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segunda-feira, 19 de setembro de 2016
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Teologia de Terra e Espiritualidade Ecológica
J. Moltmann
Encontramo-nos hoje no fim da era moderna e no início do futuro ecológico do nosso mundo, se o nosso mundo deve sobreviver. Com isso, entende-se um novo paradigma, em seu nascimento, que liga entre si a cultura humana e a natureza da Terra de uma forma diferente de como ocorreu no paradigma da era moderna. A era moderna foi determinada pela tomada de poder do ser humano sobre a natureza e as suas forças. Essas conquistas e tomadas de posse da natureza chegaram hoje ao seu limite.
Todos os indícios indicam que o clima da Terra está se alterando drasticamente por obra de influentes comportamentos humanos. As calotas de gelo dos polos da Terra estão derretendo, o nível da água aumenta, algumas ilhas desaparecem, aumentam os períodos de seca, ampliam-se os desertos e assim por diante. Nós conhecemos tudo isso, mas não fazemos nada com relação ao que sabemos. A maior parte das pessoas fecham os olhos ou estão como que paralisadas. Porém, nada favorece tanto as catástrofes quanto o não fazer nada paralisante. Precisamos compreender a natureza de um modo novo e de uma nova imagem de ser humano e, por isso, de uma nova experiência de Deus na nossa cultura. Uma nova teologia ecológica pode nos ajudar nisso.
Segundo as tradições bíblicas, Deus não infundiu seu próprio espírito divino apenas no ser humano, mas em todas as suas criaturas: "Escondes tua face e eles se apavoram, / retiras deles a respiração, e expiram, / voltando a ser pó. / Envias o teu sopro e eles são criados, / e assim renovas a face da terra" (Salmo 104, 29-30). Pode-se deduzir disso: se a imagem e semelhança divina do ser humano depende do espírito divino que nele habita, então todas as criaturas, nas quais habita o Espírito de Deus, são imagens de Deus e, portanto, devem ser respeitadas. Em todo caso, os seres humanos fazem parte da natureza da Terra de um modo tão estreito que se encontram na mesma situação não redimida e na esperança comum da redenção. Os seres humanos não serão salvos "desta" terra, mas "com" esta terra, da caducidade e da morte.
Paulo ouviu o "gememos no íntimo, esperando […] a libertação para o nosso corpo" (Rm 8, 23) por parte daqueles que são animados pelo Espírito de Deus. Por isso, Ele também ouviu o "gemido e a expectativa" da criação não humana ao seu redor (Rm 8, 22). Ele estava convencido de que é o próprio Espírito de Deus que faz com que nós e toda a criação gemamos à espera da redenção do destino de morte. O Espírito presente é o princípio da nova criação, na qual não haverá mais a morte, porque ele é o Espírito da ressurreição de Jesus e a presença difundida do Ressuscitado.
A teologia ortodoxa expressou isso com a esperança não só na divinização dos seres humanos, mas também na divinização do cosmos: "Toda a natureza está destinada à glória, da qual os seres humanos terão parte no reino do cumprimento". Os homens, na sua singularidade, no seu destino e na sua esperança de vida, são uma parte da natureza. Portanto, eles não estão no centro do mundo, mas, para sobreviver, devem se integrar na natureza da Terra e na comunidade das criaturas com as quais vivem.
A arrogância do poder sobre a natureza e a liberdade de fazer dela o que querem não compete a eles, mas lhes compete, sim, uma "humildade cósmica" e uma consideração atenta por tudo o que eles fazem à natureza. Só quando estivermos conscientes da nossa dependência à vida da Terra e da existência de outros seres vivos nos tornaremos, de "divindades soberbas e infelizes" (Lutero), seres humanos.
O verdadeiro saber não é o poder, mas a sabedoria. As novas ciências astrofísicas demonstraram as interações entre os âmbitos inanimados e os animados do nosso planeta Terra. Disso deriva a ideia de que a biosfera da Terra forma com a atmosfera, os oceanos e as planícies um sistema complexo, único no seu gênero, que tem a capacidade de produzir vida e de criar espaços vitais. É a muito discutida teoria de Gaia, de James Lovelock. Apesar do nome poético da deusa grega da Terra, não se pretende com isso fazer uma divinização da Terra. Mas a Terra é concebida como um organismo vivo que produz vida e cria espaços vitais.
Se entendemos a vida em sentido puramente biológico, então a terra não é "viva", porque não se reproduz. No entanto, deve se dizer que ela é mais do que viva, porque produz vida. Ela não é nem um "organismo", no sentido em que conhecemos os organismos biológicos. Ela é mais do que um organismo, porque produz organismos. A Terra é um sujeito de tipo particular, incomparável e único. Não é um conglomerado aleatório de matéria e energia, não é nem cega, nem muda. É inteligente, porque produz inteligência.
Em um ponto específico da sua evolução, a Terra começou a sentir, a pensar, a tomar consciência de si mesma e a merece respeito. Nós, seres humanos, somos criaturas da Terra. Portanto, não estamos diante da Terra como seus sujeitos, mas, na nossa dignidade de seres humanos, somos parte da Terra e membros da comunidade terrena das criaturas. Nós mesmos somos "cocriaturas", juntamente com os outros seres vivos.
Esse sentimento cósmico de comunhão é mais amplo do que todos os âmbitos da natureza que podemos conhecer e dominar. Por isso, hoje é tempo de colocar no centro a santidade da Terra e de nos integrarmos conscientemente à comunidade da Terra. Comecemos a falar sobre um tema particular da teologia cristã, tema que, na reviravolta ecológica para a Terra e as suas condições de vida, torna-se atual hoje: a teologia natural. Embora tradicionalmente se entendia por essa expressão um conhecimento indireto de Deus a partir da natureza, hoje precisamos de um conhecimento indireto da natureza a partir de Deus.
