sábado, 29 de outubro de 2011

Rede de Esgoto nos municípios brasileiros

Pesquisa divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostra que quase metade (44,8%) dos municípios brasileiros não tinha rede coletora de esgoto em 2008.

As diferenças regionais, porém, são grandes: enquanto no Estado de São Paulo apenas Itapura estava nessa situação, na região Norte as cidades sem o serviço chegavam a 96,5% do total.
Os dados consideram apenas a existência ou não da rede coletora, e não a abrangência de cobertura dentro de cada município --ou seja, mesmo que vários bairros de uma cidade não sejam atendidos pelo serviço, ela pode figurar na lista se a coleta for feita em parte de seu território.
Além disso, a pesquisa mostra que a coleta não é acompanhada na mesma proporção pelo tratamento do esgoto. Do total coletado, apenas 68,8% passa por estações de tratamento antes de ser descartado.
Nesse quesito, mais uma vez, é possível notar grandes diferenças regionais. Em São Paulo, 78,4% dos municípios processam ao menos parte do esgoto gerado. No Maranhão, esse percentual cai para apenas 1,4%.
Em parte dos municípios do país que não têm rede de esgoto, porém, é possível encontrar soluções alternativas, como a fossa séptica (dispositivo do tipo câmara que é isolado do solo e faz a filtragem do dejeto). É o caso, por exemplo, de vários municípios gaúchos.
Além disso, os dados mostram uma melhora em relação à pesquisa anterior, de 2000. Naquele ano, a parcela de municípios sem rede coletora de esgoto era de 47,8%.
(Fonte: Folha de São Paulo)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Dia mundial sem carro

O presidente da ONG Rodas da Paz, Uirá Felipe Lourenço, concedeu entrevista à IHU On-Line, que divulgamos aqui.


Em que contexto surgiu o Dia Mundial sem Carro e de que forma este momento pode contribuir para uma sociedade mais sustentável?
Uirá: A data surgiu na França em 1998, espalhou-se pela Europa e chegou ao Brasil. Atualmente muitas cidades brasileiras promovem ações. A data é uma oportunidade de repensar o modelo de cidade que temos, com excessiva frota motorizada em circulação.

Que problemas o Dia Mundial sem Carro ajuda a minimizar?
Uirá – A proposta do Dia Mundial sem Carro alerta para os diversos malefícios que a excessiva dependência do automóvel nas cidades causa: acidentes e mortes no trânsito, congestionamento, poluição, barulho, estresse e mau uso do espaço público.

De que maneira esta data pode ajudar a sociedade a repensar a cidade?
Uirá – As várias ações propostas servem para que a população reflita sobre o transporte nas cidades. O Desafio Intermodal, por exemplo, testa as diversas modalidades de transporte quanto a tempo, custo, poluição e segurança. As bicicletas costumam se destacar e chegar em primeiro lugar. Mesmo em Brasília, com o contexto altamente favorável ao automóvel, nas três edições do Desafio Intermodal realizadas, a bicicleta se destacou em todos os quesitos, inclusive tempo.
Outra ação interessante, geralmente realizada na semana em que se comemora o Dia Mundial sem Carro, é a Vaga Viva. No espaço tradicionalmente ocupado por carros (vagas de estacionamento) promovem-se atividades de lazer, esportivas e culturais. Por exemplo, deixam-se livros e poltronas para que a pessoa possa se sentar e ler. Um espaço morto, em que o motorista deixa o carro o dia inteiro parado (área sem utilidade pública), ganha vida e utilidade para a população.

Por que a cidade “tem um contexto urbano que não favorece pedestres e ciclistas”?
Uirá – As cidades brasileiras, de forma geral, ainda permanecem com a lógica atrasada de incentivar o transporte individual motorizado. Túneis, viadutos e ampliações de vias ainda fazem parte dos planos e das obras governamentais. Cidades modernas já não fazem isso há décadas. A ordem do dia nas cidades efetivamente modernas é investir em transporte coletivo e no transporte não motorizado. Assim, tais cidades investem em corredores exclusivos de ônibus, em integração, em moderação de tráfego (por exemplo, reduz-se o limite de velocidade na via para permitir melhor convivência entre motorizados e não motorizados), em ciclovias, ciclofaixas e calçadas contínuas e de boa qualidade.
Como exemplo da política atrasada, na nossa capital federal, o estacionamento de carros em área pública é gratuito, um grande incentivo a se permanecer com a alta dependência do carro. Ao mesmo tempo, inexistem vagas públicas para bicicletas. Existem projetos para aumentar ainda mais as vagas para carros, inclusive com estacionamentos subterrâneos, e para ampliar mais vias. E o transporte coletivo continua sofrível: caro, desintegrado, superlotado, sem pontualidade e nem informações básicas aos usuários sobre linhas e horários.

