se entende a totalidade da realidade tal como se dá unitariamente em sua forma qualitativa, mais alta e essa forma específica de realidade que é a história, onde nos dá não somente a forma mais alta de realidade, mas o campo aberto das máximas possibilidades do real”. (Ellacuría,1992, p.84).
    Por isso, Ellacuría concebe como objeto da filosofia a “realidade histórica”. Mas não se trata de conceber a realidade histórica desvinculada da pessoa humana. Nessa proporção, não há simplesmente história, mas realidade histórica. Na obra “Filosofia de la realidad histórica” de 1990, encontra-se uma explicação sobre a relação entre história e natureza material: “a história surge da natureza material e permanece indissoluvelmente enraizada a ela”. (Ellacuría,1990, p.48). Os fatores materiais são decisivos na configuração dos grupos humanos e em seu modo de viver. A materialidade da história concebida como espaço e tempo justifica-se na existência da pessoa. O espaço e o tempo remetem-se a vida.
    Assim, espaço e tempo são materializados nas realidades intramundanas. Observa-se que o autor toma o Cosmo como unidade constitutiva da realidade: “cada coisa é ‘coisa-de’ um todo, dos cosmos; constitui um construto, um sistema unitário, que é o cosmos”. (Ellacuría, 1990, p.49). A realidade remete-se a algo que se manifesta em si mesmo tendo no dinamismo seu ponto central. Logo, o objeto da filosofia nesse contexto é a realidade histórica. A realidade desvela-se na realidade complexa, coletiva e sucessiva “da humanidade, e indica que a realidade histórica pode ser o objeto da filosofia”. (Ellacuría, 1992, p.473).
    (Continuação do artigo sobre I. Ellacuría)

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  35. Elismar Alves dos Santos9 de junho de 2010 22:04

    Pessoa e realidade histórica no sistema filosófico do autor não se contrapõem, mas se completam. A realidade histórica é matizada como realidade aberta, construída pelo ser humano. A pessoa confere a realidade histórica essa abertura existencial. “O objeto da filosofia deve ser primeiramente a realidade intramundana, a qual não significa necessariamente que Deus há de ser tão somente objeto de fé”. (Elacuría, 1992, p. 86). Deus para ele está presente na realidade histórica de seu povo. O conceito de razão teórica e prática na filosofia de Kant, segundo Ellacuría, ilustra o dilema da presença de Deus na história do ser humano, não concebido através da razão teórica a qual é tomada como especulativa, mas Deus age por meio da razão prática. Entretanto, uma razão não exclui a outra, mas a razão prática evidencia a maneira operada por Deus de estar presente no comportamento do ser humano, tendo nos atos morais Deus como o Sumo Bem.
    Para finalizar, Ellacuría ao problematizar a questão do objeto da filosofia faz lembrar primeiramente que não existem duas histórias: um dos países desenvolvidos e outra dos países do terceiro mundo. Porém, há uma única história, que ele entende como realidade aberta e dinâmica perpassada pelas experiências sociais do ser humano.


    Conclusão
    Evidenciou-se num primeiro momento que Ignácio Ellacuría recorre a Hegel, Marx e Xavier Zubiri para mostrar os principais traços filosóficos desses pensadores tendo como intenção explicitar como discorreram em seus sistemas filosóficos a busca pelo objeto da filosofia. Ellacuría elabora o seu próprio itinerário acerca do objeto da filosofia. A realidade é tomada como algo que se faz mediante a dinamicidade. Com isso, o teólogo e filósofo espanhol apresenta como objeto da filosofia a “realidade histórica”. A realidade histórica é tomada como realidade aberta. E essa abertura somente se dá devido ao fato da pessoa ser um ente em processo de transformação e ao mesmo tempo dado à experiência da liberdade. A abertura na realidade histórica é tomada por Ellacuría como experiência “intramundana” e, Deus caminha com a pessoa nessa vivência “intramundana”. Os três escritos de Ellacuría analisados permitem dizer que sua proposta filosófica-teológica contribuiu para a fundamentação da formação da consciência cristã defendida pela Teologia da Libertação, no contexto da América Latina. Assim, essa frase de Paulo Freire resume o propósito do autor espanhol e, comumente, da Teologia da Libertação: “Ninguém é sujeito da autonomia de ninguém”.
    Bibliografia
    ELLACURÍA, Ignacio. Filosofia de la realidade historica. Madrid: UCA Editores, 1990.
    ELLACURÍA, Ignacio. Funcion Liberadora de la Filosofia. El Salvador: ECA – Estúdios Centroamericanos de la Universidad José Simeón Cañas, 1985.
    ELLACURÍA, Ignacio. Para una Filosofia desde América Latina. Bogotá: Pontifícia Universidad Javeriana, 1992.
    FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática Educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2008.

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