As crises ecológicas destroem as condições vitais da Terra. Para conservá-la apesar das forças destrutivas, precisamos de um "sim" à Terra que supere tais forças e de um invencível amor pela Terra. Há talvez um maior reconhecimento e um amor mais forte do que a fé na presença de Deus na Terra e nas suas condições de vida? Precisamos de uma teologia da Terra e de uma nova espiritualidade da criação.
Fonte: Site IHU. Publicado originalmente no jornal Avvenire (Itália), 18-05-2012.
Encontramo-nos hoje no fim da era moderna e no início do futuro ecológico do nosso mundo, se o nosso mundo deve sobreviver. Com isso, entende-se um novo paradigma, em seu nascimento, que liga entre si a cultura humana e a natureza da Terra de uma forma diferente de como ocorreu no paradigma da era moderna. A era moderna foi determinada pela tomada de poder do ser humano sobre a natureza e as suas forças. Essas conquistas e tomadas de posse da natureza chegaram hoje ao seu limite.
Todos os indícios indicam que o clima da Terra está se alterando drasticamente por obra de influentes comportamentos humanos. As calotas de gelo dos polos da Terra estão derretendo, o nível da água aumenta, algumas ilhas desaparecem, aumentam os períodos de seca, ampliam-se os desertos e assim por diante. Nós conhecemos tudo isso, mas não fazemos nada com relação ao que sabemos. A maior parte das pessoas fecham os olhos ou estão como que paralisadas. Porém, nada favorece tanto as catástrofes quanto o não fazer nada paralisante. Precisamos compreender a natureza de um modo novo e de uma nova imagem de ser humano e, por isso, de uma nova experiência de Deus na nossa cultura. Uma nova teologia ecológica pode nos ajudar nisso.
Segundo as tradições bíblicas, Deus não infundiu seu próprio espírito divino apenas no ser humano, mas em todas as suas criaturas: "Escondes tua face e eles se apavoram, / retiras deles a respiração, e expiram, / voltando a ser pó. / Envias o teu sopro e eles são criados, / e assim renovas a face da terra" (Salmo 104, 29-30). Pode-se deduzir disso: se a imagem e semelhança divina do ser humano depende do espírito divino que nele habita, então todas as criaturas, nas quais habita o Espírito de Deus, são imagens de Deus e, portanto, devem ser respeitadas. Em todo caso, os seres humanos fazem parte da natureza da Terra de um modo tão estreito que se encontram na mesma situação não redimida e na esperança comum da redenção. Os seres humanos não serão salvos "desta" terra, mas "com" esta terra, da caducidade e da morte.
Paulo ouviu o "gememos no íntimo, esperando […] a libertação para o nosso corpo" (Rm 8, 23) por parte daqueles que são animados pelo Espírito de Deus. Por isso, Ele também ouviu o "gemido e a expectativa" da criação não humana ao seu redor (Rm 8, 22). Ele estava convencido de que é o próprio Espírito de Deus que faz com que nós e toda a criação gemamos à espera da redenção do destino de morte. O Espírito presente é o princípio da nova criação, na qual não haverá mais a morte, porque ele é o Espírito da ressurreição de Jesus e a presença difundida do Ressuscitado.
A teologia ortodoxa expressou isso com a esperança não só na divinização dos seres humanos, mas também na divinização do cosmos: "Toda a natureza está destinada à glória, da qual os seres humanos terão parte no reino do cumprimento". Os homens, na sua singularidade, no seu destino e na sua esperança de vida, são uma parte da natureza. Portanto, eles não estão no centro do mundo, mas, para sobreviver, devem se integrar na natureza da Terra e na comunidade das criaturas com as quais vivem.
A arrogância do poder sobre a natureza e a liberdade de fazer dela o que querem não compete a eles, mas lhes compete, sim, uma "humildade cósmica" e uma consideração atenta por tudo o que eles fazem à natureza. Só quando estivermos conscientes da nossa dependência à vida da Terra e da existência de outros seres vivos nos tornaremos, de "divindades soberbas e infelizes" (Lutero), seres humanos.
O verdadeiro saber não é o poder, mas a sabedoria. As novas ciências astrofísicas demonstraram as interações entre os âmbitos inanimados e os animados do nosso planeta Terra. Disso deriva a ideia de que a biosfera da Terra forma com a atmosfera, os oceanos e as planícies um sistema complexo, único no seu gênero, que tem a capacidade de produzir vida e de criar espaços vitais. É a muito discutida teoria de Gaia, de James Lovelock. Apesar do nome poético da deusa grega da Terra, não se pretende com isso fazer uma divinização da Terra. Mas a Terra é concebida como um organismo vivo que produz vida e cria espaços vitais.
Se entendemos a vida em sentido puramente biológico, então a terra não é "viva", porque não se reproduz. No entanto, deve se dizer que ela é mais do que viva, porque produz vida. Ela não é nem um "organismo", no sentido em que conhecemos os organismos biológicos. Ela é mais do que um organismo, porque produz organismos. A Terra é um sujeito de tipo particular, incomparável e único. Não é um conglomerado aleatório de matéria e energia, não é nem cega, nem muda. É inteligente, porque produz inteligência.