De que forma a data pode auxiliar as autoridades a repensar as capitais e o meio ambiente?
Uirá – Por meio de seminários e de várias ações, as autoridades e técnicos que lidam com o tema mobilidade urbana também são convidados a repensar sobre o modelo ultrapasso de cidade em termos de mobilidade.

O senhor acredita que o grande problema não está no carro isoladamente, mas na “cultura do carro”, que se instalou na sociedade contemporânea? Por quê?
Uirá – O carro em si não é culpado. Países ricos e com alta motorização, como Holanda e Dinamarca, conseguem ser exemplo em mobilidade urbana. Lá, a população tem carro, mas não o utiliza de forma abusiva, no dia a dia. As pessoas pedalam e caminham muito, além de contar com um ótimo sistema de transporte coletivo. Aqui a cultura é de se priorizar o carro, incentivar o uso. Até mesmo pelo status que um carro novo e potente ainda representa.

Quais seriam as estratégias para diminuir o número cada vez maior de carros nas ruas?
Uirá – Oferecer boas condições para os usuários do transporte coletivo, com um sistema eficiente e integrado, e dar segurança e conforto aos que optam por pedalar e caminhar. Num momento posterior, pensar em restrições ao automóvel, como taxar ou proibir a circulação de carros na área central.

Que implicações ambientais, sociais, de saúde e urbanos o número de carros cada vez maior nas ruas pode trazer?
Uirá – Mortes e feridos no trânsito (o Brasil tem níveis epidêmicos, são cerca de 40 mil mortes por ano no trânsito), desigualdade no uso do espaço urbano (a minoria usuária de carro conta com a maior parte do espaço na via), isolamento social (o carro isola as pessoas no seu interior), fator adicional de obesidade, congestionamentos e perda de produtividade, estresse e barulho.

O Dia Mundial sem Carro é um momento que alerta para a mudança dos hábitos diários da população. Mas, de que maneira a data pode significar uma real mudança cotidiana, e não apenas em alguns dias do ano?
Uirá – A ideia é refletir sobre a cidade e demonstrar boas iniciativas. É fundamental que a partir da reflexão promovida na data se apliquem ações em favor da mobilidade saudável.

Que ações o governo pode tomar para oferecer outras saídas viáveis de locomoção e bem estar à população, para que estas dependam menos dos carros para se locomover?
Uirá – Medidas simples como reduzir o limite de velocidade nas vias, criar calçadas contínuas e caminhos seguros aos ciclistas. Criar vagas de estacionamento seguros e confortáveis para usuários de bicicleta.

Como vê a relação carros/ciclistas no trânsito das cidades?
Uirá – Infelizmente, os motoristas não têm boa formação e, muitas vezes, desconhecem ou ignoram os dispositivos do código de trânsito que protegem ciclistas e pedestres. Por exemplo, a distância lateral de um metro e meio ao passar por um ciclista e a preferência que o ciclista tem na via. E por parte do poder público faltam campanhas educativas e de fiscalização que garantam a segurança do ciclista. Mesmo assim, é possível pedalar nas cidades, tomando-se as devidas precauções e escolhendo-se os caminhos mais tranquilos.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