Em um ponto específico da sua evolução, a Terra começou a sentir, a pensar, a tomar consciência de si mesma e a merece respeito. Nós, seres humanos, somos criaturas da Terra. Portanto, não estamos diante da Terra como seus sujeitos, mas, na nossa dignidade de seres humanos, somos parte da Terra e membros da comunidade terrena das criaturas. Nós mesmos somos "cocriaturas", juntamente com os outros seres vivos.
Esse sentimento cósmico de comunhão é mais amplo do que todos os âmbitos da natureza que podemos conhecer e dominar. Por isso, hoje é tempo de colocar no centro a santidade da Terra e de nos integrarmos conscientemente à comunidade da Terra. Comecemos a falar sobre um tema particular da teologia cristã, tema que, na reviravolta ecológica para a Terra e as suas condições de vida, torna-se atual hoje: a teologia natural. Embora tradicionalmente se entendia por essa expressão um conhecimento indireto de Deus a partir da natureza, hoje precisamos de um conhecimento indireto da natureza a partir de Deus.
As crises ecológicas destroem as condições vitais da Terra. Para conservá-la apesar das forças destrutivas, precisamos de um "sim" à Terra que supere tais forças e de um invencível amor pela Terra. Há talvez um maior reconhecimento e um amor mais forte do que a fé na presença de Deus na Terra e nas suas condições de vida? Precisamos de uma teologia da Terra e de uma nova espiritualidade da criação.
Fonte: Site IHU. Publicado originalmente no jornal Avvenire (Itália), 18-05-2012.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
Sessão Temática "Ecoteologia" na VI ANPTECRE
IV CONGRESSO DA ANPTECRE
UNICAP – Recife - 04 a 06/09/2013
ST 1: ECOTEOLOGIA. TEMAS EMERGENTES
Na
sessão temática, no dia 5 de setembro, apresentaram-se comunicações que articulam
“ecologia, consciência planetária e religião”. Coordenação: Afonso Murad e Carlos Cunha (FAJE).
1. A ambiência da Teologia da criação.
A
comunicação tem como objetivo mostrar que temas emergentes da Ecoteologia perpassam
a teologia bíblica desde o Antigo até o Novo Testamento. O escritor dos
primeiros capítulos do livro de Gênesis registra que só após o Criador ter
proporcionado uma ambiência favorável, chamado no texto de Jardim (Gan) do Éden
(Lugar de delicias), pôs o Homem para habitar nesse lugar. Passeava com o Homem
toda tarde e no meio do Gan (jardim) pôs a arvore da Vida. A vida então passa a
ser celebrada. O que é a vida na
proposta de Deus senão uma caminhada com Ele todos os dias na praça ou no Jardim? Toda a
criação geme esperando a manifestação dos filhos de Deus. Segundo o Apocalipse,
na nova Polis celestial, a nova Jerusalém, há uma platéia (praça) em cujo meio
encontra-se a mesma árvore, cujas folhas servirão para a cura das nações.
A
ecoteologia encontra assim suas bases no início e no final da Bíblia. O Gan
(jardim) do éden do início retornará como platéia (praça) da nova pólis. Da
árvore da vida dependerá a saúde e a vida dos povos. O ser humano deve cuidar
da Terra e dessa forma cumprir a orientação que Deus lhe dera desde a origem. A
pesquisa será feita por meio de uma revisão bibliográfica.
Palavras-chave:
Teologia. Ecoteologia. Vida. Ambiência
2. Mandato cultural: resgatando a
teologia da criação para uma vivência pública da fé
Rodomar
Ricardo Ramlow - Doutorando em Teologia no PPG da EST. Bolsista CAPES. rodomar.ramlow@gmail.com
Para que
os cristãos possam avançar do debate teológico para uma vivência prática da fé
na esfera pública é necessário um fundamento sólido. No que diz respeito à
perspectiva ecológica, é necessário resgatar uma teologia da criação a partir
do Mandato Cultural de Deus. Contribuir para esta reflexão é objetivo deste
trabalho. Com uma pesquisa bibliográfica e um olhar sobre os primeiros
capítulos do livro bíblico de Gênesis procuramos resgatar o conceito de Mandato
Cultural, a fim de contribuir para uma conscientização planetária. Lembrando a
influência do dualismo grego e o desprezo pela matéria, voltar-se à tradição
hebraica significa assumir o desafio de uma compreensão mais integrada de todas
as coisas. De maioria cristã, o Brasil precisa superar o dualismo platônico e
encarnar a compreensão de que todos são responsáveis pela boa criação de Deus.
A intervenção humana na realidade pressupõe responsabilidade e cuidado.
Observa-se, no entanto, uma incoerência entre os ensinamentos do livro sagrado
dos cristãos e a prática dos fieis no dia a dia no que se refere à relação
humana com o mundo criado.
Palavras
chave: Ecoteologia; Mandato Cultural; Teologia Pública; Criação.
2. “Natureza e Revelação
testificam o amor de Deus”: A práxis ecoteológica de Ellen White como reflexão
para a consciência planetária
“O amor de Deus” é o mais abrangente tema
abordado por Ellen Gould Harmon White, cofundadora da Igreja Adventista do
Sétimo Dia. Ao apresentar o “Livro da Natureza” como fonte privilegiada para o
conhecimento prático de Deus e (por conseguinte) de Seu amor, em plena Era
Vitoriana, ela possibilitou um novo olhar às relações entre o ser o humano e o
divino mediante intrínseca e visceral relação do homem e da mulher com o
meio-ambiente. Assim, refletir acerca de seus escritos sobre a natureza é abrir
a consciência ao cuidado do planeta e ao mesmo tempo perceber a beleza da
criação de Deus. Segundo a proposta da teologia holística de Ellen White, é
impossível buscar a progressiva santificação e a negação do eu sem humildade
para contemplar na terra e no céu o Deus abscôndito que na natureza se revela
de forma privilegiada. Desta forma, conclui, conhecer e amar a natureza para
perceber pessoalmente o amor de Deus expresso na Bíblia deve ser objetivado
desde a mais tenra infância. O objetivo deste artigo é compartilhar e analisar
textos whiteanos selecionados acerca do tema, vinculando-o à educação
vivencial, com o intuito de promover possibilidades de diálogo e ações
colaborativas para um mundo focado na interação entre o ser humano e a
Natureza.
Palavras-chave:
Religião, Natureza, Teologia Adventista
4. Proposta cosmogônica da
ontologia do divino baseada em Gn 6, à
luz do livro de I Enoque
Filipe
de Oliveira Guimarães. Doutorando em Ciências da Religião - PPG da UMESP. filipeoligui@gmail.com
Este
trabalho foi elaborado com o objetivo geral de contribuir para uma Teologia da
Sustentabilidade. No primeiro momento abordamos a temática na perspectiva da
cosmogonia demonstrando, pelo viés da história das religiões, o seu lugar na
vivência cristã e na academia. Em seguida analisamos o relato de Gêneses 6, à luz do livro de I Enoque, objetivando
resgatar a crença cosmogônica dos cristãos dos primeiros séculos. Na sequência,
a pesquisa dá apontamentos ontológicos, de caráter hermenêutico, que posicionam
Deus em relação a sua criação, com a finalidade de aproximar a temática da sustentabilidade
do texto bíblico, no palco da cosmogonia. Em relação à sua estrutura,
classificamos como sendo sistemático-fragmentária (construímos a partir de
pequenas porções das Escrituras buscando obter relações entre elas),
metodologicamente direcionada pela História das Religiões, fundamentada em
pressupostos bíblicos e da pseudoepígrafe, tendo como chave de leitura a
temática contemporânea da sustentabilidade. O resultado da pesquisa aponta que
é possível, aos cristãos, uma práxis sustentável se adquirirem uma consciência
do divino harmonizada com a temática da Sustentabilidade.
Palavras-chave:
Teologia, Sustentabilidade, Cosmogonia, I Enoque.
5. Deslumbramento e preservação ante a
sacralidade da vida: despertar para a religiosidade holística.
Mauro Luiz Ferreira
Silva. Mestrando em Teologia - PPG da
EST. Bolsista da CAPES. mauroposest@yahoo.com.br
O artigo aborda a relevância do deslumbramento
ante o mistério da vida, e a atitude preservacionista da natureza, enquanto
meio e evidência, respectivamente, de experienciação do sagrado. À luz de
antigos relatos diluvianos globais, como a epopeia mesopotâmica de Gilgamesh, o
mito grego de Posseidon e Deucalião e o relato bíblico de Noé, descritores de vasta
inundação na qual pequeno grupo de humanos e numerosas espécies animais são
mantidos vivos, veem-se como elementos comuns a iniciativa divina da
preservação e certa espécie de pacto sagrado com a natureza. Em ambas as eras,
a pré-histórica, quando humanos até mesmo teriam acolhido animais numa grande
barca, e a contemporânea, quando diversas ações individuais e políticas
organizacionais “verdes” se desdobram em nível mundial, as atitudes de preservação parecem revelar a
vivacidade de mentes capazes de deslumbramento ante o mistério e sacralidade da
vida, e uma consequente autorresponsabilização pela continuidade desta. Sob tal
viés, o da vida como sacramento, desponta a religiosidade plena. Com base em
pesquisa bibliográfica, esta comunicação pretende contribuir para o debate
sobre a espiritualidade holística que, ante a criação, deslumbra-se e
responsabiliza-se.
Palavras-chave:
dilúvio, preservação, encantamento,
religiosidade holística.
6. Comunidade da criação,
comunidade da esperança: reflexões a partir da ecoteologia de Jürgen Moltmann.
O tema
do trabalho será a reviravolta antropológica proposta por Jürgen Moltmann a
partir da sua Ecoteologia. Na elaboração do autor, a construção da identidade
do ser humano pode realizar-se apenas na medida em que este se confronta com o
restante da criação, com seu semelhante e com o próprio Deus criador, numa
“comunidade da criação”. Posto isso, a humanidade pode ser entendida como
“co-criatura” na rede de conexões que compõem o complexo sistema do cosmo. O
objetivo será apresentar o aggiornamento
proposto pelo autor segundo três eixos principais: pautas para uma nova
antropologia, à luz dos desafios pós-modernos e da crise ecológica; a reflexão
acerca dos direitos da humanidade e os direitos da natureza; vias para um novo
estilo de vida. Para atender os objetivos acima expostos, será realizada uma
pesquisa bibliográfica das principais obras do autor sobre a temática, entre as
quais Uomo (1971), Deus na criação (1985), Dio nel progetto del mondo moderno
(1997) e Ética da esperança (2010) a
fim de identificar os conteúdos inerentes à discussão proposta. Por fim, será
apresentada a conclusão da investigação bibliográfica: o fomento de uma
comunidade da criação na esperança de um futuro cósmico para a humanidade.
Palavras-chave:
Moltmann, Ecoteologia, Co-criaturalidade, Sustentabilidade
7. “Novo céu e nova terra”: Por
que o pentecostalismo brasileiro não se engaja em causas ecológicas?