8 Rs da sustentabilidade

O Instituto Akatu foi além dos 3 Rs que resumem o consumo consciente: Reduzir, Reutilizar, Reciclar criando mais cinco. O Ecologia e Fé compartilha os 8 Rs publicados no site do Akatu:
1 - Refletir: Lembre-se de que qualquer ato de consumo causa impactos do consumo no planeta. Procure potencializar os impactos positivos e minimizar os negativos.
2- Reduzir: Exagere no carinho e no amor, mas evite desperdícios de produtos, serviços, água e energia.
3- Reutilizar: Use até o fim, não compre novo por impulso. Invente, inove, use de outra maneira. Talvez vire brinquedo, talvez um enfeite, talvez um adereço.
4 - Reciclar: Mais de 800 mil famílias vivem da reciclagem hoje no Brasil, quer fazer o bem? Separe em casa o lixo sujo do limpo. Só descarte na coleta comum o sujo. Entregue o limpo na reciclagem ou para o catador.
5 - Respeitar: A si mesmo, o seu trabalho, as pessoas e o meio ambiente. As palavras mágicas sempre funcionam: “por favor” e “obrigado”.
6 - Reparar: Quebrou? Conserte. Brigou? Peça desculpas e também desculpe.
7 - Responsabilizar-se: Por você, pelos impactos bons e ruins de seus atos, pelas pessoas, por sua cidade.
8 - Repassar: As informações que você tiver e que ajudam na prática do consumo consciente. Retuite, reenvie e-mails.
O Ecologia e Fé está cumprindo o oitavo "erre", repassando estas dicas.
Faça o mesmo.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Educação socioambiental em tempo de crise planetária

Entrevista do Instituto Humanitas (IHU) com Genebaldo Dias

Vivemos realmente uma crise ambiental em nível mundial?
Genebaldo – A palavra “crise” não se aplica aí. O que temos são reajustamentos ecossistêmicos. Reações esperadas para a neutralização de perturbações. Muitas destas, impostas por nós. Os sinais estão na mídia todos os dias. Ninguém precisa ser PhDeus para perceber.

– Qual a situação do Brasil com relação às mudanças climáticas? Os órgãos públicos nacionais estão fazendo o que lhes cabe para evitar que elas se aprofundem?
Genebaldo – O Brasil está muito bem representado pela Comissão Interministerial. Temos cientistas renomados ali, e as iniciativas brasileiras são inovadoras. Mas ocorre uma defasagem entre o que é necessário fazer e a percepção dos tomadores de decisão nas políticas públicas. Ainda reina uma grande ignorância sobre o assunto. Os temas de segurança climática, segurança alimentar e vulnerabilidade social, por exemplo, todos ligados às mudanças climáticas globais, são ainda desconhecidos pela classe política. Dessa forma, a América do Sul é apresentada como uma das mais vulneráveis! A partir daí, todos os ecossistemas estão sob pressão.

– Em suas obras, o senhor defende o papel da educação ambiental. Como é possível fomentar uma educação que leve em conta a sensibilização e a promoção de uma cultura socioambiental?
Genebaldo – Não vai ser por meio da coleta seletiva, da economia de água e da energia elétrica que sensibilizaremos as pessoas. Vivemos em um mundo pós-ambiental. Há uma nova insensibilidade. Evolou-se o sonho romântico do retorno à natureza intocada. Agora, estamos em outra etapa. Se não demonstrarmos por meio de práticas as consequências das nossas ações, e se não incluirmos agendas positivas nisso, não vejo saída diferente do sofrimento (que é também uma opção evolucionária!).

– Algumas leituras de mundo religiosas levaram a um certo antropomorfismo. O que é necessário para desconstruir essa ideia, em termos ecológicos?
Genebaldo – Quando nos disseram que vivemos confinados na superfície de uma pequena esfera flutuando no espaço escuro e gelado do universo? Os mistérios da vida, o fascínio de estar vivo, de partilhar precisam ser despertos. Uma educação que sensibilize, amplie a percepção para isso.

– O senhor também fala de “socioambientalismo”. Como conciliar as urgências da natureza com as urgências das populações em risco?
Genebaldo – Nos padrões vigentes não há conciliação possível. A equação não fecha: população crescente, consumo crescente, imediatismo, materialismo, ganância, desperdício, exclusão social, corrupção e educação e informação alienadoras formam um conjunto cruel de insustentabilidades. O desafio é que não temos mais tempo. Perdemos o momento da virada. Agora temos que arcar com as consequências. Isso significa dizer mitigação e adaptação. Foi o que fizemos. O que existe de tentativas – como gestão ambiental e seus ramos – foram e são sistematicamente burlados. Há sempre um grupo de parlamentares financiados por corporações para aprovar leis ambientais mais brandas, por exemplo. O desafio, então, é emblematicamente evolucionário.

– Dentro da perspectiva do “Tempo para a Criação”, como podemos entender o valor da Criação a partir de uma perspectiva mais ampla, ou, como o senhor sugere, “ecoperceptiva”?
Genebaldo – As corporações reconhecem o valor da Criação com a mesma intensidade com que tratam Papai Noel. O novo criador é o dólar e o euro. A catedral, o consumo. A mídia e a educação completam a rede. Alimentam a neoinsensibilidade, o “dane-se” a tudo e a todos. A sensação de “independência”. Por essa razão, estimulamos em nossas práticas a percepção dessa situação. Até mesmo como tentativas. Não sabemos se vai dar certo.

– Quais seriam as possíveis alternativas para um estilo de vida menos impactante e mais harmonioso com a natureza? Por onde começar?
Genebaldo – Não é fácil. Poucas pessoas podem ou querem abrir mão de alguma coisa. Você deixaria de comer carne (cadáver) pelo simples fato de contribuir para a redução do desmatamento, das queimadas, da perda de biodiversidade, da emissão de gases que aumentam o efeito estufa e mudam o clima? Deixaria do comer carne por questões éticas causadas pela crueldade no tratamento do gado? É fácil economizar água, energia elétrica, colocar a latinha para reciclar, essas coisas. Isso não mexe com o seu conforto, suas vontades. Mas uma decisão mais profunda mexe. Aí você não está mais disposto e rotula essa ação de ecorradicalismo, ecochatice, coisa de bicho-grilo, natureba, biodesagradável e por aí segue. Ninguém abre mão. Nem o país rico, de emitir CO2; nem o país pobre, de queimar e desmatar; e nem você, de mudar hábitos alimentares. É uma questão de escala apenas. Eis o desafio, o fascínio e o privilégio de estar presente em um momento fantástico de transição civilizatória. Ou não seria assim mesmo o caminho?

domingo, 14 de agosto de 2011

Ruralistas de olho nas Unidades de conservação

Com 758 mil quilômetros quadrados de área e uma conta de indenizações devidas estimada em R$ 20 bilhões, as Unidades de Conservação (UCs) são o mais recente objeto de disputa entre ambientalistas e defensores do agronegócio. Essa disputa, que promete repetir a polêmica da reforma do Código Florestal, nem esperou a votação das novas regras de proteção do meio ambiente terminar no Senado.

A extensão das áreas protegidas corresponde a três vezes o tamanho do Estado de São Paulo - é também 40% maior que a França. Segundo o Instituto Chico Mendes, órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente responsável pelas áreas, há 310 Unidades de Conservação federais, concentradas sobretudo na Amazônia, onde as unidades fazem parte da estratégia de conter o avanço do desmatamento.
Embora a maior parte das UCs (86%) esteja localizada em terras públicas, isso não significa que a União esteja isenta de pagar indenizações a eventuais ocupantes, assim como aos proprietários de áreas que tenham sido desapropriadas. Daí o tamanho do passivo.
O próprio instituto calcula que as indenizações não pagas alcancem a cifra de R$ 20 bilhões. O valor equivale a quase um ano e meio de pagamento do benefício do Bolsa Família ou três vezes o custo da obra de transposição do Rio São Francisco, a maior obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) bancada com o dinheiro dos tributos.

A nova disputa política mostrou os primeiros contornos durante a semana em audiência pública na Câmara. O deputado Moreira Mendes (PPS-RO), presidente da frente parlamentar da agropecuária, anunciou uma "grande campanha" para impedir que novas Unidades de Conservação sejam criadas sem a prévia autorização do Congresso Nacional. Hoje, a criação é feita por meio de decreto presidencial.
Os argumentos são semelhantes aos usados na votação do Código Florestal na Câmara, quando o governo foi derrotado na estratégia de manter as áreas de proteção permanentes às margens de rios e encostas e o conceito de reserva legal nas propriedades. "Daqui a pouco, do jeito que está, não sobra nada para a produção", reclamou Moreira Mendes, que convocou autoridades da área ambiental do governo à Comissão de Agricultura. O colega Valdir Colatto (PMDB-SC) fez coro: "Daqui a pouco, o Brasil vira um parque."
"O argumento de que as unidades de conservação representam um impedimento ao desenvolvimento da agricultura é uma balela. A conservação é importante para garantir a sustentabilidade da atividade econômica", reagiu Bráulio Dias, secretário de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, presente à audiência.
(Reportagem de Marta Salomon - O Estado de S. Paulo, 14-08-2011)

Comentário: Mais uma iniciativa insana contra a sustentabilidade, com o objetivo único de aumentar o lucro imediato dos que se consideram os donos das terras e da Terra.





segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Tarefas ecológicas das Religiões

Apresentamos aqui a última parte do artigo de Marcial Maçaneiro, que aponta mais quatro tarefas das religiões a respeito da ecologia. As três primeiras já foram publicadas anteriormente neste blog.