Carlos
Alberto Motta Cunha. Doutorando em Teologia - PPG da FAJE. Bolsista CAPES. carlosbedri@terra.com.br
O título
desta comunicação já pressupõe a hipótese sugerida: o pentecostalismo
brasileiro rejeita o engajamento ecológico. “Novo céu e nova terra” (Ap 21,1),
para a fé pentecostal, são lugares de um futuro distante, longe da Terra. A
esperança de um planeta restaurado não faz parte do imaginário pentecostal que,
por sua vez, determina o comportamento alienante diante das causas ecológicas.
Quais são os elementos teológicos determinantes de tal comportamento? Com o
intuito de responder esta pergunta fundamental, o texto analisa as matrizes
hermenêutica e escatológica do movimento pentecostal no Brasil e suas
implicações para o não engajamento ecológico.
Palavras-chave:
Pentecostalismo. Escatologia. Hermenêutica bíblica. Ecologia.
8. “Terra Prometida”. A
emergência da “eco-espiritualidade”: ecologia e espiritualidade cósmica.
Aparecida
Maria de Vasconcelos. Doutoranda em
Teologia – PPG FAJE. Bolsista da FAPEMIG. aparecidamv@ig.com.br
Terra
salutar e salva – “Terra prometida” – é objeto da fé que convida simultaneamente
a acolher a criação como dom e a humanizá-la. O neologismo
“eco-espiritualidade” aponta para esse alvo que desejamos aprofundar. Frente à
perda do sentido da terra e da vocação dos cristãos como co-responsáveis ante
uma criação em processo, nós questionamos: 1) O que inspira as atitudes
pessoais e coletivas nas relações com o meio ambiente? 2) Qual o lugar de Deus
numa perspectiva cosmológica? 3) Quais os aportes da “eco-espiritualidade” para
autêntica atitude ecológica e para novo imaginário religioso? Estas questões abrem três momentos
reflexivos. A ecologia provoca uma releitura da tradição cristã de modo a
reequilibrá-la em alguns dos seus componentes. É o primeiro momento. Em seguida, desenvolveremos a espiritualidade
cósmica de Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955). Ele consagrou um interesse
especial à Terra bem como ao seu futuro. Para o geopaleontólogo o futuro não é
um horizonte potencialmente ameaçado, como ele inclina a tornar-se na situação
contemporânea, mas um pólo de atração, o ponto Ômega. O que está em jogo em sua
reflexão é a construção de algo novo que esteja, ao mesmo tempo, em coerência
com as aspirações mais autênticas da humanidade. Enfim, proporemos alguns
princípios, que emergem das provocações da ecologia à fé cristã e da mística
cósmica teilhardiana, em vista a se pensar a missão própria dos cristãos na
construção da "terra prometida".
Palavras
chaves: Terra, eco-espiritualidade, Cósmica, Teilhard.
9.
Ecoteologia: introdução didática
Afonso
Murad. Doutor em Teologia. Docente no PPG em Teologia - FAJE. Bolsista de
produtividade em pesquisa no CNPq. murad4@hotmail.com
Em
diferentes partes do mundo, as teologias contextuais tem se desenvolvido como
parte de um esforço conjunto de ampliar o diálogo da fé cristã com o mundo
contemporâneo, de forma significativa. A ecoteologia se insere na imensa tarefa
de atualizar a mensagem cristã, estabelecer interfaces com outras áreas do
saber e contribuir para a sustentabilidade e a cultura da paz. O presente
trabalho, de caráter programático, visa levantar os pontos essenciais para a
produção de uma obra de ecoteologia, que sirva de texto-base, material de
estudo para pessoas e grupos, e colabore efetivamente para o avanço da pesquisa.
Quais seriam os elementos imprescindíveis para um texto-base de ecoteologia?
Propomos, para reflexão e debate nesta Sessão Temática: (1) Estatuto
epistemológico, método e abrangência da ecoteologia. Relação com outras
teologias contextuais. (2) Religiões, consciência planetária e
sustentabilidade. Síntese e tarefas. (3) Ecoteologia cristã: bases bíblicas.
(4) Doutrina cristã e ecologia: novas interrelações. (5) Ética da
sustentabilidade à luz da fé cristã. (6) Espiritualidade Ecológica. (7)
Síntese: a fé cristã e as sete chaves da consciência planetária.
Palavras-chave:
Ecoteologia, Teologia e sustentabilidade, religião e consciência planetária.
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Ecologia e Ecoteologia
O mundo dá muitas voltas, e certas convicções de raiz retornam com novos matizes. A modernidade proclamou com orgulho a submissão da natureza ao ser humano. A filosofia segue o mesmo caminho, ao sustentar a centralidade do homem, com a autonomia da razão científica, filosófica e subjetiva. A sociedade urbano-industrial e o progresso ilimitado pareciam um sonho sem fim. O antropocentrismo é uma tendência irreversível a se consolidar em todo a orbe. Mas algo levou a questionar tal visão: a consciência planetária. Somos filhos da Terra e responsáveis pelo seu futuro. A contínua degradação do ecossistema, a crise da pretensão de totalidade da ciência, a crescente consciência do desenraizamento do ser humano em relação ao mundo natural e outros fatores criam condições favoráveis para a eclosão de vigoroso movimento ecológico no mundo inteiro.
A ecologia pode ser compreendida como ciência, ética e paradigma. As três dimensões se completam. Enquanto ciência, ecologia significa o estudo de como se inter-relacionam todos os seres que constituem a “comunidade de vida” em nosso planeta: os seres abióticos (água, ar, solo e energia do sol), os seres bióticos (microrganismos, plantas e animais) e o ser humano. Nascida da biologia, a ecologia ultrapassou seu campo inicial de conhecimento, ao propor estudar as relações, os contextos, e não somente determinados seres vivos em seu hábitat. Forja-se então a categoria “interdependência”: todos os seres estão em rede e as redes de matéria e energia são constitutivas na teia da vida.