4. Promover a ética ecológica pessoal, comunitária e global

As religiões (de cunho profético, místico ou sapiencial), chaves hermenêuticas sobre o mundo e a condição humana, constroem sentido existencial, inserem o ser humano no cosmo, propõem valores. Antes da emancipação histórica da ética, do direito e das artes, as religiões se ocupavam (como em parte ainda se ocupam) das esferas moral, jurídica e estética. Hoje, a sociedade setorizou-se e o sujeito é nutrido por várias fontes, professando ou não um determinado credo. Contudo as religiões não podem renunciar à sua responsabilidade pela vida, pelo mundo — que perdura, se aprimora e é convidada a reler-se no curso da história.
Vários autores e líderes acreditam que as religiões podem ser parceiras valiosas na promoção de uma ética ecológica, de nível triplo: pessoal, comunitária e global.

5. Dialogar em conjunto sobre questões ecológicas
Edgar Morin preconiza a tolerância proativa, cultural, consciente. Afirma que educar para tal é missão de toda pessoa humana e de toda instituição que se crê legítima. O mesmo lemos em L. Boff, M. Barros, M. Amaladoss, R. Panikkar, F. Teixeira,
Dalai Lama, João Paulo II e outros líderes. As religiões formam um cenário auspicioso para o diálogo entre ecologia da natureza e ecologia do ser humano: seu patrimônio místico, seus valores, sua força de convocação, com núcleos distribuídos nas cidades, países e continentes, possibilitam avançar em tal sentido. Aos poucos, vemos surgir fóruns, ONGs, cátedras, institutos e outros organismos, locais e internacionais, em que a ecologia é assunto da pauta interreligiosa.

6. Atuar em conjunto em causas ecológicas
Agir é o desdobramento consequente do diálogo proposto acima. Mas há também casos emergenciais, em que o agir antecede o diálogo (situações críticas, estratégias humanitárias, encontros espontâneos, ações solidárias em caso de calamidades, guerras ou exclusão). Muitos dos autores citados acima alertam para a possibilidade (aliás, feliz) de as religiões atuarem mais conjuntamente em benefício da justiça, da paz e da ecologia.

7. Reencantar a natureza
Re-encantar a natureza não significa simplesmente remitologizar o mundo. Isso seria atraente do ponto de vista psicológico-afetivo, mas poderia resvalar numa postura ingênua e pouco incidente diante dos fatores políticos, econômicos, técnicos e gerenciais que tocam à ecologia. O “re-encantamento” da natureza é proposto, não com base numa leitura anacrônica das mitologias, mas com base nos conteúdos e valores milenares delas — arquetípicos, centrais e duradouros —, capazes de educar comportamentos sustentáveis. Em termos simples, trata-se de fazer uma leitura oportuna das mitologias, símbolos e ritos referentes à condição humana na Terra, otimizando seu potencial hermenêutico (leitura do valor) e pedagógico (educador de atitudes).
Alguns autores têm oferecido elementos significativos para tal. L. Boff se concentra na sacralidade da vida — fonte de um re-encantamento conexional, cultural e ético da natureza. Outros, como Orlando Figueiredo, teórico português, propõem o paradigma de Gaia: a Terra, segundo ele, é organismo vivo, auto-organizante, que tem sido ferido, entristecido, desrespeitado, com efeitos arriscados à existência humana. Segundo esse autor, conceber a Terra como Gaia ajudaria a superar o dualismo funcionalista pessoa/natureza de estilo sujeito/objeto para tratar o planeta como “entidade” que hospeda, nutre e dialoga com a humanidade.
Outros propõem a via da compaixão (Dalai Lama); da valorização das tradições ancestrais, ligadas à identidade das culturas (Reginaldo Prandi); ou ainda, o reencantamento através da dialogicidade profunda entre sujeito e natureza (Thomas Merton e animadores do DIM – Diálogo Interreligioso Monástico). Cremos que, em perspectiva cristã, contribuem para tal a obra de Hildegard de Bingen e Francisco de Assis, entre outros.


quinta-feira, 14 de julho de 2011

Ecologia e Fé na SOTER


De 11 a 14 de julho aconteceu na PUC-Minas o XXIX Congresso da SOTER, Sociedade de Teologia e Ciências da Religião, com o tema “Religião e Educação para a Cidadania”. Contando com a participação de mais de 300 pessoas, entre professores, mestrando e doutorandos e interessados na temática, o evento foi marcado pela boa organização e excelentes palestristas.

Em uma tarde, aconteceu a reunião do Grupo Temático 8, intitulado: “Religião, ecologia e cidadania planetária”, sob a coordenação de Afonso Murad (FAJE) e Pedro Ribeiro de Oliveira (PUC-Minas). Ouvimos e discutimos vários questões relacionadas à esta temática:
*Introdução à temática (Dr. Afonso Murad)
*Consciência planetária como novo paradigma - a propósito do livro de L. Boff: Cuidar da Terra, proteger a vida (Dr. Pedro A. Ribeiro de Oliveira)
*Religião, espaço e cidadania: nexos, contradições e ambiguidades (Doutorando Sérgio Gonçalves de Amorim)
*A Emergência da Consciência Planetária na Igreja Católica Apostólica Romana (Mestrando Luiz Eduardo de Souza Pinto)
*Espaço shekiná: experiência de eco-espiritualidade e educação ambiental (Me. Moema Muricy)
*Pessoa Humana: de Imago Dei ao Homo Consumericus (Me. Claudia Felter Meira)
*A ECO E O EGO, uma análise da crise ecológica e o egoísmo humano (Doutorando Wagner Lima Amaral)
*A Fraternidade como locus teológico e político para uma cidadania universal (Dr. German Calderon Calderón)
*Educar para a cidadania planetária. Requisitos pedagógicos e princípios teológicos (Dr. Afonso Murad).

Contamos com a presença de Leonardo Boff, que participou parcialmente do nosso GT.
A ecologia, enquanto ciência, compromisso ético de cuidado com o planeta e paradigma, oferece enormes oportunidades para a Teologia e as Ciências da Religião. Para pensar e para agir!

domingo, 10 de julho de 2011

Agrotóxicos: riscos por todos os lados

Parte da entrevista a Wanderlei Pignati, doutor em Saúde Pública. Estuda a contaminação das águas e as bacias, além de participar de uma pesquisa no município de Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso do Sul, onde há cinco anos houve um grande acidente de contaminação por agrotóxicos. Fonte: Site IHU (Instituto Humanitas da Unisinos)

Quais são as principais consequências do uso de agrotóxicos para as águas, no caso, os rios e suas nascentes, bacias e os lençóis d’água?
A água é um dos componentes ambientais para onde os resíduos de agrotóxicos vão. Com o uso intensivo de agrotóxicos na agricultura brasileira isso vem se agravando. No ano passado, foram usados cerca de um bilhão de litros de agrotóxicos em nosso país, do tipo que se compra em agropecuárias. Não estou falando do agrotóxico diluído. Um litro de herbicida comprado nesses estabelecimentos é diluído em 100 litros de água para fazer a calda e pulverizar. Isso tem um destino, e parte vai para combater aquilo que se costuma chamar de “pragas da lavoura”. São insetos e ervas classificadas como daninhas, como os fungos. Uma parte vai para o solo, outra evapora e vai para o ar. Uma outra condensa e vai para a chuva, e outra ainda vai para o lençol freático. Essa ida dos agrotóxicos para o lençol freático é o que irá deixar resíduos na água potável ou na água dos rios e córregos. Isso terá impactos na saúde dos animais e dos seres humanos.
Esses produtos vão parar nesses componentes ambientais, inclusive nos alimentos. Resíduos de agrotóxicos podem ser encontrados não só na água, mas nos alimentos, na chuva, ar, solo. Quando falo de resíduos de agrotóxicos nos alimentos, refiro-me inclusive ao leite materno.