A começar de seu objeto formal e do método, a ecologia postula a colaboração de muitos saberes. Somente se compreendem as relações na esfera da vida do planeta (biosfera) recorrendo simultaneamente a várias ciências, como biologia, física, química, geografia etc.... Fator semelhante acontece quando se estuda a ecologia humana, ao somar abordagens multidisciplinares da psicologia, da sociologia, da geografia humana, da economia, da história etc.
A abordagem científica da ecologia aproxima-se da teoria da complexidade de E. Morin, por reconhecer a incerteza e a incompletude como parte do conhecimento, que se mantém aberto para tecer novos fios e perceber relações ainda não compreendidas. A ecologia se liga também à holografia e a holística, enquanto percebe que em cada ser, biótico ou abiótico, há uma parte do cosmos, e que o todo é maior do que a soma das partes. A ecologia também se tornou um viés que influencia várias ciências teóricas e aplicadas, pois seu interesse se dirige à sustentabilidade, ou seja, a continuidade da vida no presente e no futuro do planeta. Daí surgem, por exemplo, a arquitetura e construção sustentáveis, a engenharia ambiental, o ecodesign na concepção de produtos, a gestão ambiental...
Ecologia, enquanto ética, diz respeito ao despertar da consciência (ecopercepção) e a empreender ações que tenham em vista a sustentabilidade. Inicia-se com a percepção de que a atual forma de o ser humano se relacionar com o ecossistema está equivocada e levará a humanidade e nossa “casa comum” a desastre sem precedentes. As mudanças climáticas fazem perceber, de forma inequívoca, que a atuação irresponsável do ser humano em relação ao ecossistema tem consequências graves e simultâneas, tais como alteração do ciclo das estações, perda da biodiversidade, contaminação (do solo, do ar e da água), perdas econômicas na agricultura, aumento de doenças respiratórias, custos econômicos não contabilizados e externalizados, etc.
A ética ecológica articula, de forma nova, a questão do indivíduo, do grupo, da instituição e das estruturas sociais e econômicas. Ela rejeita a exclusividade de fatores e a oposição entre subjetividade e coletividade. Propugna que a sociedade ecologicamente sustentável é possível quando se somam, de forma interdependente, atitudes individuais, ações familiares e coletivas, gestão institucional, adoção de políticas locais e nacionais, além de acordos internacionais em forma de protocolos vinculantes.
Assim, sustentabilidade postula também novo ethos humano e sociopolítico. Implica mudança de hábitos pessoais e comunitários de consumo e descarte. Interfere no processo de extração, produção, distribuição, consumo, descarte (ou reciclagem) dos bens e nos serviços a eles associados. Compreende por isso o triple botton line: econômico, social e ambiental. Transforma-se numa das grandes causas da humanidade, no presente e no futuro. Exige que o ser humano recubra o olhar de encantamento, percebendo que os outros seres não são “coisas”, que tome consciência de seu impacto sobre o planeta, da “pegada ecológica”, e assuma novas atitudes.
O paradigma ecológico, por sua vez, consiste na crítica e na superação do antropocentrismo moderno. O ser humano pode até se compreender como “centro consciente do universo conhecido”, mas ele nunca está sozinho. A espécie humana é fruto de longuíssimo processo de evolução da matéria. Somos filhos da Terra e parte da Terra. Por isso, a consciência planetária implica ética planetária: é preciso cuidar da Terra. Assim, ciência e ética se fundem, sem perder a especificidade, num modelo de compreensão do ser humano que se percebe como parte do meio ambiente e em contínua relação de interdependência com ele.
Qual a originalidade da ecoteologia, neste contexto? Brevemente:
— Trata-se de reflexão que resgata a unidade da experiência cristã e de sua formulação, apresentando em seu discurso a relação entre criação, história, encarnação, morte e ressurreição de Jesus, e o início da nova criação.
— Reelabora a teologia da criação na perspectiva da interdependência, mostrando que o ser humano, nos relatos bíblicos, é feito por Deus do barro da terra (consciência ecoplanetária), para cuidar do jardim, assim como para servir-se das outras criaturas, exercitando o senhorio como Deus é Senhor. Há relação estreita entre criação e salvação, e todos os seres estão nelas implicados.
— Explicita e fundamenta a ética do cuidado com o mundo, em ligação estreita com a moral social, ampliando sua abrangência.
— Propõe-se a superar a fragmentação das disciplinas teológicas e, na linha da teoria da complexidade, empenha-se no diálogo efetivo com as “ciências da natureza”.
— Estimula a espiritualidade ecológica, que associa no louvor e no serviço todos os seres à obra criadora, redentora e santificadora da Trindade.
— Estabelece teias de mútua aprendizagem com a teologia da libertação (dimensão social da fé), a teologia feminista, a teologia afro-ameríndia e a teologia das religiões.
A ecoteologia, que apenas se delineia no momento, contribui para superar visões equivocadas ou restritivas da relação do ser humano com o ambiente, assim como de sua própria autocompreensão. Ao se rebelar contra o racionalismo moderno e sua sede ilimitada de tudo explicar e esquadrinhar, o ser humano pode resvalar em posturas irracionais. Confunde-se reencantamento com ingenuidade ou espírito mágico. Exemplos palpáveis se encontram nos discursos de certos grupos religiosos sobre o sentido da doença, do mal, da injustiça social e do destino. Contrariamente ao orgulho antropocêntrico, que tudo submete ao ser humano, proliferam as crenças numa infinidade de determinismos cósmicos sobre o devir individual e coletivo. Além disso, a categoria “energia”, retirada da física quântica, seria uma panaceia que tudo justifica, sem nada explicar.