Fizemos uma pesquisa e constatamos a presença de agrotóxicos no leite materno de mulheres matogrossenses. Na cidade de Lucas do Rio Verde, interior do Mato Grosso, é usada larga quantidade de agrotóxicos nas culturas da soja, milho e algodão. Isso se reflete nos alimentos produzidos e, inclusive, no leite materno. Vários tipos de agrotóxicos se depositam na gordura e muitos, como os clorados, nunca mais saem dela. É o caso do endosulfan. Quando a mulher produz o leite para amamentar seu filho, esse líquido terá agrotóxico em sua composição. Isso porque o leite é composto por 2 a 3% de gordura. Assim, inclusive a própria criança pode ser prejudicada. A análise de resíduos de agrotóxicos no leite materno é, portanto, muito importante. Foi o que fizemos, analisando dez tipos diferentes desses produtos. Todos eles estavam presentes no leite de 62 mulheres dessa cidade. Isso é muito problemático, pois o alimento que deveria ser o mais puro da nossa vida está também contaminado. Espero que sejam tomadas medidas para que isso não continue a ocorrer.

Quais as principais sequelas para a saúde humana, provocadas pelos agrotóxicos?
O grande problema são as intoxicações crônicas, cuja exposição ocorre a baixas doses durante meses e anos. Após um período mais longo de tempo, podem surgir problemas como câncer, descontrole da tireoide e do sistema neurológico, além de diabetes. Surdez, diminuição da acuidade visual e outros distúrbios neurológicos também são frequentes. Quando uma mulher está em seus primeiros três meses de gestação e entra em contato com agrotóxicos, pode ocorrer má formação fetal. Portanto, são várias as consequências para a saúde causadas por esses produtos, desde intoxicações agudas até aquelas de caráter crônico. Saliento que os problemas dependem igualmente do tipo de agrotóxico utilizado.

Como poderia se constituir um movimento social de vigilância sanitária e ambiental que envolvesse não só entidades do governo, mas a sociedade civil de forma organizada e participativa?
A vigilância em torno dos agrotóxicos existe, de certa forma. Ela limita inclusive o registro, a venda e aplicação dos produtos. A lei regulamenta isso. A maioria dos estados tem suas leis próprias quanto a isso. Contudo, grande parte dessas legislações não são cumpridas. Então, a primeira questão é o cumprimento dessas leis, como no que diz respeito à pulverização perto de rios, córregos, e a pulverização aérea, que nós, médicos sanitaristas, lutamos para proibir. Mesmo assim, existe hoje uma legislação do Ministério da Agricultura e Pecuária – MAPA, a Instrução Normativa n. 2, de 2008, que permite pulverizar agrotóxicos de avião a, no mínimo, 500 metros de distância das nascentes de águas, onde moram populações e em que há criação de animais. Isso, na maioria das vezes, não é respeitado, como ocorre no Mato Grosso. As legislações estaduais quanto à pulverização terrestre constam que o limite é de, no mínimo, 250 metros afastados dessas nascentes, de criação de animais e moradia humana. Mesmo assim, não são respeitadas. Planta-se e pulveriza-se até encostado nas residências, sobretudo em comunidades rurais e nas pequenas cidades do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Rio Grande do Sul e no Sul do Paraná. As pulverizações aéreas e terrestres são feitas sem nenhum respeito.

Em segundo lugar, há toda uma discussão a ser feita pela vigilância sanitária nacional e dos estados para tentar proibir os agrotóxicos que já são banidos na União Europeia. Por que estamos consumindo, ainda, o endosulfan, o metamidofós , o 2,4-D e paraquat ? Esses são os produtos mais consumidos no Mato Grosso. São mais de 30 tipos de agrotóxicos bastante consumidos no Brasil que são proibidos na União Europeia. Alguns já têm legislação que irá proibi-los, como o endosulfan, que a partir de julho de 2013 será tirado do mercado. O metamidofós sai de circulação a partir de julho de 2012. Mas e os outros? A Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa está fazendo a revisão de 14 tipos de agrotóxicos, mas não consegue avançar porque os produtores dessas substâncias entraram com uma ação na justiça. Um juiz federal concedeu liminar exigindo que a Anvisa suspendesse a revisão. Veja o absurdo. O processo iniciado em 2008 ficou mais de um ano parado e foi retomado somente agora. Com toda a dificuldade, a Anvisa vem insistindo no processo.