A holística pode servir à construção do cristianismo atualizado, coerente e cheio de vida; boa-nova para homens e mulheres desesperançados em busca de um fio condutor, sedentos por nova forma de enfocar a posição do ser humano em relação ao cosmos. O fato de comungar com nova mentalidade, compartilhada por grupos não cristãos ou pós-cristãos, não implica aceitação incondicional de todos os componentes. Existem na holística “sinais dos tempos” e sementes do Verbo que pedem reconhecimento e valorização. Há que evitar, no entanto, um pretenso neouniversalismo que a tudo dilui e relativiza, esvaziando o conteúdo da proposta de Jesus Cristo, a novidade radical do Evangelho. Diferentemente do panteísmo, que abole as fronteiras entre o humano e o divino, a ecoteologia propõe o panenteísmo. Compreende que todos os seres estão em Deus e para ele se destinam, pois foram criados pelo Pai, por meio da Palavra (o filho), no Espírito. Este sustenta, renova e leva à consumação a criação.
A ecoteologia tem diante de si duplo compromisso programático. O primeiro consiste em reenfocar temas e disciplinas teológicas, considerando a participação de todos os seres no projeto de redenção e a premência do compromisso ético com a “salvaguarda da criação”. O segundo compreende a adoção de novo paradigma, bioantropocêntrico, que influencia a epistemologia teológica e propugna a unidade entre o conhecimento intelectual e o experiencial-místico.
A ecoteologia se encontra em situação semelhante àquela vivida, faz alguns anos, pela teologia da libertação, quando adotou conceitos e categorias novos, e deve testar a pertinência, a legitimidade e a adequação deles. A dessemelhança reside no acento: não somente na práxis transformadora de cunho social, mas na também na postura ética e na mística que animam a existência humana na relação com a biosfera. Enquanto prática libertadora, a ecoteologia e sua vertente ética ampliam a percepção da prática libertadora, estimulando o compromisso socioambiental dos cristãos.
Em suma, a ecoteologia contribui para ressituar o ser humano à luz da fé cristã, no momento atual de crise global, e contribui para consolidar a consciência planetária: somos filhos da Terra e responsáveis por seu futuro.
Fonte: Afonso Murad, in Introdução a Teologia, Loyola, 2011, ed. revista e ampliada, cap.8.
A ecologia pode ser compreendida como ciência, ética e paradigma. As três dimensões se completam. Enquanto ciência, ecologia significa o estudo de como se inter-relacionam todos os seres que constituem a “comunidade de vida” em nosso planeta: os seres abióticos (água, ar, solo e energia do sol), os seres bióticos (microrganismos, plantas e animais) e o ser humano. Nascida da biologia, a ecologia ultrapassou seu campo inicial de conhecimento, ao propor estudar as relações, os contextos, e não somente determinados seres vivos em seu hábitat. Forja-se então a categoria “interdependência”: todos os seres estão em rede e as redes de matéria e energia são constitutivas na teia da vida.
A começar de seu objeto formal e do método, a ecologia postula a colaboração de muitos saberes. Somente se compreendem as relações na esfera da vida do planeta (biosfera) recorrendo simultaneamente a várias ciências, como biologia, física, química, geografia etc.... Fator semelhante acontece quando se estuda a ecologia humana, ao somar abordagens multidisciplinares da psicologia, da sociologia, da geografia humana, da economia, da história etc.
A abordagem científica da ecologia aproxima-se da teoria da complexidade de E. Morin, por reconhecer a incerteza e a incompletude como parte do conhecimento, que se mantém aberto para tecer novos fios e perceber relações ainda não compreendidas. A ecologia se liga também à holografia e a holística, enquanto percebe que em cada ser, biótico ou abiótico, há uma parte do cosmos, e que o todo é maior do que a soma das partes. A ecologia também se tornou um viés que influencia várias ciências teóricas e aplicadas, pois seu interesse se dirige à sustentabilidade, ou seja, a continuidade da vida no presente e no futuro do planeta. Daí surgem, por exemplo, a arquitetura e construção sustentáveis, a engenharia ambiental, o ecodesign na concepção de produtos, a gestão ambiental...
Ecologia, enquanto ética, diz respeito ao despertar da consciência (ecopercepção) e a empreender ações que tenham em vista a sustentabilidade. Inicia-se com a percepção de que a atual forma de o ser humano se relacionar com o ecossistema está equivocada e levará a humanidade e nossa “casa comum” a desastre sem precedentes. As mudanças climáticas fazem perceber, de forma inequívoca, que a atuação irresponsável do ser humano em relação ao ecossistema tem consequências graves e simultâneas, tais como alteração do ciclo das estações, perda da biodiversidade, contaminação (do solo, do ar e da água), perdas econômicas na agricultura, aumento de doenças respiratórias, custos econômicos não contabilizados e externalizados, etc.
A ética ecológica articula, de forma nova, a questão do indivíduo, do grupo, da instituição e das estruturas sociais e econômicas. Ela rejeita a exclusividade de fatores e a oposição entre subjetividade e coletividade. Propugna que a sociedade ecologicamente sustentável é possível quando se somam, de forma interdependente, atitudes individuais, ações familiares e coletivas, gestão institucional, adoção de políticas locais e nacionais, além de acordos internacionais em forma de protocolos vinculantes.