É preciso haver uma consciência dos grandes produtores de que se está proibido lá fora, aqui deve ocorrer o mesmo. Por que continuar a usar agrotóxicos dessa natureza? Por que é mais barato? Ou por que é mais eficiente? Mas qual é o custo em termos de saúde humana, animal e vegetal, do ambiente como um todo? Precisamos pensar na saúde da água, porque o nosso organismo é composto de 70% de água, e se aquela que consumimos estiver contaminada com agrotóxicos, isso irá prejudicar nosso corpo. Então, repito: é preciso respeitar a legislação e proibir no Brasil os agrotóxicos que já são proibidos lá fora. Também é preciso que a população se conscientize e não consuma produtos que têm agrotóxicos no seu desenvolvimento. Todos os anos o Ministério da Saúde coloca no Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos e vê os resultados dos últimos anos. Desde o ano 2000, dos vinte tipos de alimentos analisados, a maioria contém agrotóxicos. Tem que haver uma divulgação mais ampla para a sociedade. A vigilância sanitária só irá funcionar se a população se conscientizar e mobilizar para isso. Há uma campanha nacional contra o uso de agrotóxicos lançada no I Simpósio Brasileiro de Saúde Ambiental, em Belém, em dezembro de 2010, com o apoio da Associação Brasileira de Saúde Coletiva – Abrasco. A iniciativa chama-se Campanha permanente contra os agrotóxicos e pela vida.

Podemos falar em “uso seguro dos agrotóxicos”?
Não. O uso totalmente seguro dos agrotóxicos é impossível. Os agrotóxicos penetram pela mucosa de pele, do olho, da orelha das pessoas, inclusive pela respiração. Se o trabalhador que aplicar esse produto estiver vestido como um astronauta (porque é assim que se parecem os EPIs criados para proteger os trabalhadores da contaminação por esses produtos), ele quase não será atingido ou contaminado. Isso porque a eficiência do filtro químico é de 80 a 90%, e com as moléculas dos novos agrotóxicos essa eficiência diminui mais ainda, pois há algumas delas que penetram no filtro de agrotóxicos da máscara e prejudicarão quem está realizando a aplicação. O efeito pode levar de cinco a dez anos para ser sentido. Pode não haver um impacto imediato. Mas e a segurança do ambiente, como fica? Será colocado EPI nos peixes, bois, cachorros e plantas que não se quer afetar? Não existe, portanto, uso seguro de agrotóxicos. O ambiente será poluído com substâncias cujo objetivo é matar as “pragas” da lavoura mas, com isso, cria-se todo um ônus ambiental.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Cresce o desmate na Amazônia

O total de área desmatada na Amazônia, no último mês de maio de 2011, é de 268 km2, divulgou o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). O número mais que dobrou se comparado com o mesmo período de 2010, quando foram registrados 109,6 km2. A destruição da mata local é classificada em categorias que estão divididas de corte raso a floresta degradada em três níveis (leve, moderada e alta).
O levantamento é feito pelo sistema por satélite Deter (Detecção do Desmatamento em Tempo Real), que pertence ao Inpe. Em maio, 32% de toda a Amazônia Legal não pôde ser mapeada devido a nuvens que atrapalham o monitoramento.
Mato Grosso é o Estado mais afetado, com desmate de 93,7 km2. Em seguida vem Rondônia, com 67,9 km2, Pará, com 65,5 km2, e Amazonas, com 29,7 km2. Os Estados onde houve menor ocorrência foram o Maranhão, com 6,5 km2, o Tocantins, com 4,3 km2, e o Acre, com 0,4 km2.
De janeiro a maio de 2011, o Deter já aponta 880,18 km² de área desmatada em toda a Amazônia.
(Fonte: Folha on line, 30/06/11)

domingo, 26 de junho de 2011

Consciência planetária e Ecologia

Estive no VI Congresso de Educadores Agostinianos, num centro de eventos próximo a Belo Horizonte. Animei o grupo temático intitulado "Iluminar a vida: Consciência Planetária e Ecologia", com dois diferentes grupos. Fiquei feliz em poder partilhar conhecimentos e a paixão pela causa da sustentabilidade com outros educadores e gestores da educação. Promovermos em curto período de tempo um  espaço intenso de reflexão, consciência de si, mística e exercício elaborado do olhar.
Espero que os agostianianos e outras instituições confessionais incorporem a temática da sustentabilidade na sua proposta pedagógica e continuem a tomar iniciativas concretas para formar as novas gerações na consciência planetária.  Afonso Murad