Assim, sustentabilidade postula também novo ethos humano e sociopolítico. Implica mudança de hábitos pessoais e comunitários de consumo e descarte. Interfere no processo de extração, produção, distribuição, consumo, descarte (ou reciclagem) dos bens e nos serviços a eles associados. Compreende por isso o triple botton line: econômico, social e ambiental. Transforma-se numa das grandes causas da humanidade, no presente e no futuro. Exige que o ser humano recubra o olhar de encantamento, percebendo que os outros seres não são “coisas”, que tome consciência de seu impacto sobre o planeta, da “pegada ecológica”, e assuma novas atitudes.
O paradigma ecológico, por sua vez, consiste na crítica e na superação do antropocentrismo moderno. O ser humano pode até se compreender como “centro consciente do universo conhecido”, mas ele nunca está sozinho. A espécie humana é fruto de longuíssimo processo de evolução da matéria. Somos filhos da Terra e parte da Terra. Por isso, a consciência planetária implica ética planetária: é preciso cuidar da Terra. Assim, ciência e ética se fundem, sem perder a especificidade, num modelo de compreensão do ser humano que se percebe como parte do meio ambiente e em contínua relação de interdependência com ele.
Qual a originalidade da ecoteologia, neste contexto? Brevemente:
— Trata-se de reflexão que resgata a unidade da experiência cristã e de sua formulação, apresentando em seu discurso a relação entre criação, história, encarnação, morte e ressurreição de Jesus, e o início da nova criação.
— Reelabora a teologia da criação na perspectiva da interdependência, mostrando que o ser humano, nos relatos bíblicos, é feito por Deus do barro da terra (consciência ecoplanetária), para cuidar do jardim, assim como para servir-se das outras criaturas, exercitando o senhorio como Deus é Senhor. Há relação estreita entre criação e salvação, e todos os seres estão nelas implicados.
— Explicita e fundamenta a ética do cuidado com o mundo, em ligação estreita com a moral social, ampliando sua abrangência.
— Propõe-se a superar a fragmentação das disciplinas teológicas e, na linha da teoria da complexidade, empenha-se no diálogo efetivo com as “ciências da natureza”.
— Estimula a espiritualidade ecológica, que associa no louvor e no serviço todos os seres à obra criadora, redentora e santificadora da Trindade.
— Estabelece teias de mútua aprendizagem com a teologia da libertação (dimensão social da fé), a teologia feminista, a teologia afro-ameríndia e a teologia das religiões.
A ecoteologia, que apenas se delineia no momento, contribui para superar visões equivocadas ou restritivas da relação do ser humano com o ambiente, assim como de sua própria autocompreensão. Ao se rebelar contra o racionalismo moderno e sua sede ilimitada de tudo explicar e esquadrinhar, o ser humano pode resvalar em posturas irracionais. Confunde-se reencantamento com ingenuidade ou espírito mágico. Exemplos palpáveis se encontram nos discursos de certos grupos religiosos sobre o sentido da doença, do mal, da injustiça social e do destino. Contrariamente ao orgulho antropocêntrico, que tudo submete ao ser humano, proliferam as crenças numa infinidade de determinismos cósmicos sobre o devir individual e coletivo. Além disso, a categoria “energia”, retirada da física quântica, seria uma panaceia que tudo justifica, sem nada explicar.
A holística pode servir à construção do cristianismo atualizado, coerente e cheio de vida; boa-nova para homens e mulheres desesperançados em busca de um fio condutor, sedentos por nova forma de enfocar a posição do ser humano em relação ao cosmos. O fato de comungar com nova mentalidade, compartilhada por grupos não cristãos ou pós-cristãos, não implica aceitação incondicional de todos os componentes. Existem na holística “sinais dos tempos” e sementes do Verbo que pedem reconhecimento e valorização. Há que evitar, no entanto, um pretenso neouniversalismo que a tudo dilui e relativiza, esvaziando o conteúdo da proposta de Jesus Cristo, a novidade radical do Evangelho. Diferentemente do panteísmo, que abole as fronteiras entre o humano e o divino, a ecoteologia propõe o panenteísmo. Compreende que todos os seres estão em Deus e para ele se destinam, pois foram criados pelo Pai, por meio da Palavra (o filho), no Espírito. Este sustenta, renova e leva à consumação a criação.
A ecoteologia tem diante de si duplo compromisso programático. O primeiro consiste em reenfocar temas e disciplinas teológicas, considerando a participação de todos os seres no projeto de redenção e a premência do compromisso ético com a “salvaguarda da criação”. O segundo compreende a adoção de novo paradigma, bioantropocêntrico, que influencia a epistemologia teológica e propugna a unidade entre o conhecimento intelectual e o experiencial-místico.
A ecoteologia se encontra em situação semelhante àquela vivida, faz alguns anos, pela teologia da libertação, quando adotou conceitos e categorias novos, e deve testar a pertinência, a legitimidade e a adequação deles. A dessemelhança reside no acento: não somente na práxis transformadora de cunho social, mas na também na postura ética e na mística que animam a existência humana na relação com a biosfera. Enquanto prática libertadora, a ecoteologia e sua vertente ética ampliam a percepção da prática libertadora, estimulando o compromisso socioambiental dos cristãos.
Em suma, a ecoteologia contribui para ressituar o ser humano à luz da fé cristã, no momento atual de crise global, e contribui para consolidar a consciência planetária: somos filhos da Terra e responsáveis por seu futuro.
Fonte: Afonso Murad, in Introdução a Teologia, Loyola, 2011, ed. revista e ampliada, cap.8.
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